Vitor Vianna

Casal chega à África com 47 horas de atraso e Latam é condenada

Caso acende alerta para passageiros que compram viagens internacionais com pouco tempo entre os voos

Casal chega à África do Sul com 47 horas de atraso e Latam é condenada
Foto: Reprodução / IA
Casal chega à África do Sul com 47 horas de atraso e Latam é condenada

Um atraso de menos de uma hora no início de uma viagem foi suficiente para transformar as férias de um casal na África do Sul em uma espera de quase dois dias. Os passageiros, que saíram do Rio de Janeiro com destino a Johannesburgo, chegaram à cidade sul-africana aproximadamente 47 horas depois do previsto após perderem a conexão internacional no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. O caso terminou na Justiça, com a Latam Airlines Brasil condenada ao pagamento de R$ 17.315,97 por danos morais e materiais. Além da indenização, o episódio chama atenção para um detalhe muitas vezes ignorado na hora da compra de uma passagem: o tempo disponível para uma conexão, principalmente quando o próximo trecho é um voo internacional de longa distância e com frequência limitada.

A viagem estava marcada para 26 de março de 2026. O casal embarcaria no voo LA3875, do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, para Guarulhos. A chegada a São Paulo estava prevista para 20h50 e o voo seguinte, com destino a Johannesburgo, partiria às 22h45. O intervalo originalmente previsto entre a chegada do primeiro voo e a partida do segundo era, portanto, de 1 hora e 55 minutos. O problema começou quando o primeiro trecho sofreu um atraso de 56 minutos e o avião desembarcou em Guarulhos somente às 21h46. Restava menos de uma hora para a partida do voo internacional e os passageiros não conseguiram fazer a conexão.

O que aconteceu depois ajuda a explicar como um atraso inicial relativamente pequeno resultou em uma chegada quase dois dias depois do previsto. Em rotas internacionais de longa distância com poucas frequências, perder uma conexão pode ser muito mais problemático do que em trechos operados diversas vezes ao dia. Não necessariamente haverá outro avião da mesma companhia algumas horas depois. O casal acabou sendo reacomodado em um voo que deixou São Paulo somente no dia 28 de março, às 22h05. A chegada a Johannesburgo aconteceu no dia 29, às 11h55. Pelo itinerário original, eles deveriam ter desembarcado na África do Sul no dia 27, às 12h40. Na prática, foram aproximadamente 47 horas de atraso no destino final, com perda de parte das férias, passagens e diárias de hotel.

A Latam alegou no processo que o atraso inicial ocorreu em razão de “restrições aeroportuárias” e afirmou ter fornecido hospedagem, transporte, alimentação e reacomodação aos passageiros. A Justiça, porém, considerou que a companhia não apresentou documentação externa suficiente para comprovar a natureza e a extensão dessas restrições. Segundo a decisão, uma tela do sistema interno da empresa com a indicação de “restrições aeroportuárias” não foi considerada suficiente para demonstrar a existência de uma circunstância capaz de afastar sua responsabilidade. Também foram considerados os transtornos enfrentados durante a espera: segundo a ação, houve demora na disponibilização de hospedagem, o casal foi colocado em quartos separados e permaneceu temporariamente sem acesso às bagagens despachadas.

A condenação foi fixada em R$ 14 mil por danos morais, sendo R$ 7 mil para cada passageiro, além de R$ 3.315,97 por danos materiais comprovados, totalizando R$ 17.315,97, além de correção monetária e juros. É importante destacar que a indenização não ocorreu simplesmente porque o primeiro voo atrasou 56 minutos. A Justiça levou em consideração o conjunto das consequências provocadas pela ocorrência, incluindo a perda da conexão prevista no mesmo contrato de transporte, a longa espera pela reacomodação, a chegada aproximadamente 47 horas depois do planejado, a redução do período de férias e os demais transtornos relatados pelos passageiros.

Companhia pode ter que colocar passageiro em voo de concorrente
Há outro ponto importante para quem passa por uma situação semelhante. Quando a perda de um voo subsequente em uma conexão ocorre por causa atribuível à companhia aérea, as regras da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) asseguram alternativas ao passageiro. Entre elas está a reacomodação gratuita. E essa reacomodação, quando o passageiro escolhe viajar na primeira oportunidade, não precisa necessariamente ocorrer em um avião da mesma empresa: a regulamentação estabelece a possibilidade de reacomodação em voo próprio ou de terceiro para o mesmo destino, na primeira oportunidade.

Na prática, isso significa que, diante de uma conexão perdida nas condições previstas pela regulamentação, o passageiro pode solicitar que sejam verificadas opções em outras companhias caso exista um voo que permita chegar ao destino antes. Não é correto presumir que ele obrigatoriamente tenha de aguardar o próximo voo operado pela empresa com a qual comprou a passagem. Outra possibilidade prevista é escolher um voo da própria companhia em uma data e horário que sejam convenientes ao passageiro. Dependendo da ocorrência, também existem alternativas como reembolso, previstas na regulamentação.

Isso se torna especialmente relevante em destinos atendidos por poucas frequências. Em uma rota com vários voos por dia, perder uma conexão pode representar algumas horas adicionais no aeroporto. Em um voo internacional de longa distância com oferta mais limitada, o mesmo problema pode significar passar um dia inteiro — ou até mais — esperando pela próxima oportunidade. Por isso, diante de uma reacomodação muito distante, vale perguntar expressamente no balcão ou nos canais de atendimento se existe voo de outra companhia para o mesmo destino em horário anterior.

Conexões curtas exigem atenção
O episódio também serve de alerta para quem costuma escolher a passagem exclusivamente pelo menor tempo total de viagem. Uma conexão de 1h55 pode parecer confortável na tela do site ou aplicativo, mas qualquer alteração no primeiro trecho reduz rapidamente essa margem. No caso do casal, 56 minutos de atraso deixaram menos de uma hora entre o desembarque em Guarulhos e o horário previsto para a saída do voo internacional. É preciso considerar ainda o tempo necessário para desembarque, deslocamento dentro de um aeroporto de grandes dimensões, procedimentos de segurança e o fechamento do embarque antes do horário oficial de partida.

Mesmo quando todos os trechos estão no mesmo bilhete e a companhia tem responsabilidade pela reacomodação nos casos previstos pela regulamentação, isso não significa que o passageiro recuperará facilmente o tempo perdido nas férias. Hotel, passeios, reservas, deslocamentos e até outros voos comprados separadamente no destino podem ser afetados. A assistência e uma eventual indenização posterior não devolvem os dois dias de viagem que deixaram de existir.

Por isso, principalmente em viagens internacionais de longa distância, vale analisar mais do que o preço da passagem. Antes de comprar, é recomendável observar o tempo da conexão e pesquisar a frequência do trecho seguinte. Quanto menos voos existirem para aquele destino, maior pode ser o impacto de perder uma conexão. Às vezes, passar duas ou três horas a mais no aeroporto é um preço pequeno diante do risco de perder um voo que só terá uma nova oportunidade muitas horas depois.

E, se o problema acontecer, o passageiro deve guardar cartões de embarque, comprovantes, recibos de despesas, reservas perdidas e registros das conversas com a companhia. Também é importante perguntar quais são todas as alternativas disponíveis para chegar ao destino. Em determinados casos, a melhor solução pode não estar no próximo avião da empresa que vendeu a passagem, mas em um voo de outra companhia que consiga levar o passageiro ao destino na primeira oportunidade.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG