O lado de trás do Olimpo. Região aonde é proibido caminhar no Parque Estadual do Marumbi.
Pedro Hauck
O lado de trás do Olimpo. Região aonde é proibido caminhar no Parque Estadual do Marumbi.

A Travessia Alfa Ômega, no Parque Estadual do Marumbi (PEM), é lenda e polêmica. Proibida há 30 anos e classificada como "Área Intangível" no Plano de Manejo, uma das trilhas mais desafiadoras e lendárias da Serra do Mar paranaense não apenas se consolidou culturalmente, mas também fisicamente. Afinal, a regra que visa proteger o ecossistema frágil está, de fato, cumprindo seu papel, ou apenas ignorando a história e a cultura do montanhismo local? Analisamos o conflito entre lei, cultura e ambientalismo, propondo uma solução adaptativa para o futuro do "Berço Nacional do Montanhismo".

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Museu Alfredo Andersen

O Marumbi retratado na tela de Alfredo Andersen de 1910. Montanha histórica na cultura e no esporte.

O Marumbi, um conjunto de montanhas na Serra do Mar paranaense, é considerado uma meca do montanhismo. A prática dessa atividade na região, agora Patrimônio Cultural do Paraná (Lei de 2025), tem raízes históricas, remontando a 1879, ano em que a equipe liderada por Joaquim Olimpo de Miranda fez a primeira ascensão ao cume que, na época, era tido como o mais alto.

As montanhas do Marumbi, um conjunto imponente na Serra do Mar paranaense, são um pólo de atração histórica para o montanhismo no Brasil. Entre os cumes mais conhecidos e frequentemente visitados estão o Pico Ponta do Tigre (1.300m), o Pico Gigante (1.490m), o Pico dos Abrolhos (1.200m) e o Pico Olimpo (1.539m), este último considerado o mais famoso e o ponto mais alto do conjunto. No entanto, para além do Olimpo, e muito menos conhecidos pelo grande público, existem diversos outros cumes que compõem a área, incluindo aqueles que integram a desafiadora Travessia Alfa Ômega. Tais montanhas — entre elas o Leão (1563m), Pico Pelado (1480m), Chapéu (1438m),  Alvoradas (1400m), Mesa (1370m), Sem Nome (1411m) e o Pico Carvalho (1433m) — foram classificadas como Área Intangível no Plano de Manejo do Parque Estadual do Marumbi (PEM), estabelecido em 1996, e, por isso, o acesso a elas é estritamente proibido.

Silhueta da Serra do Marumbi, onde é possível ver os cumes da travessia Alfa Ômega.
Divulgação
Silhueta da Serra do Marumbi, onde é possível ver os cumes da travessia Alfa Ômega.


A prática de realizar incursões nas montanhas do Marumbi, seja por motivação esportiva, recreativa ou outras, possui raízes profundas, sendo reconhecida como uma verdadeira cultura. Esse reconhecimento se manifesta no título de patrimônio cultural imaterial do Estado do Paraná, conforme a Lei nº 22.631/2025, e de Berço Nacional do Montanhismo, aprovado pela Comissão de Educação do Senado no Projeto de Lei 5.087/2023. Contudo, é importante ressaltar que, em meados da década de 90, essas atividades eram frequentemente mal interpretadas ou confundidas com desordem.

A criação de regras para coibir abusos e impor limites no Parque Estadual do Marumbi (PEM) em 1995 foi uma resposta totalmente compreensível à profunda preocupação de montanhistas experientes e ambientalistas com a falta de educação e consciência de alguns visitantes.

O cenário era caótico e exigia uma resposta urgente, tornando a implementação de um regulamento uma medida natural e necessária para restaurar a ordem. A anarquia era evidente, marcada por superlotação, acúmulo de lixo, visitantes despreparados e alta frequência de acidentes, pessoas perdidas e óbitos. Foi nesse contexto que surgiu, por exemplo, a proibição de acesso às montanhas situadas além do Pico Olimpo.


Mas afinal é mesmo proibido?

Para melhor situar a questão, é fundamental esclarecer qual é exatamente essa suposta proibição. Na realidade, não existe uma lei específica aprovada pela assembleia legislativa que vede o montanhismo. O arcabouço legal que sustenta todas as regras que devemos seguir (sob pena de sanções) é o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Trata-se da Lei nº 9.985, de 2000, que estabelece o conjunto de diretrizes e instrumentos para que os governos (federal, estadual ou municipal) e a iniciativa privada possam criar, administrar e organizar as áreas protegidas no Brasil, como os Parques Nacionais e Estaduais

A categoria "Parque" é classificada como uma Unidade de Conservação de uso Integral. Seu principal objetivo é a preservação de ecossistemas de grande relevância e beleza cênica, mas a legislação permite outras utilizações.

De acordo com a lei, o Parque deve ser acessível para pesquisa, educação ambiental, turismo e recreação, não se restringindo apenas à preservação. Essa abordagem está alinhada com as diretrizes internacionais da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A IUCN, em seu documento “Guidelines for Applying Protected Areas Management Categoreis”(Diretrizes para Aplicação das Categorias de Gestão de Áreas Protegidas) tipifica o objetivo da categoria Parque, sendo eles:

O conjunto do Marumbi
Pedro Hauck
O conjunto do Marumbi

- Proteção da Biodiversidade: Assegurar a manutenção da estrutura ecológica e dos processos ambientais essenciais.
- Educação e Recreação: Oferecer oportunidades de uso público que sejam sustentáveis e não causem degradação ambiental.
- Preservação Cênica e Pesquisa: Conservar a beleza cênica e as características geofísicas. Apoiar a pesquisa científica.

Para alcançar os objetivos de um Parque e fundamentar sua gestão, a lei exige que cada unidade de conservação possua um Plano de Manejo. Este documento é o instrumento jurídico fundamental que sustenta a gestão do parque, definindo todas as ações permitidas e proibidas dentro da unidade de conservação.

A missão essencial de um Plano de Manejo é estabelecer um zoneamento dentro da área do parque, conforme a regulamentação legal, que define quatro zonas de uso público:

- Zona de Uso Intensivo (Acesso Alto): Destinada a infraestruturas de alto fluxo, como centros de visitantes, estacionamentos, lanchonetes, hotéis e atrativos com acessibilidade.
- Zona de Uso Extensivo (Acesso Médio): Inclui as principais trilhas, mirantes e áreas voltadas para a educação ambiental.
- Zona de Uso Primitivo (Acesso Baixo): Oferece uma experiência de isolamento, caracterizada pela ausência de infraestrutura fixa.
- Zona Intangível (Acesso Zero): Área de proteção integral, com acesso absolutamente restrito.

O objetivo de uma Zona Intangível

A Área Intangível do Parque do Marumbi: Critérios e Restrições

A criação de um Plano de Manejo para uma unidade de conservação, conforme estabelecido pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), exige um zoneamento que cumpra critérios específicos para atingir seus objetivos.

O primeiro critério para a designação de uma área como "intangível" é a sua relevância ecológica. Ela deve proteger:

- Ecossistemas Raros: Funcionando como um "banco genético".
- Ecossistemas Frágeis: Áreas que não toleram qualquer tipo de alteração ou pisoteio.
- Áreas em Sucessão Ecológica: Locais que estão em um processo de recuperação natural e não podem sofrer influência humana (antrópica).

Restrições de Acesso:

Uma área intangível, por definição, possui acesso estritamente restrito. Não é permitido o ingresso do público em geral para atividades de lazer, turismo ou esporte. O acesso é liberado apenas para fins de pesquisa científica ou fiscalização.

A Questão Legal:

A definição e aplicação das regras para as áreas do Parque do Marumbi são complexas, situando-se na "zona cinzenta" estabelecida pelo Artigo 8º do Decreto 84.017/79, que regulamenta os Parques.

Zona Intangível (Art. 8º, I): É a área de mais alto grau de preservação, onde a natureza se mantém intacta e quaisquer alterações humanas são intoleradas.

