
As imagens da enchente que atingiu a fronteira entre o Nepal e o Tibete nesta semana chamaram atenção não apenas pela dimensão da destruição, mas também pelo grande número de estrangeiros que estavam na região. Centenas de turistas e peregrinos foram dados como desaparecidos depois que uma enorme massa de água, lama e pedras desceu pelos vales do Himalaia, atingindo vilarejos, estradas e pontes. Os números continuam sendo atualizados à medida que avançam as buscas, mas um balanço divulgado nesta quinta-feira (27) pela Reuters apontava pelo menos 162 mortos e centenas de desaparecidos, entre eles mais de 400 turistas estrangeiros.
Mas o que fazia tantos turistas justamente nessa parte remota do Nepal? A resposta está na localização. O distrito de Rasuwa, uma das áreas mais atingidas, fica ao norte de Kathmandu, praticamente encostado no Tibete, e reúne alguns dos grandes atrativos do turismo de aventura e religioso do Himalaia. É por ali que passam viajantes interessados na região de Langtang, conhecida pelas trilhas entre montanhas, geleiras e pequenos povoados, e também milhares de peregrinos que utilizam o Nepal como porta de entrada para chegar ao Monte Kailash e ao Lago Mansarovar, já em território tibetano, na China.
Uma das grandes regiões de trekking do Nepal
Langtang fica aproximadamente 130 quilômetros ao norte do Vale de Kathmandu e muito próximo da fronteira com o Tibete. Apesar de ser menos famosa internacionalmente que as rotas do Everest e de Annapurna, a região se tornou uma alternativa importante para quem procura trekking no Himalaia com menos movimento. O próprio Conselho de Turismo do Nepal destaca Langtang pela combinação de paisagens de alta montanha, cultura local e natureza, com dezenas de geleiras, lagos de altitude e montanhas como o Langtang Lirung, com mais de 7.200 metros.
Também existe um forte componente cultural. A região é tradicionalmente habitada pelo povo Tamang, cuja cultura recebeu grande influência do Tibete. Durante os trekkings, os viajantes passam por pequenas comunidades, mosteiros, casas tradicionais e paisagens que mudam rapidamente de florestas para ambientes praticamente alpinos. Entre os destinos conhecidos está ainda o Lago Gosaikunda, localizado a cerca de 4.380 metros de altitude e considerado sagrado.
Mas a área atingida pela enchente tem outra função turística ainda mais importante: ela funciona como um verdadeiro corredor entre o Nepal e o Tibete.
A estrada que liga Kathmandu ao Tibete
Saindo de Kathmandu, grupos de turistas e peregrinos seguem por terra em direção a Dhunche, Syabrubesi, Timure e Rasuwagadhi, onde está uma das principais passagens de fronteira entre Nepal e China. Do outro lado fica Gyirong — também chamada de Kerung —, já no Tibete.
A partir dali começa uma longa viagem pelo planalto tibetano. Um dos itinerários mais utilizados segue aproximadamente este caminho:
Kathmandu → Syabrubesi → Rasuwagadhi → Gyirong → Saga → Lago Mansarovar → Darchen → Monte Kailash.
E é justamente essa combinação de fronteira terrestre, turismo de aventura e peregrinação que ajuda a explicar por que havia tantos estrangeiros naquela região quando ocorreu a tragédia.
O destino final de muitos deles: Monte Kailash
Para milhares de viajantes, o objetivo da viagem não é simplesmente atravessar a fronteira. É chegar ao Monte Kailash, uma montanha de 6.638 metros localizada no Tibete e considerada sagrada por diferentes religiões, entre elas hinduísmo, budismo, jainismo e a tradição bön.
Ao contrário do Everest, o objetivo ali não é chegar ao cume. Na realidade, a montanha não é escalada por respeito ao seu caráter religioso. A experiência consiste principalmente em realizar a chamada Kora, uma peregrinação de aproximadamente 52 quilômetros ao redor do Monte Kailash. Próximo dali está também o Lago Mansarovar, situado a cerca de 4.590 metros de altitude e igualmente considerado sagrado.
Por isso, uma parte expressiva dos estrangeiros que passa pelo norte do Nepal é formada por peregrinos, especialmente provenientes da Índia, mas também por viajantes de outros países. Somente no ano passado, 11.381 peregrinos passaram pelo posto de Rasuwagadhi em direção ao Monte Kailash e ao Lago Mansarovar, segundo dados divulgados pela Rádio Nepal. Em 2026, a temporada já havia começado em maio, com viajantes da Índia, Rússia e Reino Unido utilizando novamente o corredor.
Por que ir pelo Nepal?
Mesmo estando no Tibete, portanto em território chinês, o Monte Kailash tem no Nepal uma de suas principais portas de entrada internacionais. Muitos viajantes desembarcam inicialmente em Kathmandu e seguem por terra porque esse caminho permite que a subida para grandes altitudes seja feita progressivamente.
O percurso normalmente leva vários dias. Depois de cruzar a fronteira em Rasuwagadhi/Gyirong, os grupos atravessam enormes áreas do planalto tibetano, passam por cidades como Saga, chegam ao Lago Mansarovar e depois seguem até Darchen, base para o circuito ao redor do Kailash. Há roteiros que duram cerca de dez dias e outros que chegam a duas semanas ou mais, dependendo da quantidade de paradas e do período destinado à aclimatação.
É uma viagem que mistura turismo, natureza, espiritualidade e aventura em grandes altitudes, o que transformou esse corredor aparentemente remoto em uma importante rota internacional.
Tragédia expõe também a fragilidade do Himalaia
A enchente desta semana mostrou, porém, a vulnerabilidade dessa região. Segundo as análises divulgadas até agora, a catástrofe teria começado após o colapso de uma grande massa de gelo e rochas em uma geleira na região tibetana. O material atingiu o vale do rio e provocou uma enorme onda de água, lama e detritos que avançou rapidamente em direção ao Nepal. Um sinal sísmico inicialmente interpretado como terremoto passou a ser associado ao próprio colapso da geleira.
Estradas, pontes e comunidades inteiras foram atingidas, e justamente por se tratar de uma região montanhosa e de difícil acesso, as operações de busca enfrentam enormes obstáculos. Vários dos desaparecidos são turistas e peregrinos que estavam percorrendo esse corredor no momento da enchente. As autoridades continuam realizando buscas, e os números de mortos e desaparecidos ainda podem mudar.
A tragédia acabou colocando sob os holofotes uma região pouco conhecida pelo grande público, mas que recebe milhares de pessoas todos os anos. De um lado estão algumas das paisagens mais impressionantes do Himalaia e as trilhas de Langtang. Do outro, uma estrada que cruza a fronteira e segue pelo gigantesco planalto tibetano até um dos lugares mais sagrados da Ásia. É justamente essa importância turística e religiosa que explica por que havia tantos viajantes estrangeiros no norte do Nepal quando a enchente aconteceu.
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