Pedro Hauck

Os guerreiros de vermelho: quem são os Maasai

Tradição, o tabu da caça e a dança dos saltos: conheça a rotina dos Maasai em Ngorongoro e descubra a origem de suas famosas vestimentas em xadrez.

Uma mulher da tribo Masai na Tanzânia
Foto: Pedro Hauck
Uma mulher da tribo Masai na Tanzânia

Quem viaja pela Tanzânia em direção às planícies do Serengeti ou cruza as bordas da imensa caldeira de Ngorongoro inevitavelmente se depara com uma cena marcante: em meio ao capim seco e à poeira dourada da savana, surge uma figura esguia, envolta em tecidos de um vermelho vivo, apoiada em um cajado comprido enquanto pastoreia dezenas de vacas a poucos metros de animais selvagens.

Esses são os Maasai (ou massais), um dos povos originários mais emblemáticos, resistentes e fascinantes de todo o continente africano.

Em um mundo acelerado e urbanizado, eles continuam desafiando a modernidade para preservar costumes ancestrais. Mas de onde eles vieram? Como conseguem viver cercados por leões e hienas? E por que usam aquelas túnicas xadrez que mais parecem saídas da Escócia?

As origens e a descida pelo Nilo


Os Maasai não são originários da região dos grandes parques da Tanzânia e do Quênia desde sempre. Trata-se de um povo de tronco linguístico nilótico. Seus antepassados migraram a partir do vale do Baixo Nilo, em uma região que hoje corresponde ao Sudão do Sul, por volta do século XV.

Descendo em direção ao sul ao longo do Grande Vale do Rift, eles dominaram militarmente vastos territórios entre os séculos XVII e XIX, graças à sua temida reputação como guerreiros (morans). Quando os exploradores europeus chegaram ao leste africano, os Maasai já eram os senhores absolutos das melhores pastagens da região.

Hoje, vivem semi-nômades em comunidades chamadas bomas — círculos de pequenas cabanas feitas com galhos, terra e esterco seco de vaca, protegidas do lado de fora por uma barreira espessa de acácias espinhosas, projetada para evitar ataques noturnos de predadores ao rebanho.

Uma Boma, aldeia Masai na area de Conservação de Ngorongoro, Tanzânia
Foto: Pedro Hauck
Uma Boma, aldeia Masai na area de Conservação de Ngorongoro, Tanzânia

O gado é vida: o tabu da caça e a dieta tradicional


Para entender os Maasai, é preciso compreender sua relação com o gado. O gado bovino não é apenas a moeda de troca e o patrimônio da família; ele é o centro espiritual de sua cultura. Segundo a crença tradicional maasai, o deus criador (Enkai) concedeu a eles todo o gado existente sobre a face da Terra. Por isso, a riqueza e o status social de um homem são medidos por duas coisas: o número de vacas que possui e a quantidade de filhos que tem.

Foto: Pedro Hauck
O autor com um Masai na Tanzânia

Em uma das minhas visitas a uma boma, perguntei a um Maasai se eles comiam carne de caça, tendo em vista a fartura inacreditável de gazelas, javalis e antílopes pastando logo ao lado da aldeia. A resposta dele foi taxativa:

“ Não. Nós só comemos carne de vaca e cabrito. Na nossa religião e nas nossas leis, você só pode comer animais que você mesmo cria. ”

Essa distinção é crucial na cosmologia maasai: quem caça animais selvagens para comer é visto com desdém, como alguém que não tem honra ou riqueza para possuir o próprio rebanho.

A dieta tradicional é extremamente direta: leite, carne e sangue fresco de boi. Para quem vê de fora, o hábito de beber sangue pode soar impressionante, mas ele é extraído de forma cirúrgica e sustentável: os guerreiros fazem uma pequena incisão na veia jugular da vaca com uma flecha sem ponta, coletam o sangue em uma cabaça, misturam com leite cru e estancam o ferimento imediatamente com cinzas e barro. A vaca não é abatida; continua viva no rebanho. Essa mistura altamente calórica e rica em ferro era a principal fonte de energia dos guerreiros durante longas travessias a pé. Hoje, embora consumam também farinha de milho (ugali) e chá com açúcar, o leite e a carne de seus rebanhos seguem insubstituíveis.

