Preços na Argentina 2026
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Preços na Argentina 2026

Acabo de retornar de uma extensa expedição pela Argentina e, como viajante frequente há mais de 25 anos, tenho acompanhado de perto as transformações econômicas do país, especialmente nos últimos dois anos de governo do presidente Javier Milei. Minha experiência, que incluiu gastos em hotéis, restaurantes, postos de gasolina e supermercados, me permite oferecer uma perspectiva única e aprofundada, indo além das análises muitas vezes polarizadas que circulam na mídia.


Minha história com a Argentina remonta à era Menem, quando o dólar valia o mesmo que o peso (a "convertibilidade"). Vi a bolha se formar na época de De la Rúa e testemunhei o caos da crise de 2001, quando o dólar dobrou de valor após a dramática evacuação do presidente da Casa Rosada. Foi a partir daquela desvalorização que a Argentina, para o olhar estrangeiro, começou a se tornar um destino financeiramente acessível.


O câmbio e a crise da confiança


A prolongada crise argentina levou à adoção de políticas heterodoxas, como a criação do "dólar oficial"(BNP), um valor artificialmente mantido pelo governo. No entanto, o argentino comum, buscando proteger suas economias, continuou a operar com o "dólar blue" ou paralelo, negociado no mercado informal. Para os estrangeiros, essa disparidade cambial era uma grande vantagem: ao trocar dólares americanos pela taxa blue, o poder de compra aumentava drasticamente, tornando a viagem muito barata. O "macete" era nunca pagar com cartão de crédito, pois a conversão utilizava o câmbio oficial, desvantajoso.

A crise de 2001, marcada pelo traumático "Corralito"(bloqueio de depósitos bancários, similar ao ocorrido no Brasil com Collor), destruiu a confiança popular no sistema financeiro. O argentino criou o hábito de sacar seus salários e realizar todas as transações em dinheiro vivo. Mais grave ainda, desenvolveu a "mania" de fazer poupança em dólar, guardando o dinheiro "no colchão". Essa massa de dólares fora do sistema – não investida, não poupada em fundos – representava um capital "morto" que paralisava o crescimento da economia.


O ''efeito Milei'' no câmbio e a valorização temporária do peso


Com a eleição de Javier Milei, houve um voto de confiança, e parte dessa classe média que guardava dólares em casa começou a depositá-los nos bancos novamente. Esse movimento gerou um fenômeno cambial peculiar. Ao converter os dólares guardados em pesos para depositar, a demanda pela moeda local fez com que o peso argentino se valorizasse.


Pouco antes da eleição, o dólar chegou a valer cerca de 1.500 pesos. Com a entrada de dólares no sistema, o peso se fortaleceu, chegando a aproximadamente 900 pesos por dólar. Embora a inflação em pesos continuasse alta (cerca de 35% em 2025, muito superior à do Brasil), a repentina valorização do peso em relação ao dólar fez com que a Argentina vivesse um período de "inflação em dólar".


O pico de preços e o cenário atual


Eu vivenciei esse período histórico entre o final de 2024 e o início de 2025, quando os preços atingiram níveis absurdos para o poder de compra estrangeiro. Paguei US$ 8 por um choripam (sanduíche de linguiça de rua) em Mendoza, um preço impensável até mesmo em países europeus, e US$ 50 por um bife de chorizo em uma parada de caminhoneiros, valor equivalente a um restaurante de luxo no Leblon ou Jardins.


No entanto, nos meses seguintes, a dinâmica cambial mudou novamente. Os preços em pesos continuaram a subir devido à inflação, mas a moeda argentina voltou a se desvalorizar em relação ao dólar, retornando a patamares de cerca de 1.450 pesos por dólar (no momento da minha viagem).


Comparação de preços: Argentina vs. Brasil


Hoje, a Argentina já não é o destino "ultrabarato" de antes, mas também não está tão proibitiva quanto há um ano. A realidade atual se assemelha muito aos preços de grandes centros urbanos brasileiros, como São Paulo e Rio de Janeiro:

Gasolina: Custa em média cerca de R$ 8 por litro.
Bife de Chorizo (Restaurante Médio): Aproximadamente US$ 18.
Big Mac: Por volta de US$ 11.
Hospedagem (Hotel 3 Estrelas): Entre US$ 50 e US$ 70 a diária.


Os preços são quase "internacionais". A Argentina se tornou um país onde é preciso pesquisar. É possível viajar de forma econômica – encontrei hostels por US$ 10 a noite em Buenos Aires e comi em locais mais em conta – mas o turista não pode mais entrar em qualquer restaurante sem antes consultar o cardápio e os preços, como era o costume.


Infraestrutura e segurança no governo Milei


Em relação à infraestrutura, houve um notável corte de gastos, a "motosserra" de Milei. As estradas mostram sinais de deterioração devido à redução no investimento em manutenção. No entanto, o tráfego de caminhões é significativamente menor que no Brasil, o que ainda garante uma boa margem de segurança nas rodovias. Há também a vantagem de poucos pedágios.


Em termos de segurança, a Argentina, assim como o restante da América Latina, enfrenta seus desafios. O risco de roubo violento é menor que nas grandes cidades brasileiras, mas o cuidado é sempre necessário. Nossa experiência brasileira, aliás, nos torna mais precavidos e experientes em evitar situações de perigo.


Conclusão


A Argentina continua sendo um país lindo, produtivo e de grande importância regional. Os preços super-baixos do passado não existem mais, mas o país também não está com os valores proibitivos de um ano atrás. Viajar pela Argentina hoje exige um planejamento financeiro semelhante ao de uma viagem por São Paulo ou Rio de Janeiro. Há opções para todos os bolsos – do hostel barato ao restaurante de luxo –, mas a regra é clara: pesquise os preços antes de entrar. A Argentina vale muito a pena, mas a era do "tudo barato" ficou para trás.

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