
Toda vez que sai um ranking de gastronomia, eu já sei o que vem por aí: a Itália no topo e os brasileiros indignados nos comentários. E não é que aconteceu de novo?
Um levantamento internacional feito pelo Food Tracker Sodexo ouviu mais de 5 mil trabalhadores em seis países (Brasil, Chile, China, Estados Unidos, França e Reino Unido) e elegeu a culinária italiana como a mais amada do planeta. Foram 56% de preferência, uma liderança folgada. Massas, pizzas, risotos, queijos e molhos seguem conquistando praticamente todos os continentes.
O Top 5 mundial ficou assim: Itália em primeiro, seguida por China, México, Japão e França.
Repare em quem não está na lista. A nossa cozinha, com toda a sua diversidade, ficou de fora das cinco mais amadas do mundo. E não foi só nesse estudo. No respeitado ranking do TasteAtlas, que avalia tradições gastronômicas a partir de centenas de milhares de notas, a Itália também aparece em primeiro, enquanto o Brasil figura lá embaixo, na 17ª posição. Ou seja, não é um azar isolado, é um padrão.
Agora, antes de qualquer um sair brigando com a Nona italiana, vale entender o que esses números realmente medem. A própria pesquisa mostra que, dentro de casa, a conversa é outra. No Brasil, 81% dos entrevistados disseram preferir a comida nacional no dia a dia. Aqui, o ranking de preferência ficou assim: a brasileira em primeiro, seguida pela italiana, japonesa, árabe e chinesa. Traduzindo: a gente até ama uma boa pasta, mas na hora do almoço de verdade o coração bate mesmo é pelo arroz com feijão.
E é justamente nesse contraste que mora a explicação. Na minha leitura, depois de quase duas décadas rodando o Brasil e o mundo a trabalho, esses rankings medem muito mais a fama internacional de um prato do que a qualidade dele. Uma pizza ou um sushi você encontra em qualquer esquina, de São Paulo a Helsinque. Já um tacacá fumegante, uma moqueca baiana no dendê, um pato no tucupi amazônico ou um baião de dois nordestino ainda são tesouros que o mundo lá fora mal começou a descobrir.
A nossa gastronomia é resultado de uma mistura riquíssima de povos indígenas, africanos, europeus e asiáticos, e muda completamente de sabor a cada região que você visita. O problema nunca foi qualidade. Foi alcance. Faltou ao Brasil fazer o que a Itália fez com maestria ao longo de mais de um século: exportar a sua mesa, transformar a cozinha em cartão de visitas cultural e em motivo de viagem.
E aqui entra o que mais me interessa: Comida é um dos motores mais poderosos que existem para mover gente pelo mundo. Tem gente que cruza o oceano por um prato. Quando valorizamos a nossa cozinha regional, com os cozinheiros locais recebendo a parte que merecem dessa história, a gente não está só defendendo um sabor. Está fortalecendo destinos, comunidades e a economia de quem vive do turismo. A nossa culinária pode ser, e deveria ser, um dos maiores convites de viagem que o Brasil tem a oferecer.
Talvez a nossa cozinha não esteja no Top 5 mundial ainda. Mas, sinceramente? Eu prefiro pensar nela como aquele destino incrível que ainda não virou ponto turístico lotado. Está lá, esperando pra ser explorado por quem tiver bom paladar.