Embora o decreto seja anterior ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), ele ainda é utilizado. Isso ocorre porque o SNUC foi genérico em relação ao zoneamento, delegando os detalhes para o Roteiro Metodológico de Elaboração de Planos de Manejo. Este roteiro manteve a tipificação das zonas quase idêntica, apenas adaptando a linguagem para a gestão.

Este ponto legal é crucial e constitui o cerne de toda a polêmica envolvendo o Marumbi.


Zona Intangível x Montanhismo no Parque do Marumbi

O Marumbi é reconhecido como o berço do montanhismo no Paraná. Dentro da sua área Intangível, há uma porção com significado histórico para a atividade: a Travessia Alfa Ômega. Esta trilha lendária, que conecta a estação de trem (a área de visitação mais popular) ao Morro do Canal, atravessando vários cumes de leste a oeste, é um verdadeiro mito.

Proposta em 1947, a Alfa Ômega demorou 44 anos para ser concluída, devido à sua extrema dificuldade e ao compromisso que exigia, sendo finalmente realizada apenas em 1991. Sua magnitude e significado, aliada ao fato de que, por muito tempo, sequer possuía um caminho bem definido, consolidaram a travessia como uma lenda no montanhismo.

A travessia Alfa Ômega projetada nas imagens de satélite do Google Earth
GeoKiriri
A travessia Alfa Ômega projetada nas imagens de satélite do Google Earth

A travessia original, realizada por Paulo Cezar Máfia, Dalio Zippin Neto, Gilson Bongiolo e Maurício “Vão”, levou quatro anos para ser repetida. Ela foi de responsabilidade dos irmãos Giancarlo e Gustavo Castanharo, Lauro de Freitas, Emerson Rolkouski e Edenilson Feola. Na época, eram jovens montanhistas com grande entusiasmo e ânsia por explorar as montanhas. Trinta anos depois, eles se tornaram figuras proeminentes no montanhismo, com um vasto e valioso legado. Contudo, apesar de toda a sua contribuição, naquela ocasião quase foram multados durante essa empreitada! Este episódio ficou marcado como o início do controverso regulamento.

A controvérsia central reside na área da Alfa Ômega, inserida na zona de proteção intangível. Argumenta-se que este local já não era intocado mesmo na época da elaboração do Plano de Manejo. Um exemplo disso é o acesso à travessia pela trilha "Free Way", que sediou a primeira corrida de aventura do Brasil, o Marumbi Trophy, nos anos 80. Além disso, diversos cumes dentro desta área intangível, como por exemplo o Leão, que é o mais alto de todo o Marumbi, foram conquistados individualmente ou como parte da travessia já nas décadas de 50 e 60.

Dessa forma, o princípio da "preexistência" é inegável, o que, por si só, contradiz diretamente o objetivo de uma área intangível: "Proteger um lugar intocado, para que permaneça intocado".

Caixa de Cume do Leão com as letras Alfa e Ômega. Instalada há mais de 50 anos no cume mais alto do Marumbi. Hoje proibido.
Pedro Hauck
Caixa de Cume do Leão com as letras Alfa e Ômega. Instalada há mais de 50 anos no cume mais alto do Marumbi. Hoje proibido.

O montanhismo, em sua essência, é movido por desafios. A "Alfa Ômega" representou o grande desafio de uma época, marcando profundamente o imaginário dos montanhistas daquele período. Embora poucos se sentissem capazes sequer de tentar, um fator ainda mais relevante é que isso impediu a consolidação de uma trilha na maior parte do tempo. A vegetação, extremamente densa e dominante, recuperava-se rapidamente após cada tentativa, obrigando a maioria dos que se aventuravam a abrir o caminho no peito, repetindo o esforço da vez anterior.


A Alfa Ômega hoje


Trinta anos após a criação do parque e a implementação de seu plano de manejo, o cenário mudou significativamente. O Marumbi já não é mais dominado por grandes grupos de visitantes mal-educados. Embora a má conduta ainda persista, é um problema muito menos expressivo do que há três décadas. É inegável que houve uma melhoria no perfil dos frequentadores, além de uma redução no número de pessoas que realizam ascensões às montanhas do parque.

