William Douglas
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William Douglas

1. Introdução — o rótulo do “turismo ético”

Começou a circular nas redes sociais a divulgação de um evento chamado “ Turismo Ético na Bahia ”, anunciado para ocorrer em destinos turísticos conhecidos do litoral baiano, como Morro de São Paulo , Boipeba, Itacaré e Serra Grande.

O título, à primeira vista, parece virtuoso. Afinal, quem poderia ser contra um turismo ético?

O problema é que, em certos casos, palavras moralmente atraentes são usadas para encobrir práticas moralmente reprováveis. E é exatamente esse o ponto aqui. Sob a aparência de preocupação ética, o que se vê é o risco de transformar o turismo em plataforma de constrangimento, hostilidade e discriminação dirigida a turistas identificados por sua origem nacional ou étnica. Isso não é “turismo ético”, mas outra coisa.

2. O problema da hostilidade contra turistas

Essas localidades do litoral baiano são reconhecidas há décadas no circuito internacional de viagens e recebem significativo fluxo de visitantes estrangeiros . Entre eles, há muitos israelenses. Trata-se de um fenômeno turístico consolidado, que ajudou a dinamizar economias locais, movimentar pousadas, restaurantes, transporte, comércio e serviços. Não estamos diante de uma novidade incômoda, mas de uma presença conhecida e integrada há anos à vida econômica e social dessas regiões.

Transformar esse cenário em palco de militância política importada é um erro. O turismo brasileiro não deve ser usado como extensão emocional, ideológica ou militante de conflitos estrangeiros — muito menos à custa da paz social, da economia local e da imagem internacional do país.

Morro de São Paulo, na Ilha de Tinharé, arquipélago de Cairu (BA)
Prefeitura do Arquipélago de Cairu (BA)
Morro de São Paulo, na Ilha de Tinharé, arquipélago de Cairu (BA)


3. Episódios recentes de tensão

Já houve episódios de tensão envolvendo turistas israelenses no Brasil, como em Itacaré, recentemente. Também circularam relatos e vídeos de hostilização de turistas israelenses em espaços públicos e contextos festivos.

Isso, por si só, já deveria servir de alerta. Quando o ambiente pátrio começa a ser intoxicado por campanhas de animosidade coletiva, o resultado tende a ser mais tensão, mais radicalização e mais degradação do convívio.

4. Princípios do turismo responsável

A carta aberta divulgada pela associação Aviva18 chama a atenção para esse problema. O documento lembra que o turismo responsável, no plano internacional, está associado a princípios claros: diálogo intercultural, acolhimento de visitantes, respeito às comunidades locais, valorização da diversidade e rejeição inequívoca à discriminação.

O verdadeiro turismo ético existe para aproximar culturas, reduzir preconceitos e promover convivência respeitosa entre visitantes e comunidades locais — nunca para legitimar boicotes identitários ou constranger turistas por sua origem.

Quando uma campanha usa o vocabulário da ética para mirar pessoas em razão de sua nacionalidade, ela se afasta do turismo responsável e se aproxima de algo bem feio: instrumentalização do turismo para polarização, xenofobia, discurso de ódio e, conforme o caso, antissemitismo.

5. A dimensão econômica e social do problema

Também há um aspecto prático que não pode ser ignorado. Transformar turistas em alvos simbólicos significa colocar em risco o sustento de comunidades inteiras que dependem da atividade turística.

Quem paga a conta disso não são os barulhentos militantes, mas os trabalhadores locais e suas famílias: donos de pousada, garçons, guias, barqueiros, motoristas e pequenos comerciantes que dependem da circulação de visitantes.

6. Constituição brasileira e Estado de Direito

Além da impropriedade moral e do dano econômico, há um problema constitucional evidente.

O artigo 3º da Constituição Federal estabelece como objetivo fundamental da República promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Já o artigo 4º determina que o Brasil rege suas relações internacionais por princípios como a prevalência dos direitos humanos, a autodeterminação dos povos, a não intervenção, a defesa da paz, a solução pacífica dos conflitos e a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade.

Importar animosidade étnica, nacional ou político-identitária para dentro do turismo brasileiro contraria esse desenho constitucional. Em vez de cooperação entre os povos, fomenta-se hostilidade. Em vez de promoção do bem de todos sem preconceito de origem, criam-se campanhas que selecionam alvos justamente pela origem nacional ou étnica.

7. Estatuto de Roma e jurisdição universal

Também é preciso esclarecer um ponto jurídico fundamental. A apuração de crimes internacionais graves, como crimes de guerra ou crimes contra a humanidade, não ocorre por meio de campanhas militantes ou acusações informais dirigidas a turistas.

O Direito Internacional possui mecanismos próprios para isso, estruturados em tratados, tribunais e procedimentos formais. O principal instrumento jurídico nesse campo é o Estatuto de Roma, que instituiu o Tribunal Penal Internacional. Esse sistema prevê regras claras para investigação e responsabilização individual por crimes internacionais, exigindo acusações específicas, procedimentos formais e atuação de autoridades competentes.

Mesmo nos países que admitem a chamada jurisdição universal, sua aplicação depende de investigação formal e identificação individualizada de suspeitos. Não há qualquer espaço jurídico para transformar turistas em suspeitos coletivos com base em nacionalidade.

8. O espírito brasileiro de hospitalidade

A iniciativa também colide com um traço positivo da identidade brasileira: a hospitalidade. O Brasil sempre cultivou a abertura humana e a convivência possível entre diferenças.

Transformar o estrangeiro em inimigo automático seria uma degradação moral e civilizatória. Seria abdicar de uma virtude nacional para importar um vício alheio.

É preciso dizer com clareza: isso é feio. E quando se tenta revestir esse tipo de prática com linguagem edificante, o resultado é ainda pior, pois revela indisfarçável hipocrisia.

9. A presença de Thiago Ávila

Não queremos personalizar o debate, mas é legítimo analisar quem é a “estrela” do evento. Está sendo anunciada a presença do ativista Thiago Ávila. Uma breve consulta ao seu histórico mostra que ele participou da chamada “Frotilha da Paz”, ao lado da ativista Greta Thunberg. Sua trajetória pública é marcada por militância política e campanhas anti-Israel.

Thiago Ávila jamais se destacou por atuação ligada ao turismo. Essa simplesmente não é sua pauta. A escolha de um militante geopolítico para um evento apresentado como debate sobre “turismo ético” fala por si. O propósito é evidente, não se trata de turismo.

Para o ativista, a pauta gera visibilidade e engajamento. Para a Bahia e o Brasil, trará prejuízos. Importar conflitos estrangeiros para destinos turísticos brasileiros afasta visitantes e prejudica comunidades que vivem do turismo.

10. O enquadramento político de Sabrina Fernandes

O próprio discurso que acompanha essa mobilização deixa isso evidente. Em publicação recente, a economista e ativista Sabrina Fernandes afirmou que destinos turísticos da Bahia estariam recebendo “integrantes das Forças de Defesa de Israel que cometeram genocídio em Gaza”.
Não se trata de análise de turismo, mas de enquadramento político de visitantes estrangeiros como suspeitos coletivos — em total dissonância com o Estatuto de Roma, que rege a matéria.

11. Conclusão

Quando turistas passam a ser tratados como representantes de um inimigo geopolítico, o debate deixa de ser sobre turismo. Torna-se militância e hostilidade importadas, em prejuízo da convivência social que a Constituição brasileira busca preservar, da economia local, da imagem internacional do país e da tradição brasileira de hospitalidade.

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William Douglas é professor de Direito Constitucional, Mestre em Direito, Pós-graduado em Políticas Públicas e Governo e escritor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG
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