Público acompanha show durante edição anterior do Festival Bananada, em Goiânia
Arquivo Bananada
Público acompanha show durante edição anterior do Festival Bananada, em Goiânia












Antes de subir ao palco do Bananada, Dinho, do Boogarins, já considerava o festival sua casa. Ainda adolescente, saía de Aparecida de Goiânia para atravessar a cidade atrás dos shows no Martim Cererê. Quando faltava dinheiro, pulava o muro. Em outras ocasiões, dormia na porta para conseguir voltar para casa apenas no dia seguinte.

“Já achava o Bananada minha casa sem nunca ter tocado lá, porque era esse lugar onde nós íamos para curtir. Nós pulávamos o muro para entrar no Martim. Já dormi na porta porque tinha que voltar para Aparecida no outro dia do festival”, relembra.

Dinho, vocalista da banda Boogarins
Gabriel Rolim / Divulgação
Dinho, vocalista da banda Boogarins


Anos depois, a relação se inverteu. O primeiro show do Boogarins foi seguido, logo na segunda apresentação da banda, por uma participação no Bananada. O grupo cresceu, deixou Goiânia, atravessou o Brasil e acumulou apresentações no exterior. Ainda assim, Dinho diz que continua fazendo questão de apresentar a banda da mesma forma quando sobe ao palco: “Boogarins, de Goiânia”.

É justamente essa relação entre a Capital, seus artistas e os lugares onde eles se encontraram que o Festival Bananada tenta retomar a partir desta terça-feira (18). Depois de sete anos fora do calendário, o evento volta a ocupar Goiânia com uma programação espalhada até domingo (23) e com a intenção declarada de permanecer por pelo menos mais nove anos.

A edição de 2026 abre no lugar que atravessa boa parte dessas memórias: o Centro Cultural Martim Cererê. Ao longo da semana, o festival passa também por casas como Shiva Alt-Bar, Monkey Bar, Zona Pub e Zé Latinhas. A partir de sexta-feira (21), a programação principal se concentra no Centro Cultural Oscar Niemeyer, onde três palcos recebem artistas como Arnaldo Antunes, Tulipa Ruiz, Gaby Amarantos, Tuyo, Mateus Fazeno Rock e BaianaSystem.

Uma cidade órfã do Bananada

Sete anos representam mais do que uma interrupção na agenda de shows. Para quem vive a produção independente em Goiânia, significaram praticamente uma geração inteira sem um dos espaços que ajudavam a conectar bandas, público, produtores e novos projetos.

“O Bananada ter ficado fora da cena por sete anos deixou a gente órfão”, resume a DJ Yasmim Lauck, que se apresenta no Martim Cererê na quarta-feira (19), com um set voltado ao indie e ao rock. “Grande parte do nosso movimento cultural se concentrou no Bananada por muito tempo. Sempre foi um festival de apresentar música nova, projetos novos e conectar pessoas nesse espaço.”

Dj Yasmim Lauck é DJ produtora cultural no Bananada
Gustavo Burns / Divulgação
Dj Yasmim Lauck é DJ produtora cultural no Bananada


A fala encontra eco nas lembranças de Dinho. Para ele, a força do Bananada não pode ser separada de uma cena alternativa construída em Goiânia em torno de festivais, casas de shows e, principalmente, do Martim Cererê.

“A cena de festivais do Martim Cererê de Goiânia me impulsionou a ter banda, me impulsionou a viver isso. Sou muito grato por isso”, afirma.

Na memória do músico, havia algo quase ritualístico naquele deslocamento de jovens de Aparecida, Trindade e outras regiões da Grande Goiânia em direção ao centro da capital. Eram dois, três ou quatro ônibus para chegar a um show. Muitas vezes havia mais disposição do que dinheiro.

“Você precisa ter um show forte. Isso que a cena de Goiânia ensina”, diz. “Todo mundo das cidades em volta pegava três ônibus. Era: vamos para o Martim, vamos ficar bebendo lá na porta, vamos entrar nesse show, bater cabeça, entrar na roda, voltar para casa e ficar feliz.”

Para Dinho, essa intensidade também ajudou a criar uma característica própria da música feita em Goiânia. Em uma cidade fortemente associada a outra indústria musical — a sertaneja —, ele enxerga justamente no contraste uma das forças da produção alternativa.

“Eu acho que, ao mesmo tempo que vai ter essa coisa agro, ela força a ter essa coisa alternativa forte”, afirma. “Tem uma coisa de exercício, de luta, do ser alternativo.”

Do público para o palco

Se a trajetória do Boogarins ajuda a contar o que o Bananada foi, Bruna Mendez permite olhar para o que o festival pretende voltar a fazer.

A cantora goiana já construiu sua própria carreira e lançou, em 2024, o álbum 'Nem Tudo é Amor'. Mas nunca se apresentou no Bananada. Em 2026, vai subir pela primeira vez ao palco do festival levando justamente um disco que, segundo ela, nasceu dentro de uma atmosfera cultural da qual o próprio evento fazia parte.

