Brasileiros contam os desafios e as regras para morar na Coreia do Sul

André, Amanda e Marcella também informam o processo necessário para visitar a terra do k-pop e evitar os perrengues, desde a burocracia até os choques culturais

Saiba como visitar e morar na Coreia do Sul evitando todos os perrengues
Foto: Reprodução
Saiba como visitar e morar na Coreia do Sul evitando todos os perrengues


Localizada no leste da Ásia, a Coreia do Sul compartilha uma das fronteiras mais militarizadas do mundo com a vizinha, Coreia do Norte. O país é bastante conhecido pelo interior verdejante, ilhas subtropicais e cidades com tecnologia altamente avançada, como Seul, a capital. Além disso, os olhos do mundo têm se voltado ainda mais para o país devido à expansão do k-pop, gênero musical coreano que atinge cada vez mais pessoas em todo planeta e já é bem popularizado no Brasil.

Devido a tantos atrativos, o que não faltam são turistas ansiosos para conhecer tudo que a Coreia do Sul pode oferecer, além daqueles que desejam estabelecer moradia no país. Para ambos os casos, é preciso se preparar e saber o que o aguarda para conseguir planejar-se com antecedência e não ser pego desprevenido. André Melo , que mora no país e produz conteúdo sobre a rotina por lá nas redes sociais, conta que foi para a Coreia como turista na primeira vez e explica um pouco sobre as burocracias que envolvem a chegada dos visitantes.

“O visto de turismo é tirado quando você chega ao aeroporto da Coreia. Ele vale por três meses e você não é autorizado a trabalhar nem exercer nenhum tipo de atividade remunerada, apenas passear”, esclarece.

André conta também que, uma semana antes de completar os três meses do visto para turista, ele trocou para a categoria estudante, algo que, devido à pandemia, foi reformulado. “Hoje em dia, se você quer trocar de um visto para outro, obrigatoriamente precisa sair do país e fazer uma aplicação do zero”, pontua. “Antes, a pessoa tinha a flexibilidade de mudar de visto ainda dentro da Coreia”.

Após conseguir o visto de estudante, que durou nove meses, André prolongou até conseguir o visto de trabalho. Apesar de parecer simples, ele deixa claro que todo esse processo pode ser bem complicado, principalmente para quem vai já com a intenção de estabelecer moradia. 

“Eles são bem burocráticos, não é uma questão fácil. Realmente é preciso ter um propósito: ou estudo ou trabalho, e as coisas evoluem aos poucos. Se você estuda e se forma na Coreia, o mercado de trabalho vai ser muito mais acolhedor do que para quem se formou fora. Para quem começa aqui do zero, é possível conquistar um bom espaço”, aconselha. 

Ao ser questionado se existe algum tipo de benefício ou auxílio para os que entram na Coreia com o visto de estudante, André explica que depende muito. “Se você entra pelo GKS (Global Korea Scholarship), que é um programa do governo, você consegue uma bolsa, agora se for particular, não, e aí só depois de seis meses que eles te liberam para você trabalhar, mas mesmo assim é só por meio período, então o dinheiro que a pessoa consegue tirar é pouco”, conta. 

Uma vez estabelecido no país, seja como estudante, turista ou morador, adaptar-se à cultura e aos costumes coreanos é fundamental para conseguir estabelecer vínculos e evitar conflitos.  Amanda Gomes e Marcella Bezerra , do canal Oh My Friend , no YouTube, moram na Coreia do Sul e dividem as experiências que passam por lá com os seguidores e inscritos. Elas contam que um dos fatores que normalmente choca os brasileiros é o fato dos coreanos não serem tão calorosos. Além disso, a diferença nos hábitos alimentares também é algo a se acostumar, afinal são culinárias bem distintas.

“O brasileiro é bastante intenso e gosta de abraços e esse tipo de demonstração leva tempo com um coreano. Comida também é algo muito diferente, pois os coreanos gostam de pimenta, verduras e sopas com temperos mais suaves”, alertam. André reforça a questão do contato físico. 

“O que os brasileiros mais sentem falta é do abraço, já que os coreanos se comprimentam curvando o corpo e, no máximo, um aperto de mão. Eu converso com vários brasileiros e eles falam muito disso, tanto que quando um brasileiro me encontra, a primeira coisa que faz é me abraçar”, conta. 

Amanda e Marcella comentam que existem alguns pontos turísticos que não podem faltar no roteiro dos visitantes, especialmente para quem vai para a capital, Seul. Elas ressaltam que existem atrações para todos os gostos, pois o país abriga muitos pontos históricos, culturais e modernos, para quem quer conhecer melhor o cotidiano dos coreanos.

(Continue a leitura logo abaixo)

“Definitivamente todos que vêm a Coreia deveriam visitar o palácio Gyeongbokgung, um dos cinco de Seul e grande símbolo da realeza coreana. Também adoramos Bukcheon Village, que no passado era onde as pessoas da alta sociedade moravam e estão lá ainda super bem preservadas. A Coreia é interessante porque tem ponto turístico para todos os gostos: locais tradicionais que contam a história do país, locais modernos que mostram seu desenvolvimento, grandes shoppings para fazer compras e natureza para fugir da agitação”, indicam. 

André também indica que os visitantes busquem pela Namsan Tower, uma torre de observação e comunicação na montanha Namsan, no centro de Seul, e os parques de diversão que, de acordo com ele, são bem diferentes. Ao ser questionado sobre a xenofobia e sobre como os brasileiros são recebidos no país, ele comenta que é algo mais generalizado. 

“A xenofobia vem não especificamente pelo fato da pessoa ser brasileira, mas por ela ser estrangeira de modo geral. O pessoal mais novo é mais aberto, principalmente por conta da Netflix, que é muito famosa aqui, e proporciona que eles descubram coisas das quais nunca ouviram falar. Já as pessoas mais velhas ainda são muito presas às tradições, então para elas é um choque que de quatro anos para cá existam cada vez mais estrangeiros na rua. A nova geração é realmente mais tranquila; querem aprender inglês, ver coisas novas, sair da Coreia, ter troca de cultura”, explica. 

Amanda e Marcella comentam também que muitos coreanos acabam alimentando visões bem estereotipadas dos brasileiros, principalmente por conta da distância geográfica e cultural que não permite que as duas nações possam conhecer uma a outra muito bem. “O Brasil e a Coreia são países muito distantes um do outro e, ao longo dos séculos, não tivemos uma história em comum. Por isso, penso que nenhum dos países conhecem bem um do outro, apenas coisas que se ouviu falar por aí. Então, é comum os coreanos pensarem que todo brasileiro tem pele escura, por exemplo. Cabe a nós que estamos aqui apresentar um pouco mais da nossa cultura e mostrar o quão multicultural ela é”, contam. 

A questão da cor da pele é algo que André também reforça. “Eles acham que eu não sou brasileiro por ser branco”, conta. “Pensam que o Brasil consiste apenas em povos indígenas porque é o que eles veem nos filmes. Acho que o que chega para eles de filme brasileiro mostra essa realidade: ou são filmes sobre os indígenas ou Tropa de Elite, então realmente pensam que é só tiroteio e perigo, essa parte mais marginalizada, e a questão da colonização mesmo. A informação é passada de modo muito vago, e eles talvez não tenham tanto interesse em pesquisar mais a fundo também”, diz. 

Além da barreira do estereótipo, a questão do idioma também é muito forte. André conta que o inglês intermediário, para quem é turista, pode ser suficiente, mas para quem deseja morar no país, o ideal é aprender o idioma coreano. “No aeroporto, ao passar pela imigração, você não fala com ninguém, e sim com uma máquina que lê o seu passaporte e fala com cada um no idioma nativo. Isso para o visto de turista, já o de trabalho você até fala com algumas pessoas. Para passear por lá, o inglês é bem importante e o coreano só se mostra mais necessário se você for para alguma cidade do interior, onde não é comum falar inglês. Já para morar, conforme você precisa ir em cartório, médico e correio, por exemplo, o coreano se torna essencial, porque nesses ambientes eles não falam outros idiomas”, explica. 

Quero morar na Coreia: como me preparar?

Amanda e Marcella deixam claro que informação e pesquisa é fundamental para conseguir se planejar da melhor forma possível. Além disso, viver primeiro a experiência de turista antes de se mudar definitivamente pode ser um termômetro para oficializar a decisão. “Busque o máximo de informações possível antes de decidir se mudar. Pesquise em sites oficiais, mas sobretudo consuma conteúdo de brasileiros que moram na Coreia e falam como é essa experiência para um brasileiro. Porque assim é possível amadurecer a ideia e já saber os desafios que te esperam. E antes de tomar a decisão de morar definitivamente, venha passar um tempo para conhecer e use esse momento para de fato tentar se comunicar com o povo coreano e com o jeito de vida deles. Eles têm uma cultura muito diferente da nossa e temos que aprender a respeitar e lidar com isso”, orientam. 

Elas também dão algumas dicas sobre áreas do mercado de trabalho que costumam absorver os estrangeiros com mais facilidade. Ter isso em mente é importante para conseguir cada vez mais consolidar uma rotina e ganhar estabilidade em um país diferente. “Existem áreas que são mais abertas à contratação de um funcionário estrangeiro, como marketing, vendas, comércio exterior, modelo, tradutor, professor de inglês e engenheiro. Nessas áreas, ser estrangeiro é um diferencial superpositivo, pois traz coisas novas para a empresa”. 

Elas comentam ainda algumas das principais vantagens de morar por lá. “Com certeza a segurança é o fato número um. Isso aumenta drasticamente a qualidade de vida de uma pessoa. Além disso, por ser um país desenvolvido, a moeda da Coreia é valorizada (é muito similar ao valor do dólar), então é vantajoso trabalhar aqui e receber em won”, pontuam.

André ressalta ainda que, para quem vai apenas como turista, tudo é bastante caro, mas quando se começa a trabalhar lá e ganhar dinheiro, as coisas mudam de figura. “O salário mínimo do país está em 8720 won por hora, então não é como no Brasil, que sabemos quanto iremos receber pelo mês trabalhado. Na Coreia não existem muitas leis trabalhistas, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Existem pessoas que trabalham por horas e horas porque não têm nenhuma medida que as impeça ou as proteja disso. Como se recebe por hora, quanto mais trabalha, mais ganha, então temos casos de gente que trabalha entre 14 e 15 horas por dia. Por outro lado, o poder de compra é alto. Por exemplo: o novo iPhone 13. No Brasil, é preciso mais de 10 salários mínimos para comprar um, e aqui na Coreia eu preciso de apenas meio salário mínimo. Com o salário daqui, é possível ter acesso a muitas coisas”, conta. 

Apesar disso, Amanda e Marcella alertam sobre a alta romantização que muitas pessoas fazem a respeito da Coreia, vendo-a como uma nação perfeita e livre de qualquer tipo de transtorno. “Tenha em mente que todo país é diferente, o povo é diferente, a comida, a vestimenta, o clima, tudo. A Coreia não é um conto de fadas como muitos fãs de hallyu podem pensar. É um local como qualquer outro, com vários pontos positivos e outros que podem soar negativos para nós. Ao vir para cá, venha de mente aberta para aprender mais com essa cultura”, orientam.