No verão o estado de tempo mais comum é de chuva
Pedro Hauck
No verão o estado de tempo mais comum é de chuva

A história de Roberto Farias Thomaz, o jovem que se perdeu na desafiadora ascensão do Pico Paraná  e emergiu após cinco dias de descida pelo temido Vale do Rio Cacatu, transformou-o em mais do que um sobrevivente: ele se tornou um fenômeno midiático. Convidado para campanhas publicitárias e capitalizando sua incrível experiência, a jornada de "Robertinho"(ou "Betinho", como é carinhosamente chamado por amigos e família) é inegavelmente uma narrativa cativante de superação. No entanto, é fundamental analisar essa história sob uma lente crítica, especialmente considerando que a situação de perigo foi, em grande parte, autoinfligida.


Recentemente, no início de fevereiro, Betinho esteve no prestigiado Refúgio Auto Montanha, um conhecido ponto de encontro para a comunidade montanhista de Curitiba – uma cidade com uma longa e sólida tradição no montanhismo. Durante uma entrevista que assisti na íntegra, com mais de duas horas de duração, a personalidade carismática e divertida de Robertinho manteve a audiência completamente engajada. Sua fala confirmou muitas das minhas suspeitas, baseadas em meus 28 anos de experiência e mais de duas décadas escrevendo sobre o montanhismo no Brasil (desde 2002).


Aos 19 anos, Robertinho demonstrou uma inexperiência no montanhismo que, tragicamente, culminou em seu extravio. Ele mesmo confessou estar mal equipado – um erro crucial. Além disso, era sua primeira vez no Pico Paraná, e ele não possuía o conhecimento básico sobre a trilha e suas particularidades topográficas.


Um detalhe marcante de sua experiência, revelado durante a entrevista, diz respeito ao ponto onde se perdeu. Ele descreveu o local como uma "encruzilhada", quando na verdade a trilha principal segue em linha reta, passando por uma leve depressão. Robertinho tomou um caminho inexistente à esquerda, que, embora possa dar a impressão de ser uma trilha, leva ao erro. Sua mentalidade, segundo ele, era a de que "ao descer da montanha, você apenas desce". Essa crença simplista desconsidera a complexidade do relevo do Pico Paraná, onde a rota de retorno do cume exige diversas subidas curtas, mesmo na descida geral. A depressão em questão, por exemplo, exige vencer um pequeno aclive, um "degrau" de apenas três metros.


Ao tomar o caminho errado e persistir nele, Robertinho logo percebeu a gravidade da situação. Contudo, em um estado de intensa desorientação, ele concluiu que, por já ter descido muito, seria melhor continuar, na esperança equivocada de que o trajeto o levaria à Fazenda Pico Paraná, o ponto de acesso inicial. Sua desorientação era profunda: ele não havia se dado conta de que a rota de subida havia contornado uma cadeia de montanhas (como o Caratuva e o Itapiroca) e que o rio que encontrou – o Cacatu – desagua na Baixada Litorânea, não no Primeiro Planalto, em direção ao interior. Para quem conhece a geografia do Paraná, é sabido que os rios que correm nas gargantas profundas da Serra do Mar seguem para o litoral. Essa falta de percepção básica do ambiente circundante foi um fator de risco inegável.


É justo, como afirmado por Robertinho e sua irmã, uma pessoa notavelmente articulada, que ele não seja rotulado como herói, mas sim como um sobrevivente. No entanto, sua história e a atenção midiática que recebeu oferecem uma oportunidade crucial que não pode ser desperdiçada: a conscientização sobre os perigos do montanhismo no verão.


O Perigo Silencioso do Verão nas Montanhas


Com meus anos de prática e escrita, tenho realizado uma campanha anual e incessante para  alertar sobre o perigo de praticar montanhismo nas serras mais altas do Sul e Sudeste brasileiro durante os meses de verão. Esta não é uma opinião isolada; é um fato estatístico comprovado. Recentemente, uma amiga e diretora do COSMO (um respeitado grupo voluntário de busca e resgate no Paraná), Bárbara, publicou uma tese que evidencia que o verão é a época de maior incidência de acidentes e resgates.


As estatísticas são alarmantes: 75% das ocorrências de resgate nas montanhas paranaenses acontecem nos meses de verão. Isso se torna ainda mais grave se considerarmos que, devido ao mau tempo, o número de pessoas que se aventura nas montanhas é reduzido pela metade neste período. A conclusão é direta: o mau tempo, predominante no verão, é o principal responsável pelos acidentes.


O verão traz consigo um coquetel perigoso de condições:

  • Chuva Intensa e Mau Tempo: Ocorrência frequente de chuvas fortes, tempestades elétricas e baixa visibilidade devido às nuvens.
  • Hipotermia: Embora seja a estação mais quente, a chuva e a queda de temperatura à noite levam à hipotermia, a maior causa de morte nas montanhas no verão. As pessoas se molham e, com a baixa noturna da temperatura, as condições são ideais para a tragédia.
  • Condições de Trilha: Trilhas extremamente escorregadias.
  • Fauna Peçonhenta: O calor nas regiões mais baixas da montanha é um chamariz para o aparecimento de animais peçonhentos.
  • Cabeças D'água: Um perigo colossal nos rios. O próprio Betinho relatou ter ouvido este fenômeno todos os dias de sua provação.

O erro mais grave de Robertinho não foi se perder no sentido estrito, mas sim ter ido para a montanha mais alta e difícil do Sul do país – que exige pernoite e um tempo considerável para ida e volta – justamente na época do Réveillon, em pleno verão. Embora este não tenha sido o motivo de seu extravio, as condições climáticas adversas do verão dificultaram as buscas e puseram sua vida em um risco desnecessário. Ele teve sorte de que o clima chuvoso não ceifou sua vida por hipotermia, um destino comum para quem se molha e passa a noite no relento nessas montanhas.


O pesadelo que Robertinho vivenciou, amplamente divulgado pela mídia, repete-se a cada fim de semana na Serra do Mar Paranaense, com mais resgates, lesões e pessoas perdidas.


É imperativo que a mensagem de conscientização se espalhe. Robertinho, com sua nova influência midiática, deveria se tornar um porta-voz crucial dessa causa: Evitar ascensões em montanhas no verão!


O objetivo deste texto é amplificar o apelo à comunidade: o verão é uma época perigosa para as montanhas mais exigentes.


Os melhores meses para a prática segura do montanhismo no Brasil vão de MAIO a SETEMBRO. Ao divulgar esta mensagem, poderemos proteger mais vidas e aliviar a carga sobre bombeiros, socorristas e a comunidade montanhista. O montanhismo deve ser praticado com consciência e respeito à natureza, não apenas com o desejo de superação.


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