“Vai ser a primeira vez que vou tocar esse disco num festival com essa atmosfera em que fui criada, dentro do Martim Cererê. Então estou ansiosa para apresentar esse disco”, afirma.

Bruna Mendez se apresenta pela primeira vez no Festival Bananada e leva ao palco o álbum “Nem Tudo é Amor”, lançado em 2024
Divulgação / Stúdio Colors
Bruna Mendez se apresenta pela primeira vez no Festival Bananada e leva ao palco o álbum “Nem Tudo é Amor”, lançado em 2024


Bruna avalia que a ausência do Bananada retirou da cidade não apenas um grande evento, mas uma referência possível para quem começava a se aproximar da música.

“Perdemos muito de referência para a cena, para novos artistas e também para a formação de público. Para quem assiste é importante, porque vai aos shows e vem a vontade de ter uma banda, de tocar em um grande festival”, diz.

Isso não significa, ressalta, que a produção local tenha parado nesses sete anos. Novos artistas surgiram, espaços permaneceram ativos e outras iniciativas mantiveram a música independente circulando.

“Tem muitos artistas incríveis que surgiram mesmo sem essa referência, mas a importância de um lugar como o Bananada é indiscutível”, afirma Bruna. Para ela, o festival ajuda a “fomentar e consolidar” uma cena, mas também representa “toda a atmosfera e todo o ecossistema que foi criado para a música alternativa e independente”.

Um festival como ponto de encontro

A mistura entre quem estava lá antes e quem apareceu durante o intervalo é proposital.

O diretor do Bananada, Fabrício Nobre, afirma que uma das características históricas do evento sempre foi colocar no mesmo circuito artistas consolidados e nomes ainda no início da trajetória.

“A gente está muito feliz de voltar a ocupar a cidade e reencontrar esse público”, afirma. “O Bananada sempre foi feito dessa mistura.”

Dinho conhece o efeito dessa ponte dos dois lados. Primeiro foi o garoto querendo entrar no festival. Depois, integrante de uma banda procurando espaço. Hoje, conta que músicos de outros centros chegam até ele pedindo uma ajuda justamente para tocar no Bananada.

“Agora que nós estamos mais velhos é assim que os novinhos chegam: ‘Fala para botar nós no Bananada’”, brinca.

A projeção conquistada pelo festival, diz, também passou a funcionar como uma espécie de cartão de visitas de Goiânia fora de Goiás. Em turnês, inclusive internacionais, o músico relata encontros com pessoas que conheciam a cidade por causa das conexões construídas pela cena independente.

“É muito legal você poder dizer que a cidade de onde você vem é legal e poder ensinar para a galera dos grandes centros o que eles precisam conhecer aqui”, afirma.

Mais nove anos pela frente

O retorno de 2026 também chega acompanhado de um compromisso de continuidade. Durante a apresentação da nova fase do festival, a organização afirmou ter perspectiva de realizar pelo menos dez edições a partir deste ano.

Na prática, se o planejamento for mantido, o Bananada permanecerá no calendário por mais nove anos após 2026.

A nova fase também aposta na ampliação das conexões internacionais. A organização cita parcerias e intercâmbios com projetos de fora do país e afirma que mais de 200 ingressos desta edição foram comprados por pessoas que não são brasileiras.

Mas, antes de pensar na próxima década ou em atravessar fronteiras, o primeiro movimento é quase doméstico: voltar a abrir as portas, ocupar novamente os espaços da cidade e colocar novas e antigas gerações diante dos mesmos palcos.

No caso do Martim Cererê, isso significa reunir nesta semana quem se lembra de pular seus muros para assistir a um show e quem ainda vai descobrir o que pode acontecer depois de entrar.

Confira a programação


Terça-feira – 18 de agosto

Local: Centro Cultural Martim Cererê

19h20 às 20h – Bahakä Palmer (SP) (palco Yguá)

20h às 20h40 – Dirty Grills (SC) (Pyguá)

20h40 às 21h20 – Zeppelin e o Sopro do Caos (PR) (Yguá)

21h20 às 22h – Camarones Orquestra Guitarrística (RN) (Pyguá)

22hàs 22h40 – Black Drawing Chalks (GO) (Yguá)

22h40 às 23h20 – Deb and The Mentals (SP) (Pyguá)

23h às 00h – Hellbenders (GO) (Yguá)

Endereço: Rua 94-A, nº 333, Setor Sul 

Local: Shiva Alt-Bar (Mostrock)

19h30 - Corja (GO)

20h30 - Zelena (GO)

21h30 - No Rest (RS)

22h30 - Flor Et (RS)

Endereço: Alameda das Rosas, 1371, Setor Oeste 

Quarta-feira – 19 de agosto

Local: Centro Cultural Martim Cererê

19h – Yasmin Lauck (GO)

