As ruas estão vazias e a maioria da população brasileira estão em distanciamento social, dentro de casa. Enquanto isso, outro grupo sofre para chegar aqui: vários brasileiros que foram pegos de surpresa durante viagens ao exterior com o crescimento do surto da Covid-19 ao redor do mundo não consegue voltar ao país devido ao fechamento de fronteiras, a interrupção das viagens internacionais e, segundo eles, demora das autoridades brasileiras e internacionais para lidar com a situação. Alguns deles relatam o que afirmam considerar uma postura de "abandono".

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Em meio a pandemia, brasileiros estão presos no exterior

Nos últimos dias, as redes sociais foram palcos de pedidos desesperados de brasileiros no exterior, em países como África do Sul, Portugal e outros. No Peru, por exemplo, cerca de 160 brasileiros já estão há mais de uma semana tentando retornar ao Brasil. De acordo com eles, a repatriação tem sido lenta e as autoridades do Brasil, em geral, têm terceirizado essa operação para as companhias aéreas. Gol e Latam já chegaram a levar parte dos brasileiros que estavam no Peru, mas o restante ainda não tem uma previsão.

"A gente percebe que o governo simplesmente viabiliza as coisas, mas não faz uma ação mais efetiva. A gente viu um voo que veio direto de Israel e levou todos de uma vez só. O pessoal do Uruguai, da Argentina também. Mas no Brasil ficou entregue às companhias aéreas", afirma o engenheiro Wil Lavor Camboim, de 37 anos, que é cliente da Avianca.

Ele e a esposa foram para o país no último dia 11, antes das medidas de isolamento social impostas tanto pelo governo do Brasil quanto pelo governo do Peru. Quando o presidente do país vizinho Martín Vizcarra decretou o estado de emergência, estavam em Cusco, cidade turística.

Já há uma semana à espera do retorno e alguns dias a mais do que o inicialmente planejado na viagem, os brasileiros no país temem que a estadia forçada se prolongue ainda mais. Alguns do turistas usam medicamentos controlados ou realizam tratamentos.

"O pior de tudo é a falta de notícias. Isso é o que deixa a gente mais aflito: essa percepção de que o governo está fazendo muito pouco, porque a gente vê os outros países fazendo", diz Camboim.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores afirma que estabeleceu o Grupo Especial de Crise para auxiliar os cidadãos brasileiros que se encontram impedidos de retornar ao Brasil. No momento, os esforços estão concentrados em questões diplomáticas com autoridades nos diversos países.

“No momento, os esforços estão concentrados em gestões diplomáticas com autoridades nos diversos países, para abertura excepcional de espaços aéreos, e em entendimentos com companhias aéreas, para a realização de voos destinados a repatriar os brasileiros”, afirma o Itamaraty.

Nissim Jabriles Parnes, diretor da Avianca no Peru, afirma que a situação foge ao controle das companhias aéreas, já que o aeroporto no país foi fechado e apenas 5% dos vôos estão sendo autorizados após negociação entre o governo local e as embaixadas.

"As embaixadas solicitam a permissão e o governo peruano determina segundo a urgência quais são os cinco ou seis voos que vão sair por dia. Estamos falando com o embaixador do Brasil no Peru", disse Parnes, que afirma que há clientes de diversos países esperando para retornar.

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"Não tive suporte nenhum", diz publicitário


Em Portugal, o publicitário Rodrigo Fernandes, de 21 anos, viu dois de seus voos serem cancelados. O brasileiro estava em Dublin durante a explosão de casos de coronavírus e resolveu antecipar a volta ao país. Seu vôo estava previsto para esta segunda-feira, mas foi cancelado e remarcado para o dia 25. Esse vôo, contudo, já foi cancelado.

Fernandes diz que gastou o último dinheiro que possuía para a estadia no hotel até o dia de hoje e agora tenta convencer o hotel a estender sua estadia.

"A sensação é de abandono, impotência. Eu vejo notícia na TV que o Brasil está trazendo várias pessoas, falam número, mas não é essa maravilha que está sendo mostrada, não tive suporte nenhum, pedi até para ligarem para o hotel, para convencerem, porque eu não tenho lugar para ficar. Não ligaram, não respondem", afirmou.

Em suas redes sociais, Rodrigo publicou uma imagem de uma conversa no WhatsApp com um número identificado como sendo do Consulado. Na resposta, o número recomenda que Fernandes continue tentando remarcar o voo com a empresa. “Tente pedir ajuda financeira para sua família e amigos. Não temos orçamento para essas despesas”, diz a mensagem.

Procurado pelo GLOBO, o Itamaraty afirmou que nos casos específicos citados, as Embaixadas do Brasil em Lima e em Lisboa, além dos consulados brasileiros em Portugal, estão envidando esforços para repatriar os brasileiros que se encontram retidos. Solicita-se assim que os brasileiros, caso não o tenham feito ainda, entrem em contato com o G-CON ou com a Embaixada respectiva.

O GLOBO também procurou a Latam, companhia aérea responsável pelo voo de Rodrigo, mas ainda não teve resposta.

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Itamaraty coloca números à disposição

De forma a agilizar o atendimento aos que necessitam de apoio, o Itamaraty solicita que as comunicações sejam feitas aos números de telefone listados abaixo.

América do Sul: +55 61 98260-0767

América do Norte, América Central e Caribe: +55 61 98260-0610

Europa: +55 61 98260-0787

África e Oriente Médio: +55 61 98260-0568

Ásia e Oceania: +55 61 98260-0613

Em nota, o Itamaraty afirmou permanecerá empenhado em solucionar a presente situação e continuará prestando todo apoio consular aos brasileiros impedidos de retornar ao Brasil.

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