
Tentar descrever o Bananada e a importância que o Festival tem para a cultura, para a música e para Goiânia é uma missão difícil. Minha pri meira experiência foi em 2014 para assistir Emicida e Rael. De lá para cá, consegui passar por outras edições até chegar a de 2026, ano do retorno depois de sete anos sem o festival.
Talvez a dificuldade de explicar esteja justamente aí. Falar do Bananada é, em alguma medida, falar de uma parte importante da história recente da música independente produzida e consumida em Goiás.
O festival nasceu em Goiânia em 1999 como duas noites dedicadas ao rock independente. Vinte e sete anos depois, chegou à 21ª edição realizada na cidade com mais de 100 atrações. Entre terça-feira (18) e domingo (23), shows, showcases, festas e outras atividades passaram por diferentes pontos da capital antes de a programação principal se concentrar no Centro Cultural Oscar Niemeyer.
O projeto de 2026 foi selecionado pelo Petrobras Cultural, com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura. A programação se espalhou por centros culturais, bares, casas noturnas, restaurantes e outros espaços. Só a edição deste ano ocupou 12 pontos de Goiânia.
E isso ajuda a entender por que o Bananada às vezes parece quase intangível quando é contado de fora.
Mas não é.
É possível ir ao Bananada.
E é praticamente impossível passar por ele sem encontrar alguma coisa que você ainda não conhecia.
Eu acompanhei três dos seis dias: a abertura, na terça-feira; a programação de sexta; e o encerramento, no domingo. Foram três experiências muito diferentes dentro do mesmo festival.
Foi também um exercício de prestar mais atenção. Sair de um palco sem necessariamente saber quem estaria no seguinte. Ouvir uma banda pela primeira vez. Guardar um nome. Conversar depois do show. Descobrir que aquilo que parecia apenas mais uma atração escondida no meio de uma programação gigantesca poderia se tornar uma das melhores lembranças do festival.
Talvez seja justamente essa uma das funções mais importantes do Bananada.
Durante a coletiva que antecedeu o festival, uma frase da organização ajudou a explicar essa lógica. Os grandes nomes ocupam as primeiras linhas do cartaz, mas, na visão dos próprios produtores, muito do que constitui o Bananada está “da quinta linha para baixo”: artistas menores, projetos novos e gente ainda tentando formar público.
É uma ideia coerente com a história do evento. O Bananada surgiu justamente como espaço para uma cena que tinha pouca vitrine e foi crescendo sem abandonar completamente essa lógica de descoberta. Em 2026, nomes como Arnaldo Antunes, Gaby Amarantos, Tulipa Ruiz, BaianaSystem e Don L dividiram o festival com dezenas de artistas menos conhecidos do grande público.
Minha terça-feira mostrou exatamente isso.
O festival começou onde talvez devesse começar: no Martim Cererê.
Existe alguma coisa naquele espaço que é difícil separar da história da música alternativa de Goiânia. Basta conversar com algumas por alguns minutos com alguém que viveu essa cena nas últimas décadas e provalmente aparecerá alguma história sobre o Martim.
Gente que pegava três ou quatro ônibus para chegar. Quem ficava do lado de fora porque não tinha dinheiro. Quem pulava o muro. Quem encontrou ali uma banda que mudou sua relação com música. Quem saiu de um show com vontade de montar a própria.
Naquela terça, passei por Black Drawing Chalks, Hellbenders e outros shows até chegar a uma das maiores descobertas pessoais da edição: Deb and The Mentals.
Havia pouca gente diante do palco naquele momento. A banda se manteve em peso, urgência, no grunge e em uma apresentação que não permitia muita distração.
Pouco depois, conversei com os integrantes sobre influências, música independente, a relação com festivais e outras passagens por Goiânia.
A história ganhou outra dimensão porque a banda já sabe qual será um de seus próximos grandes palcos: Deb and The Mentals foi escolhida, ao lado de Karen Dió, para participar da abertura dos dois shows do Foo Fighters no Brasil em fevereiro de 2027, em Belo Horizonte e São Paulo.
É difícil encontrar uma imagem melhor para a lógica da descoberta.
Em uma terça-feira, uma banda toca diante de algumas dezenas de pessoas no Martim Cererê. Meses depois, estará diante de milhares abrindo um dos maiores grupos de rock do mundo.
O Bananada não produziu essa trajetória sozinho, evidentemente. Mas continua sendo um desses lugares onde as trajetórias se cruzam.
Do Martim à Arena
Na sexta-feira, o festival mudou de escala.
A programação principal havia chegado à Arena Bananada, montada no Centro Cultural Oscar Niemeyer. Eram três palcos e uma circulação constante de pessoas tentando decidir qual apresentação acompanhar.
Jovens Ateus foi outra descoberta.
Uma banda que eu conhecia pouco e que entregou um show muito bem tocado, cheio de energia e daquele tipo capaz de fazer você sair pensando: preciso ouvir isso com calma depois.
Essa talvez seja uma das melhores coisas de um festival. Você compra ingresso pensando em três ou quatro artistas e volta para casa procurando outros seis.
Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro vieram depois.
Foi um showzaço.
Há uma mistura muito particular ali. Letra, ruído, melodia, humor, estranhamento e improvisação parecem disputar espaço sem que uma coisa destrua a outra. É experimental sem ser inacessível e divertido sem precisar ser simples.
Mas havia um destino bastante claro naquela sexta.
Boogarins tocando Clube da Esquina.
Depois da entrevista com Dinho e de ouvi-lo falar tanto sobre Goiânia, sobre formação musical e sobre a relação do grupo com a música brasileira, assistir àquele espetáculo ganhou outro sentido.
Era uma banda goiana, reconhecida internacionalmente por sua própria psicodelia, voltando ao festival onde começou para mergulhar em um dos repertórios mais importantes da música brasileira.
Dinho já havia me contado que o grupo tinha preocupação em tratar aquele material com respeito e que a experiência de tocar com Toninho Horta ajudou a dar segurança ao projeto. Para ele, havia ainda outra ideia: mostrar que aquela música brasileira também podia encontrar alguma coisa de Goiás.
No palco, funcionou como uma ode.
Não parecia um simples show de covers. Parecia uma conversa entre diferentes gerações de música brasileira.
O último domingo
Cheguei ao domingo já conhecendo melhor o terreno.
Ouvi Tuyo. Passei por Mateus Fazeno Rock. Vi Salma Jô em uma nova etapa de sua trajetória fora do Carne Doce.
E descobri Vera Fischer Era Clubber.
Talvez uma das atrações que melhor expliquem como é inútil tentar colocar o Bananada dentro de um gênero.
O show é dançante, sensual, irônico e estranho na medida certa. Há humor nas letras, teatralidade e uma música que parece brincar com o próprio exagero.
Em outro palco, o festival poderia oferecer rap. Em seguida, guitarras. Depois, música eletrônica.
Até chegar ao BaianaSystem.
E aqui é difícil manter qualquer pretensão de distanciamento.
Foi o melhor show que eu já vi.
O espaço estava completamente tomado. Havia momentos em que praticamente não existia lugar para se mover sem acompanhar o movimento coletivo da multidão.
A energia do BaianaSystem ao vivo é difícil de traduzir.
Não se trata apenas da guitarra baiana, da percussão, dos graves ou da força de Russo Passapusso no palco.
Existe pensamento naquela música.
É um espetáculo político sem deixar de ser festa. Questões raciais, trabalho, desigualdade, violência, cidade e identidade aparecem sem transformar a apresentação em discurso separado da música.
A ideia está dentro do som.
O corpo percebe primeiro.
Você pula, dança, acompanha o movimento da plateia e só depois se dá conta da quantidade de coisas que está sendo convidado a pensar.
Para quem nunca assistiu ao BaianaSystem ao vivo, minha recomendação é simples: assista.
Espero que voltem muitas vezes a Goiânia.
Muito além da música
Mas há outro buraco quando se tenta contar o Bananada apenas a partir dos shows.
O festival de 2026 reuniu mais de 100 atrações, mas a proposta ocupava também outros espaços da experiência cultural. Antes mesmo da abertura, o Bananada nas Escolas levou apresentações, conversas e DJs para escolas públicas de Goiânia durante agosto.
Na Arena, essa lógica aparecia de outra maneira.
Enquanto bandas tocavam, artistas trabalhavam em um grande painel. Havia produtores independentes vendendo roupas, bonés, pinturas e objetos. Tinha uma estrutura de escalada. Havia encontros profissionais e circulação de músicos que minutos antes estavam no palco.
Pamonha, empadão goiano e sanduíches inspirados na cultura dos pit dogs dividiam espaço com outras opções. A gastronomia não funcionava apenas como serviço necessário para quem ficaria horas no evento. Também ajudava a inserir Goiás dentro da experiência.
Isso é coerente com uma transformação que o próprio Bananada começou a fazer anos atrás. O evento deixou de ser apenas um festival concentrado em palcos para assumir uma característica multicultural e espalhar atividades pela cidade. Em 2012, já incorporava gastronomia, artes, casas noturnas e outros espaços ao circuito.
No Oscar Niemeyer, durante o fim de semana de 2026, parecia existir uma pequena cidade funcionando dentro da cidade.
E talvez a palavra seja justamente essa: ecossistema.