A frequência de visitantes que chegam de trem à estação do Marumbi diminuiu significativamente, não atingindo mais as centenas de pessoas de antes. No entanto,  o número de praticantes de montanhismo explodiu após a pandemia de COVID-19, como o proprio IAT reconhece. É crucial observar que esse aumento de montanhistas não resultou em uma piora da qualidade ambiental das trilhas do Marumbi. Isso indica que a estrutura de controle e preservação do parque, incluindo as portarias em Prainhas e na estação Marumbi, além do manejo de trilhas realizadas pelo COSMO (Corpo de Socorro em Montanha), tem sido eficaz. A inexistência de um retrocesso à desordem do passado é um ponto positivo a ser ressaltado.

Sede do parque e do Cosmo na estação do Marumbi. O PEM é um dos poucos parques de montanha do Paraná que em estrutura.
Pedro Hauck
Sede do parque e do Cosmo na estação do Marumbi. O PEM é um dos poucos parques de montanha do Paraná que em estrutura.

O Parque do Marumbi testemunhou uma evolução notável: de um período com grande número de frequentadores desorganizados, as trilhas agora refletem uma cultura do montanhismo. Essa transformação dinamizou a economia e consolidou a identidade cultural dos entusiastas que buscavam o aprimoramento, tanto nas vias de escalada em rocha (atualmente permitidas e regulamentadas no PEM) quanto nas travessias (estas, lamentavelmente, criminalizadas).

Apesar da proibição imposta pelo Plano de Manejo e da fiscalização, a Trilha Alfa Ômega continua a ser percorrida. Frequentada discretamente por montanhistas em busca do mito da década de 60, ou por corredores visando marcas esportivas, a travessia é hoje uma realidade estabelecida. Ela conta com um caminho definido e locais, ainda que precários, para pernoite. As multas e sanções não impediram a frequência, mas apenas desestimularam sua divulgação. Isso evidencia que nem mesmo medidas rigorosas são suficientes para deter uma atividade que se enraizou culturalmente e se tornou essencial na vida de seus praticantes.


Regra que “pega” e que “não pega” no Brasil


Durante meu período estudando Geografia na Unesp, em Rio Claro-SP, descobri uma lei que parecia absurda: uma legislação de 1894 que proibia a venda e o consumo de melancia na cidade. Embora pareça cômica fora de contexto, essa lei foi criada em resposta a uma epidemia de tifo, pois havia o risco de a fruta estar contaminada. O mais inacreditável é que essa proibição só foi revogada em 2025. Sem saber, cometi um ato ilegal diversas vezes ao longo dos anos.

Quando uma lei se torna amplamente desrespeitada, a exemplo da proibição de comer melancia em Rio Claro, ela pode ser percebida como absurda. Disso deriva o ditado popular sobre leis que "pegam" e leis que "não pegam".

Em outras palavras, existem regulamentos que a sociedade adere e segue, transformando o seu cumprimento em um indicador de moralidade e sua violação em motivo de repúdio social. Por outro lado, há regras que "não pegam" – leis que são ignoradas, e cuja infração não gera objeção moral perante a sociedade. A proibição da Alfa Ômega é citada como um exemplo desse segundo tipo de regra, um "anacronismo normativo".

A travessia consolidou-se precisamente no período em que esteve proibida. Além disso, a Alfa Ômega é um tema recorrente, com diversas publicações, incluindo capítulos e livros inteiros dedicados a ela. Quem a percorre recebe certificado e medalhinhas dado pelo patrono do montanhismo paranaense, Henrique Schmidlin "Vitamina", no tradicional Jantar da Montanha. É impensável narrar a história do montanhismo paranaense sem mencioná-la ( exemplo é minha coluna sobre a evolução das Travessias no Paraná). Por isso, no âmbito cultural, não há justificativa para sua proibição. Na verdade, dada a natureza intrinsecamente rebelde do montanhismo, é provável que a proibição imposta aos jovens aventureiros em 1995 tenha apenas servido de estímulo para sua realização. Essa é a base da minha afirmação.


E o meio ambiente?


A questão ambiental é crucial e inegável neste debate, visto que a conversão da Alfa Ômega em uma área intangível foi fundamentada de forma única e estrita em argumentos técnicos ambientais.

A travessia segue pelas cristas e picos do alto da Serra, abrangendo uma área com dois ecossistemas distintos: os Campos de Altitude e a Floresta Ombrófila Alto Montana, conhecida popularmente como "Matinha Nebular". Esses dois ecossistemas encontram-se em estágios de sucessão opostos, o que significa que, ao longo do tempo fisiográfico, competiram e continuam competindo ecologicamente entre si.

Os campos de altitude se originaram durante as últimas glaciações, um período marcado por um clima mais frio e seco. Essas condições favoreceram a expansão da vegetação campestre, altamente adaptada a fatores como geadas, solos rasos e estiagens prolongadas. Com o término desse período climático, na transição do Pleistoceno para o Holoceno, o aumento da temperatura e da umidade alterou o cenário ecológico. As formações florestais começaram a avançar sobre os campos, que ficaram restritos e isolados nos cumes da Serra do Mar e nos Campos Gerais.

Essa dinâmica está detalhada e bem explicada em minha dissertação de Mestrado. O trabalho, intitulado "CERRADOS, CAMPOS E ARAUCÁRIAS: A TEORIA DOS REFÚGIOS FLORESTAIS E O SIGNIFICADO PALEOGEOGRÁFICO DA PAISAGEM DO PARQUE ESTADUAL DE VILA VELHA, PONTA GROSSA - PARANÁ "(2009), foi apresentado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFPR.

Meus estudos indicam que o ecossistema frágil e que realmente necessita de proteção são os campos de altitude. Estes estão perdendo espaço geoecológico para as Matinhas Nebulares, que predominam na maior parte do ambiente da travessia Alfa Ômega, principalmente devido às mudanças climáticas.

A Floresta Ombrófila altomontana, o ecossistema predominante na travessia Alfa Ômega.
Pedro Hauck
A Floresta Ombrófila altomontana, o ecossistema predominante na travessia Alfa Ômega.

Portanto, se a criação de uma área intangível visa proteger um ecossistema frágil, ela, na verdade, está protegendo um ambiente que não corre risco de extinção — pelo contrário, ele está se expandindo e avançando sobre o ambiente frágil, que são os campos de altitude. 

Além disso, a principal ameaça aos campos de altitude não reside diretamente na ação humana. Este ecossistema demonstra grande resistência ao pisoteio e, inclusive, pode ser beneficiado por intervenções humanas diretas, como o uso do fogo. Um exemplo disso é que as áreas montanhosas mais afetadas por queimadas, como a Serra do Capivari, são justamente aquelas que abrigam as maiores extensões de campos de altitude na Serra do Mar do Paraná (há diversos trabalhos científicos sobre o papel do fogo em ecossistemas campestres, referências no fim do texto).

Uma área de campo ao lado de uma área com matinha nebular. As matas estão avançando sobre o campo por causas naturais
Pedro Hauck
Uma área de campo ao lado de uma área com matinha nebular. As matas estão avançando sobre o campo por causas naturais


É importante frisar que esta constatação não é um incentivo para iniciar incêndios ou pisoteamento dos campos. O que se afirma é que a travessia de uma região de campo de altitude por meio de uma trilha não constitui uma ameaça a este ecossistema. Da mesma forma, uma trilha regulamentada não será capaz de impedir a progressão natural das "matinhas nebulares" sobre os campos, um processo que é determinado por fatores climáticos, como o aumento da umidade e a atenuação das temperaturas mais baixas que permite a evolução do solo que dá o aporte para a evolução das matas.

Em última análise, é essencial reconhecer que o traçado da Alfa Ômega se desenvolve majoritariamente por cristas e cumes, áreas que, conforme demonstrado, não se classificam como ecossistemas frágeis que necessitam de isolamento absoluto. A existência de uma trilha bem definida, com cerca de um metro de largura, não se opõe aos objetivos centrais de um Parque; pelo contrário, ela pode ser um instrumento de preservação.

No recente Congresso Mundial de Conservação, realizado em 2025, a UICN reconheceu as trilhas como ferramentas de conservação. No Brasil já tem um politica publica, oficialmente reconhecida, a Rede Nacional de Trilha e Conectividade que dispõe de ferramentas que permitem lidar com situações com a qual nos defrontamos hoje no Marumbi.

Ao concentrar o tráfego de pessoas, esse caminho demarcado atua como uma barreira natural contra a intrusão de frequentadores mal-intencionados, como caçadores e palmiteiros, protegendo uma área imensa de mata. Além disso, a trilha regulamentada contribui diretamente para um dos objetivos do SNUC: a conservação da beleza cênica e das características geofísicas da região, permitindo que a atividade humana seja direcionada e controlada.


Afinal qual é o caminho?

É comum dizer que criticar é fácil, mas agir é difícil. Meu propósito aqui é ir além da crítica e fazê-la de forma responsável. O ponto central deste texto, que precisa ser debatido, é identificar os erros que levaram ao conflito e buscar soluções. A partir deste momento, afasto-me um pouco dos fatos concretos para apresentar minha perspectiva.

Acredito que, após 30 anos de sua criação, a área intangível do Marumbi não atingiu seu propósito. Antes, era um ambiente selvagem; agora, continua selvagem, mas com uma trilha.

Considerando os fatores históricos, defendo que os cumes e o traçado da trilha Alfa Ômega deveriam ser excluídos da Área Intangível do Parque do Marumbi.

Mapa do zoneamento do PEM, aonde observa-se que uma grande parte do Parque é área intangível. Incluindo cumes importantes.
Plano de Manejo do PEM
Mapa do zoneamento do PEM, aonde observa-se que uma grande parte do Parque é área intangível. Incluindo cumes importantes.

Em vez disso, essa área deve ser reclassificada como Zona de Uso Primitivo. Nesse tipo de zona, o acesso é permitido, mas estritamente sem intervenções humanas diretas.

Dessa forma, o Parque reconheceria a existência da trilha Alfa Ômega, permitindo sua utilização, desde que sob manejo adequado e regras estritas.

A trilha existente requer apenas algumas correções de traçado e melhor sinalização para prevenir incidentes de pessoas perdidas e a necessidade de resgates. Dada a sua extensão de 16km, é prudente planejar uma área de pernoite na metade do percurso, proibindo-o em outros locais.


Regulamentação Sugerida para a Travessia:


- Duração: Exigir que a travessia seja realizada em dois dias ou como "ataque"(em um único dia, sem pernoite).
- Planejamento de uma área de acampamento: Definir um local no meio da travessia para acampamento que respeite as normas de preservação ambiental e estabelecer um limite máximo de pontos para a montagem de barracas.
- Limite de Pessoas: Limitar o número de visitantes por dia, em função da capacidade de locais disponíveis para acampamento.
- Permissão e Experiência: Exigir que as equipes solicitem uma permissão prévia, informando seus dados e comprovando experiência, prática comum em diversas montanhas e travessias. Embora alguns possam tentar a travessia clandestinamente, a maioria (aqueles que desejam divulgar a experiência) buscará a permissão.

Apesar da carência de recursos, o Parque do Marumbi possui portaria e pessoal capaz de conferir essas permissões.


Fundamento Legal para a Mudança:

O Plano de Manejo, como um documento dinâmico, pode ser alterado conforme o Manejo Adaptativo, permitindo ao gestor do parque fazer atualizações pontuais em resposta a novas necessidades. É importante reconhecer a significativa transformação do cenário de preservação e das práticas de montanhismo no Parque do Marumbi ao longo dos últimos 30 anos.

Na esfera federal, o ICMBio já possui vasta experiência na aplicação do Manejo Adaptativo, uma ferramenta que possibilita a readequação do zoneamento sem a exigência de um novo Plano de Manejo completo.  Para isso, basta realizar uma atualização técnica fundamentada em novas informações.

Esta sugestão alinha-se com a obrigação atual do Estado de proteger a cultura do montanhismo como Patrimônio Imaterial através da Lei Estadual nº 22.631/2025, articulando-a com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Este é um fato jurídico novo que, por si só, justifica a necessidade de alteração na norma do Parque Estadual do Marumbi (PEM).


Considerações finais


É fundamental destacar que a criação do Parque Estadual do Marumbi (PEM) em 1995 ocorreu em um contexto de sérias ameaças, incluindo visitação desordenada, acúmulo de lixo, falta de manejo, faltade sinalização nas trilhas e despreparo dos visitantes. A preservação e o status de paraíso natural do Marumbi, tão próximo de uma metrópole como Curitiba, são o resultado de uma combinação de fatores. Entre eles, destacam-se o empenho inicial dos gestores em estabelecer regras e fiscalização, o trabalho incansável do COSMO na manutenção periódica das trilhas e a contribuição voluntária do saudoso Antônio Moraes Pereira, conhecido como “Antoninho Palmiteiro”, que calçou as trilhas da vila e o acesso via estação Engenheiro Lange.

É imprescindível sublinhar que, em momento algum, este texto se propõe a fazer ataques pessoais ou a desqualificar indivíduos. Meu único objetivo é debater ideias e buscar soluções adaptativas.

A Serra do Mar e parte da área que compreende a travessia Alfa Ômega
Elcio Douglas
A Serra do Mar e parte da área que compreende a travessia Alfa Ômega

A delimitação da Área Intangível, conforme estabelecida no Plano de Manejo de 1996, é, sim, profundamente polêmica. O cerne da controvérsia reside no fato de que essa classificação foi pautada de forma estritamente técnica, considerando apenas e unicamente os fatores ambientais (ecossistemas frágeis e em sucessão). Contudo, ao fazê-lo, ignorou-se por completo a história e a cultura do montanhismo, fatores humanos que devem ser considerados na elaboração de um Plano de Manejo. 

Há que se considerar que naquela época o montanhismo não era organizado, sendo que a fundação da Federação Paranaense de Montanhismo e a  Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada  foi realizada somente anos depois. Foi essa abordagem unilateral — técnica sem ser histórica e culturalmente informada — que deu origem ao conflito que perdura até hoje, colocando a lei em choque com a tradição, a prática cultural e sua evolução, hoje muito pautada na realização de grandes travessias ou trilhas de longo curso.

Acredito que o regulamento do plano de manejo de 1996 cumpriu sua função na época, mas se tornou obsoleto. É como a lei das melancias de Rio Claro: foi relevante durante a epidemia de Tifo, mas perdeu o sentido depois. Hoje, as regras não precisam ser tão restritivas, especialmente considerando o aumento na qualidade dos montanhistas.

É hora de expandir nossos horizontes. O Senado e a Assembleia Legislativa já reconhecem o Marumbi como berço do esporte, o Plano de Manejo local ainda trata o montanhista como um invasor de áreas proibidas

Minha visão é que uma travessia estruturada e regulamentada pela Serra do Mar, começando pela Alfa Ômega tomando rumo norte e chegando até São Paulo, englobando todos os conjuntos de montanhas, na realização de um grande projeto, a “Transparaná”, a maior travessia de montanhas do Brasil, tem o potencial de se tornar um destino de renome internacional. Isso transformaria a realidade dos Parques de montanha paranaenses.

Essa iniciativa permitiria o desenvolvimento de inúmeros serviços e a criação de emprego e renda. Os parques que hoje são "passivos", exigem vigilância e fiscalização constantes, seriam convertidos em um enorme "ativo" para o estado do Paraná.

Temos um longo e desafiador caminho pela frente, comparável à travessia Alfa Ômega. No entanto, o ponto de partida é a disposição para começar. Sendo assim, a questão que coloco é: Quando iniciaremos a discussão sobre a área intangível do Parque Estadual do Marumbi?


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