20h – Soprú (TO) (Pyguá)

20h40 – Banana Bipolar (GO) (Yguá)

21h20 – Tutu Nana (SC) (Pyguá)

22h – Aquino (RJ) (Yguá)

22h40 – Cool Sorcery (DF) (Pyguá)

23h – Varanda (MG) (Yguá)

Endereço: Rua 94-A, nº 333, Setor Sul

Local: Shiva Alt-Bar (Música Transforma)

19h30 - Música Transforma DJ Set

20h10 - Can Sad (GO)

20h50 - Lambada da Serpente (DF)

21h10 - Passo Largo (DF)

22h10 - Esdras Nogueira (DF)

23h30 - Dom Casamata e a Comunidade (GO)

Endereço: Alameda das Rosas, 1371, Setor Oeste 

Local: Monkey Bar 

19h - Despenca (GO)

19h45 – Prehistoric Music Department (GO)

20h30 – D Selvagi (SP)

21h15 – Pedro Yes and The No’s (SP/GO)

Endereço: Rua 242, nº 66, Setor Leste Universitário

Local: Zona Pub – Fósforo Cultural

20h – Vermute (GO)

21h – Synx (GO)

22h – Damah (GO)

23h – Sótão (GO)

Endereço: Rua 8, nº 480, Centro 

Quinta-feira – 20 de agosto

Local: Centro Cultural Martim Cererê – Psicotrópicos e Coquetel Molotov

19h – Chico Dub (palco externo)

20h – Flavia Carolina convida Dinho (GO) (Pyguá)

20h40 – Maduli (GO) (Yguá)

21h20 – Jader (PE) (Pyguá)

22h – Felipe Cordeiro (PA) (Yguá)

22h40 – Giovani Cidreira (BA) (Pyguá)

23h – Vitor Araújo (PE) + Kiko Dinucci (SP) (Yguá)

Endereço: Rua 94-A, nº 333, Setor Sul

Local: Shiva Alt Bar – Circuito

19h30 - Jonabug (SP)

20h30 - Supervão

21h30 - Choococorn & The Sugarcanes (SP)

22h30 - Ottopapi (SP)

Endereço: Alameda das Rosas, 1371, Setor Oeste 

Local: Zé Latinhas – Piranhão

20h - DJ Gabi Matos (GO/PA)

21h - DJ Rosa (GO)

22h30 - DJs Xêpa (RJ)

00h às 1h - DJ Carol Tucuju (AP) (Furnas)

1h às 3h - Luxuosos Corações (AP) (Furnas)

3h às 4h - Margot Inajosa (AP)

Endereço: Rua 8, nº 515, Centro 

Local: Salve! Goró, Borogodó e Ziriguidum

20h - MC Tchelinho (RJ)

21h30 - Caveira (GO)

23h - Vanessona (GO)

00h - Poli (GO)

Endereço: Rua 86, nº 555, Setor Sul 

Sexta-feira - 21 de agosto

Arena Bananada - Centro Cultural Oscar Niemeyer

Endereço: GO-020 - Chácaras Alto da Glória 


Palco Circuito

17h às 18h30 – Tobeats (GO)

18h30 às 19h10 – Jonabug (SP)

19h20 às 20 – Chococorn & The Sugarcanes (SP)

20h50 às 21h30 – Supervão (RS)

22h30 às 23h10 – OttoPapi (SP)

Palco Bananada

20h às 20h50 – Jovens Ateus (SP)

21h30 às 22h20 – Rancore (SP)

23h10 às 00h – Sophia Chablau (SP) e Felipe Vaqueiro (BA)

00h20 à 1h30 – Boogarins toca Clube da Esquina (GO)


After Bananada 

Fuga @ Seiva Seiva (After)

Horário: 22h às 8h

Gui Scott (Gop Tun SP)

0  JSTNO

Dudax 

Alienato 

Godinho

Endereço: Alameda das Sibipirunas, 1700 - Res. Aldeia do Vale

Sábado – 22 de agosto

Arena Bananada - Centro Cultural Oscar Niemeyer


Palco Petrobras

16h às 18h – Patrick Tor4 (BA)

19h10 às 20h10 – Arnaldo Antunes (SP)

20h40 às 21h40 – Tulipa Ruiz (SP)

22h20 às 23h40 – Gaby Amarantos (PA)

Palco Atac.GO

18h às 18h40 – Prehistoric Music Department (GO)

19h às 19h40 – Pluma (SP)

20h às 20h40 – Bruna Mendez (GO)

21h às 21h40 – Bebé (SP)

22h às 22h40 – Candy Mel (GO)

23h às 0h – Clementaum (PR)

Palco Bananada

18h30 às 19h10 – Ain TheMachine (Alemanha)

20h às 20h40 – Julia Mestre (RJ)

21h30 às 22h10 – Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro (PA)


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