Pedro Hauck

Leh: o oásis de Ladakh e seu Palácio Real

Leh, capital do "Pequeno Tibete", surpreende com sua atmosfera vibrante e o majestoso Palácio Real, símbolo da resistência cultural local.

Vista do Palacio de Leh para a cordilheira de Zanskar em Ladakh, Índia.
Foto: Pedro Hauck
Vista do Palacio de Leh para a cordilheira de Zanskar em Ladakh, Índia.

Depois do choque militar e da dura burocracia na nossa chegada ao aeroporto, a cidade de Leh nos abraçou de uma forma inesperada. Apesar de estar situada no epicentro de um verdadeiro caldeirão geopolítico militarizado, Leh se revelou uma cidade incrivelmente simpática e gostosa. Caminhar por suas ruas é descobrir uma atmosfera acalmante, repleta de bons restaurantes, cafés charmosos, lojinhas de artesanato e hotéis muito bem estruturados.

Para quem vive de montanha e expedições, é impossível não fazer comparações. Essa infraestrutura acolhedora e turística de Leh é completamente diferente da realidade que costumamos encontrar na cidade-base do Paquistão, frequentemente usada como ponto de partida para as exigentes expedições no Karakoram. Enquanto o lado paquistanês das montanhas impõe uma austeridade crua e rústica aos montanhistas, Leh oferece um refúgio reconfortante. Nós nos sentimos imediatamente bem aqui.

Cidade de Leh, Ladakh
Foto: Pedro Hauck
Cidade de Leh, Ladakh

E há a paisagem. O céu de um azul profundo, o ar rarefeito e as montanhas áridas ao redor gritam a todo momento que estamos em solo tibetano. E, dominando absolutamente toda essa vista, encrustado na montanha rochosa, temos o Palácio de Leh. Ele se ergue majestosamente sobre a colina Tsemo e nos lembra o tempo todo daquela impressão imutável: este é, de fato, o Tibete indiano.

Um pedaço do Tibete na Índia


O Palácio de Leh (ou Lhachen Palkhar) é o marco arquitetônico mais imponente da cidade e o símbolo máximo da antiga glória do reino de Ladakh. Construído no século XVII (por volta de 1600) pelo rei Sengge Namgyal, o palácio é um dos melhores e mais preservados exemplos da arquitetura medieval tibetana fora do Tibete .

Foto: Pedro Hauck
Palácio de Leh, forte influência tibetana em Ladakh, Índia.

O seu design foi fortemente inspirado no famoso Palácio de Potala, em Lhasa, a tradicional residência do Dalai Lama. Para a época de sua construção, era um verdadeiro arranha-céu medieval, com impressionantes nove andares. Os andares superiores acomodavam a família real e a corte, ostentando grandes varandas esculpidas, enquanto os andares inferiores funcionavam como estábulos para cavalos e enormes armazéns de suprimentos.

A engenharia é formidável: foi construído com pedra, madeira, areia e lama, utilizando a tradicional técnica de taipa de pilão. O segredo dessas paredes de barro incrivelmente grossas é que elas atuam como isolantes térmicos perfeitos, mantendo o interior aquecido durante os invernos brutais da região (que chegam a -20°C) e fresco no auge do verão.

O fim do reinado e o abandono

A glória deste edifício imponente, no entanto, foi interrompida de forma abrupta. Em 1834, o general Zorawar Singh, liderando as forças Dogra vindas da região de Jammu, invadiu Ladakh. Quando as tropas sitiaram a cidade, a família real ladakhi foi forçada a abandonar o palácio, pondo fim a séculos de ocupação.

Eles fugiram para o vilarejo de Stok, a cerca de 15 quilômetros dali, onde construíram o Palácio de Stok, local onde os descendentes da linhagem real vivem até os dias de hoje. Após a invasão, o Palácio de Leh foi duramente pilhado e sofreu com o severo desgaste das intempéries, ficando em ruínas por mais de um século.

O palácio hoje: história e aclimatação

Hoje, o edifício é cuidadosamente mantido pelo Archaeological Survey of India (ASI), que realiza um complexo processo de restauração para evitar que as paredes seculares desmoronem.

Por dentro, ele é bastante rústico, escuro e labiríntico. Embora grande parte dos cômodos esteja vazia, conferindo um certo ar fantasmagórico, há um pequeno e rico museu no interior. O acervo exibe joias, ornamentos, trajes cerimoniais e thangkas (pinturas budistas em tecido) da antiga realeza. Algumas dessas peças têm mais de 450 anos e foram coloridas com tintas criadas a partir de ouro e pedras trituradas.

Foto: Pedro Hauck
Vista do Palacio de Leh

Mas o grande prêmio do Palácio de Leh está no topo. A verdadeira recompensa da visita é chegar ao telhado. De lá, temos uma visão panorâmica espetacular de 360 graus: de um lado, o labirinto da cidade velha e o verde dos campos nos vales; do outro, a imponente cordilheira de Zanskar com seus picos nevados.

Como a cidade já está a 3.500 metros de altitude, a subida a pé pelos becos estreitos até a base do palácio é íngreme e costuma tirar o fôlego, o que faz dessa imersão histórica um excelente (e belíssimo) teste de aclimatação para o corpo antes de seguirmos caminho rumo às grandes montanhas.


* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG