O turismo em Dubai começou a ser planejado de forma estratégica ainda na década de 1980, como parte de um movimento para reduzir a dependência do petróleo e transformar o emirado em um polo global de comércio e lazer. Esse projeto ganhou força a partir da metade dos anos 1990, quando a cidade se abriu de vez para o turismo internacional e passou a investir pesado em infraestrutura, hotelaria e conectividade aérea, impulsionada principalmente pela criação da Emirates e por empreendimentos icônicos como o Burj Khalifa, o Dubai Mall e a Palm Jumeirah, consolidando Dubai como um dos destinos mais desejados do mundo.
Mas, diante do cenário atual no Oriente Médio, a cidade pode estar prestes a viver um dos momentos mais delicados do turismo desde a pandemia. E desta vez, o problema não é restrição, é percepção.
Mesmo não sendo o epicentro dos conflitos, Dubai passou a ser diretamente impactada pela insegurança associada à região, e isso já começa a refletir no comportamento do viajante. Na prática, o que se observa é uma mudança clara de rota. Pessoas estão evitando não apenas viajar para Dubai, mas também fazer conexões no destino, optando por caminhos mais longos, mais caros ou até pagando multas para remarcar passagens apenas para não transitar pela região.
Inclusive, ao longo desta semana, venho acompanhando um movimento que chama bastante atenção. Muitos viajantes que tinham planejado fazer um stopover em Dubai (aquela parada estratégica sem custo adicional antes de seguir viagem para outro destino), estão optando por cancelar esse trecho da viagem. Ou seja, não é só quem iria para Dubai que está mudando os planos, mas também quem apenas passaria pela cidade.
Esse comportamento não é isolado. Em conversas com agências de viagem, a percepção tem sido praticamente unânime. Os passageiros não se sentem confortáveis em viajar para a região neste momento e muitos estão antecipando decisões, cancelando ou alterando viagens que aconteceriam nos próximos meses.
Nas redes sociais, o cenário se repete. Pessoas relatam insegurança, dúvidas e uma tendência clara de evitar qualquer rota que envolva o Oriente Médio, mesmo que isso represente mais tempo de viagem ou um custo maior.
Os guias de turismo locais que conversei também já começam a sentir os efeitos dessa mudança. Há relatos de cancelamentos em série de passeios previstos para os meses de abril, maio e junho, além de muitos profissionais que optaram por reduzir ou até interromper temporariamente suas atividades, seja pela queda na demanda ou por não se sentirem confortáveis em trabalhar neste momento.
Com isso, outros destinos passam a ganhar protagonismo. Viagens que antes tinham Dubai como foco estão sendo redirecionadas para outras grandes cidades fora do eixo do Oriente Médio, mostrando como o comportamento do viajante impacta diretamente o mapa do turismo global.
E é aqui que entra um ponto importante. Dubai é um emirado extremamente rico e construiu uma economia sólida e diversificada ao longo das últimas décadas, mas hoje o turismo é um dos seus principais pilares. A cidade recebe milhões de visitantes todos os anos e uma parte significativa da sua estrutura foi desenvolvida com base em um fluxo constante e elevado de turistas.
Quando esse fluxo diminui, mesmo que por um período, o impacto acontece em cadeia. Hotéis, atrações, restaurantes, experiências e toda a engrenagem que gira em torno do turismo passam a sentir essa desaceleração.
Os grandes empreendimentos continuam operando, mas quem sente primeiro são os profissionais que dependem diretamente desse movimento. Guias, operadores, motoristas e prestadores de serviço acabam sendo os mais afetados em um cenário como esse.
Além disso, muitos negócios foram estruturados considerando uma alta demanda contínua. Uma redução mais prolongada no número de turistas pode gerar ajustes, mudanças operacionais e readequações no mercado local.
Na minha leitura como profissional de turismo, 2026 tende a ser um ano desafiador para Dubai nesse setor. A incerteza, somada à percepção de risco, já está influenciando decisões de viagem no mundo inteiro. E no turismo, quando a confiança do viajante é abalada, o impacto não demora a aparecer. Ele vem rápido.