A guerra real contra os leões


Se eles não caçam herbívoros para comer, com os predadores a história é bem diferente. O mesmo morador da boma me explicou a relação com os felinos sem romantismos:

“ Nós matamos leões, sim. Eles são maus, atacam a gente e comem nosso gado. Muitos Maasai já foram mortos por leões. Se um leão invadir a área da aldeia, nós vamos atrás dele e matamos. ”

Foto: Gabriel Carneiro
Um Leão avistado durante Safari na Tanzânia

Historicamente, abater um leão na ponta da lança (olamayio) era o rito de passagem definitivo para um jovem guerreiro provar sua coragem perante a comunidade. Hoje, as leis de conservação ambiental na Tanzânia proíbem a caça esportiva ou cerimonial, mas a retaliação contra felinos invasores ainda é um ponto de atrito constante. A convivência na savana não é um conto de fadas da Disney; é uma disputa territorial dura pela sobrevivência da aldeia e de suas famílias.

O mistério da Shúkà: por que xadrez?


A vestimenta tradicional dos Maasai é conhecida como shúkà — grandes pedaços de tecido enrolados e amarrados ao redor do corpo. O visual é inconfundível: tons vibrantes de vermelho, azul, preto e listras cruzadas que lembram imediatamente o tartan escocês.

Mas como uma estampa tipicamente associada às Terras Altas da Escócia foi parar no coração da savana africana?

Historicamente, até meados do século XIX e início do século XX, os Maasai usavam peles e couros de animais tingidos com pigmentos naturais, argila ocre e gordura vegetal. A transição para os tecidos começou com as rotas comerciais de mercadores árabes e indianos na costa leste da África, que trocavam panos de algodão por marfim e outros bens.

Contudo, a introdução definitiva dos padrões xadrez tem duas explicações históricas principais que se complementam:

Foto: Pedro Hauck
Mulheres Masai usando a tradicional shúkà.

A presença colonial britânica: Tropas coloniais e missionários escoceses no Quênia e na Tanzânia no final do século XIX e início do XX trouxeram tecidos industriais xadrez. Os Maasai adotaram o material com entusiasmo pela sua resistência climática (o algodão grosso ou fibras acrílicas isolam o vento frio da noite e protegem do sol equatorial) e pelo apelo estético marcante.
A produção têxtil pós-independência: A partir dos anos 1950 e 1960, indústrias têxteis no Quênia e na Tanzânia começaram a fabricar a shúkà em larga escala exclusivamente para a população pastoralista, consolidando as estampas geométricas que hoje são sinônimo absoluto de identidade cultural maasai.
A cor predominante, o vermelho vivo, não foi escolhida por acaso: além de simbolizar a bravura e a força do guerreiro, os Maasai afirmam que a cor vermelha ajuda a afugentar predadores a grandes distâncias em meio à vegetação da savana.

A dança dos saltos e o teste dos guerreiros


Outro ritual célebre dos Maasai é o Adumu, a dança cerimonial dos guerreiros. Nela, os homens formam um semicírculo, entoam cânticos guturais rítmicos e, um a um, vão ao centro para pular verticalmente o mais alto possível, com o corpo reto e sem dobrar excessivamente os joelhos. Quanto mais alto o guerreiro salta, mais demonstra sua força, vigor físico e atratividade na comunidade.

Em uma das minhas passagens por uma aldeia, no meio dos cânticos e da energia contagiante da roda, os guerreiros me chamaram para participar da dança. Não hesitei: entrei no círculo e pulei com eles. Décadas de treino em subidas íngremes de montanha cobram seu preço, mas também deixam as pernas fortes. Confesso que me saí muito bem na disputa dos saltos verticais, arrancando sorrisos e o respeito genuíno dos anfitriões. Momentos como esse quebram qualquer distância cultural pelo esporte e pelo riso compartilhado.

Convivência e dilemas no século XXI


Cruzar o território Maasai durante nossas expedições nos obriga a refletir. Eles vivem em equilíbrio delicado entre as exigências da conservação ambiental ( como na Área de Conservação de Ngorongoro, onde pastoreiam ao lado de zebras e gnus ) e a pressão das autoridades governamentais, que frequentemente tentam reassentá-los para transformar terras ancestrais em áreas puramente turísticas.

Ver os jovens guerreiros caminhando descalços ou calçando sandálias feitas de pneus velhos de caminhão, segurando um bastão de madeira tradicional em uma mão e um smartphone na outra, resume a África contemporânea: um continente onde o passado primordial e o presente hiperconectado convivem lado a lado.

Na próxima coluna, daremos um mergulho ainda mais profundo no tempo para entender por que este pedaço da Tanzânia é o verdadeiro berço de todos nós: os fósseis, as cinzas vulcânicas de Laetoli e a fantástica história da evolução humana no Rift Valley.


* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG