
Gramado, na Serra Gaúcha, construiu nas últimas décadas um case turístico praticamente único no Brasil. A cidade conseguiu algo que muitos destinos sonham, mas poucos alcançam: acabar quase completamente com a baixa temporada. Com eventos espalhados ao longo do ano inteiro, Gramado deixou de depender apenas do inverno ou do Natal e passou a atrair visitantes em praticamente todos os meses. Hoje, a cidade lota na Páscoa, no Festival de Cinema, na temporada de inverno, no Natal Luz e até no Carnaval, mesmo sem praia, desfile ou grandes blocos carnavalescos. O planejamento turístico foi tão eficiente que transformou a cidade em um dos destinos mais desejados do país durante o ano inteiro.
Acompanho Gramado, pessoalmente, há quase vinte anos. Conheci a cidade numa época em que não existia Instagram, TikTok ou a pressão das redes sociais sobre os destinos turísticos. O fluxo era grande, sim, mas havia uma escala diferente, uma sensação de que a cidade ainda respirava no próprio ritmo. Hoje, quando volto, percebo que algo mudou estruturalmente, e não apenas nos preços.
O problema é que esse sucesso começou a abrir uma discussão importante: até que ponto uma cidade pode crescer voltada para o turismo sem começar a impactar negativamente a vida de quem mora nela? Essa pergunta ganhou ainda mais força depois que a Prefeitura de Gramado aprovou um projeto de expansão urbana na região do bairro Mato Queimado, na parte norte da cidade. A proposta prevê uma nova centralidade urbana, com áreas residenciais, hospital, comércio, mobilidade, ciclovias e estrutura para dezenas de milhares de moradores no futuro. Na prática, quase uma "nova Gramado".
O novo projeto acabou acendendo um debate que já vinha crescendo entre moradores e especialistas em turismo urbano. Para muita gente, Gramado deixou de ser apenas uma charmosa cidade da Serra Gaúcha e virou praticamente um grande cenário turístico permanente. A cidade continua limpa, organizada, bonita, segura e extremamente eficiente em receber visitantes. Cafés lotados, hotéis luxuosos, restaurantes temáticos, atrações instagramáveis e um calendário constante de eventos ajudaram a criar uma experiência turística muito forte. Mas ao mesmo tempo, os preços começaram a subir de forma acelerada, os imóveis ficaram mais caros, os aluguéis dispararam e o custo de vida passou a pesar para quem realmente vive na cidade.
Uma parte importante desse fenômeno tem a ver com uma transformação profunda no comportamento do viajante moderno. As redes sociais criaram um tipo de turista que viaja, em grande medida, para mostrar que está viajando. O destino precisa ser instagramável. A experiência precisa render um story. E Gramado, com seus cenários fotogênicos, suas luzes, sua arquitetura europeia e seus eventos cinematográficos, encaixa perfeitamente nessa lógica. Isso atrai um volume crescente de visitantes, e o mercado, esperto, responde criando sempre uma novidade, uma atração nova, um evento diferente, para garantir que você nunca se sinta "já tendo visto tudo" e sempre tenha motivo para voltar. O resultado é um ciclo de demanda que não para de crescer e que pressiona preços, infraestrutura e, no fim, a própria vida dos moradores.
Esse é um fenômeno que já acontece em destinos turísticos famosos do mundo inteiro. Cidades como Barcelona, Veneza, Paris e Dubrovnik enfrentam discussões semelhantes há anos. O turismo traz riqueza, gera empregos e movimenta a economia, mas quando não existe um equilíbrio urbano, o morador começa a sentir que a cidade passa a funcionar mais para quem visita do que para quem vive nela diariamente. Em Gramado, moradores relatam trânsito constante, superlotação em diferentes épocas do ano e uma sensação de perda gradual da tranquilidade que sempre marcou a cidade.
E é justamente nesse ponto que o novo projeto urbano chama atenção. A criação dessa nova centralidade parece ser um reconhecimento indireto de que a cidade atual chegou perto do seu limite de expansão e precisa reorganizar seu crescimento. A prefeitura tenta preparar Gramado para o futuro, distribuindo melhor moradia, mobilidade e serviços públicos. A ideia, do ponto de vista urbanístico, faz sentido. O desafio será garantir que esse crescimento não gere ainda mais especulação imobiliária e continue afastando moradores para regiões cada vez mais distantes.
Como turismólogo, vejo Gramado como um dos maiores exemplos de planejamento turístico do Brasil. O trabalho realizado ao longo dos anos foi extremamente inteligente e transformou uma cidade da Serra Gaúcha em referência nacional de turismo. Mas quando olho para trás e comparo o que vi quase duas décadas atrás com o que Gramado é hoje, fico com uma pergunta que vai além da urbanística: estamos criando cidades para viver ou para consumir? Porque quando um lugar se torna tão desejado, tão disputado, tão "perfeito para postar", ele corre o risco de se tornar impraticável para quem simplesmente quer chamá-lo de casa. Talvez o maior desafio de Gramado comece agora: encontrar um equilíbrio entre continuar encantando turistas sem deixar de ser uma cidade confortável, acessível e funcional para os próprios gramadenses. Porque o verdadeiro sucesso turístico não deve ser medido apenas pela quantidade de visitantes, mas também pela qualidade de vida de quem chama aquele destino de casa.