Pollyane Marques, 34 anos, descobriu a paixão por viajar com 20 e poucos anos. Polly sempre foi gorda, mas isso nunca a impediu de viajar, como acontece com algumas mulheres gordas. Pensando em contar suas experiências há um ano e nove meses, Polly criou o perfil  Viaja, gorda! , no Instagram, onde não fala apenas de viagens, mas tenta dar voz às pessoas gordas. 

viaja gorda
Reprodução
Polly Marques criou o viaja gorda para incentivar outras mulheres gordas a viajar


Quando era mais nova e morava no interior de Minas Gerais, a família não tinha condições de viajar.“A gente não podia viajar pq era uma coisa muito luxuosa, o que a gente fazia era ver programas na TV, lendo, vendo revistas”, conta ao iG Turismo. A primeira viagem da qual se lembra aos 10 anos, para Brasília, para visitar seus tios. Atualmente, ela mora e trabalha na cidade. 

Perrengues de viagem

Aos 22 anos, Polly decidiu conhecer São Paulo e viveu vários perrengues, já que época não era tão fácil obter informações turísticas como hoje. 

“Eu reservei um hotel perto dos Campos Elíseos e na verdade era um motel. Imagina uma mulher sozinha! Fiquei com muito medo, trancada no quarto, fiquei lá três dias, tentando não ser vista”, recorda. 

Mas apesar dos perrengues, viajar abriu um mundo de possibilidades. A jornalista sofre com depressão desde muito jovem e revela que quando decidiu que queria viajar sozinha pro exterior, adiou várias vezes a viagem. Até que em 2014 realizou o desejo de conhecer a Itália, o que foi fundamental para que ela se conhecesse melhor.

“Foi um momento que eu aprendi a me acolher. Alguns dias dessa viagem, que durou 20 dias, eu tive que ficar no quarto. Tive que ficar na casa de um amigo que morava em Roma, escolhi me cuidar e no outro dia aproveitar meu dia". Nesse processo a jornalista acabou se apaixonando por Roma. "Já fui seis vezes”, conta. 


Gordofobia no setor de turismo

“Viajar em si pra uma mulher não é uma decisão tão fácil quanto é pro homem, de ir sozinha. Várias vezes as pessoas te questionam o porquê dessa decisão, porque eu não tenho um homem protetor do meu lado”, diz. 

O fato de ser uma mulher gorda dificultava as coisas, pois a pessoa tem que pensar em uma série de coisas, já que hoteis e meios de transporte nem sempre estão adaptados para elas.

“O turismo ainda não pensa na mulher gorda. Você não tem uma cadeira de avião e ônibus adequada, tem que ver se vai ter uma cama confortável no hotel. No hostel você não sabe se vai poder ficar na cama de baixo e aquilo gerar uma situação pra você. Eu nunca deixei de viajar por ser gorda, mas já me limitei em situações porque eu me achava gorda, eu muitas vezes não tirava nem foto minha nos lugares nas primeiras viagens, por exemplo”.

A jornalista diz que nunca sofreu nenhuma gordofobia escancarada, mas sempre rola um olhar ou outro. Um caso que marcou muito Polly, foi sua primeira vez em Portugal, assim que chegou em seu hostel, deixou as malas e foi tomar um banho antes de começar a passear pela cidade. 

Quando viu o tamanho do box percebeu que ela não iria caber. “Eu lembro de tentar entrar com o box encostado no meu corpo, com muita dificuldade. Pedi no dia seguinte para ser trocada de quarto, a gerente não falou nada, mas o olhar de julgamento dizia tudo. As pessoas te olham e vida que segue”.

Viaja, gorda! 

Polly por meio de suas viagens começar a enfrentar seus medos, apesar de um olhar maldoso ou outro, nunca se deixou abalar. Mas, ela conta que muitas vezes, ela já sentiu que não merecia estar naqueles lugares que conheceu.

Ver essa foto no Instagram

Quando nós mulheres começamos a fazer uma mala de verão, uma das primeiras coisas que nos vem à cabeça é: e o biquíni? E é sobre um aspecto desse danado que quero falar hoje. É muito bacana a gente ver mulheres gordas e com formatos de corpo “““fora do padrão””” usando biquíni na praia ou na piscina. Eu uso biquíni e me sinto muito bem. Mas hoje quero te dizer: MIGA, NÃO É OBRIGATÓRIO. Fico bem chateada quando parte da militância “#bodypositive beira de piscina” coloca isso como fundamental, como passaporte para a liberdade gorda. Destaco: PARTE DA MILITÂNCIA, NÃO TODA. A gente deve usar o que nos deixa confortável. Se o biquíni foi uma libertação para algumas de nós, e foi, não necessariamente será para todas. Algumas ainda não se sentem à vontade para usar, outra nem acham isso importante. Tem mulheres que nem usariam roupas consideradas femininas, menos ainda o biquíni. Então, não podemos reproduzir preconceitos dos quais somos vítimas uma vida inteira. Nós somos plurais. Pode ser de biquíni, maiô, short e top, camisetão, até calça tá valendo. O que não pode é você deixar de viver uma experiência gostosa por conta de não se sentir bem no que acham que deve ser libertador para você. Você sabe o seu limite, você sabe o que você quer usar, você sabe o que te liberta. E está tudo bem com isso. E com isso conto que começam aqui os posts sobre como fazer uma mala legal para o verão, que tá longe, eu sei...mas na pandemia planejar é o que está dando para fazer. #gordadebiquini #vaitergordadebiquini #praiadoantunes #maragogi #litoralalagoano #pulodafefa #colecionandodestinosbr #gordafazamala #fatpositive #maladeviagem #malademao #comofazerumamala #comoplanejarumaviagem #metadeviagem #gordoridade #gordasviajam #viajagorda #roteirodeviagem #viajagordaviaja #dicasdeviagem #blogdeviagem #viagemeturismo #amoviajar #viajarépreciso #viajarfazbem #meusroteirosdeviagem #loucasporviagem #queroviajarmais #essemundoenosso #comoplanejarumaviagem

Uma publicação compartilhada por Mulher Gorda Viajante (@viajagorda) em


“E a síndrome de impostora, mas já estou trabalhando nisso, agora toda viagem que faço me traz algo de bom. Você não precisa ir pra longe pra falar que é viagem, se viajar pra uma cidade vizinha já vai aprender”, acrescenta. 

Pensando em contar suas experiências para outras pessoas gordas, há um ano e nove meses, Polly criou o Viaja, gorda! que não fala apenas de viagens, mas tenta dar voz às pessoas gordas. 

“Na primeira vez que eu fui a Roma, em 2015, eu tomei a decisão de subir até a cúpula do Vaticano. São mais de 500 degraus, é uma subida abafada, tem uma escada pra descer e uma pra subir, você não pode desistir. Eu subi aquilo com muita dificuldade, e eu vi que muitas pessoas não tinham acesso a esse tipo de informação. Se eu soubesse desse problema da cúpula, eu teria optado por ter ido de elevador e ter pagado um pouco mais, aconteceu situações semelhantes em outros lugares”, conta. 

“O viaja gorda é um espaço de luta para as pessoas gordas que muitas vezes não tem visibilidade, porque não adianta só eu falar, eu preciso trazer mais pessoas.  Eu tento deixar humano”, conclui.

    Veja Também

      Mostrar mais