Os irmãos Jonathan Peixoto Ribeiro, de 24 anos, e Juliana Peixoto Ribeiro, de 27 anos, desapareceram na subida ao Pico da Bandeira
Arquivo pessoal
Os irmãos Jonathan Peixoto Ribeiro, de 24 anos, e Juliana Peixoto Ribeiro, de 27 anos, desapareceram na subida ao Pico da Bandeira

Após 60 horas de busca, os dois irmãos que se perderam no Pico da Bandeira, a segunda montanha mais alta do país, situada na divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo, foram finalmente localizados. Embora o resgate tenha trazido alívio, os detalhes de como e onde eles foram encontrados ainda não foram divulgados pelas equipes de salvamento. 

O incidente, no entanto, serve como um forte lembrete e alerta para aventureiros: a recomendação é enfática para que se evite subir montanhas de grande altitude no Sul e Sudeste do Brasil durante a estação do verão. Esta estação é caracterizada por um regime intenso de chuvas, o que eleva significativamente os riscos. A combinação de trilhas escorregadias, visibilidade reduzida e o risco de tempestades elétricas torna a ascensão de picos mais altos, especialmente aqueles que exigem pernoite, uma atividade consideravelmente mais perigosa. Este cenário é, infelizmente, muito comum. 


Aproveitando a concentração de feriados e o período de férias do verão, muitas pessoas buscam uma aventura nas montanhas. O que ocorre é que, frequentemente, elas saem de cidades com altas temperaturas, mas ao chegar às montanhas, onde a altitude é mais elevada, a temperatura cai drasticamente e a maioria está despreparada para essa mudança. 

Neste cenário comum, os aventureiros desavisados normalmente se molham (seja pela chuva ou suor) e, expostos nos campos abertos de altitude ao vento e à chuva, ficam extremamente suscetíveis à hipotermia. Perdidas, pois no meio das nuvens elas perdem orientação e, buscando abrigo, muitas vezes procuram locais fechados, como grutas e fendas em meio às pedras. Esse tipo de esconderijo natural, embora ofereça proteção inicial, dificulta ou até impossibilita que as equipes de busca os encontrem, mesmo com o uso de modernos helicópteros e drones equipados com sensores de calor.

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Roberto Farias Thomaz, que desapareceu após passar a virada do ano no Pico Paraná

O resultado são buscas intensas,  como houve com o Roberto Thomaz no Pico Paraná nos primeiros dias do ano de 2026. Betinho, como é chamado, desceu por um caminho que não tem trilhas, num vale muito encaixado e cheio de cachoeiras. Ele sequer conseguia ouvir o barulho dos helicópteros e só sobreviveu porque não desistiu e conseguiu, após 5 dias andando, chegar a uma fazenda na base da montanha.


A Dança com o Clima: Por que Respeitar a Temporada de Montanhismo no Brasil?

Praticar montanhismo no Brasil é, acima de tudo, um exercício de paciência e respeito aos ciclos da natureza. Frequentemente me perguntam por que insistimos tanto na ideia de uma "temporada ideal", e a resposta é técnica, mas também vital. Como bem destaca o estudo publicado na Revista Árvore ( scielo.br/j/rarv), a nossa atividade é intrinsecamente dependente da alternância entre a época de estiagem e a época de chuvas.

Para mim, a montanha se apresenta de duas formas muito distintas ao longo do ano. Durante os meses de outono e inverno, vivemos a nossa "época de ouro". É o período de estiagem, em que a atmosfera se estabiliza, o céu se abre e temos a segurança necessária para enfrentar cumes e cristas. Esta é a verdadeira temporada de montanhismo brasileira: um momento de maior previsibilidade e menor risco ambiental.

No entanto, quando entramos na baixa temporada, que é exatamente o período das chuvas, o cenário muda para o oposto. Entender essa transição é o que diferencia o entusiasmo da imprudência. É nesta época que o risco de acidentes atinge seu ápice. O trabalho científico citado reforça o que vemos na prática: as tempestades de verão trazem perigos letais, como descargas elétricas em áreas expostas e o fenômeno traiçoeiro das cabeças d’água em vales e cânions. Mesmo com as temperaturas altas da estação, a combinação de chuva e vento em altitude pode levar à hipotermia em poucos minutos.

Portanto, ao planejar minhas incursões, não vejo o calendário como uma restrição, mas como uma ferramenta de gestão de risco. Respeitar a baixa temporada não significa abandonar a montanha, mas reconhecer que, sob o domínio das chuvas, a natureza impõe limites que não devemos desafiar. O montanhismo consciente exige que saibamos ler o clima e entender que a nossa segurança é, em última análise, dependente do equilíbrio entre a nossa vontade e o regime de chuvas da nossa região.

O que fazer? Como evitar acidentes nas montanhas no verão?

A questão central é crucial. Por duas décadas, busquei promover a conscientização sobre esse tema através de diversas mídias (textos, vídeos, posts). Em 2022, esse esforço ganhou destaque e visibilidade significativa após o resgate de um grande grupo ligado ao coach Pablo Marçal, que foi pego por uma tempestade no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira. Finalmente, a mensagem alcançou um público mais amplo, permitindo-me discutir o assunto em rede nacional, no programa Fantástico da Globo. Pela primeira vez, notei que pessoas leigas entenderam a inadequação de praticar montanhismo no Sul e Sudeste durante o período de verão.


No entanto, a memória coletiva é fugaz e meus esforços, focados na comunidade do montanhismo, têm dificuldade em atingir o público-chave, que é o praticante eventual e iniciante. Diante disso, a pergunta permanece: qual a abordagem legal mais eficaz para avançar?

Considerando o ordenamento das áreas de maior frequência (majoritariamente Parques Nacionais ou Estaduais), acredito que a visitação a locais críticos deveria estar condicionada à temporada de montanha. Isso significa que ascensões mais longas e complexas deveriam ter um regramento específico para prevenir acidentes. Embora seja avesso a proibições, entendo que, neste caso, tratar-se-ia de orientação e condicionamento, não de proibição. Infelizmente, a realidade das unidades de conservação dificulta essa implementação.

Para uma conscientização local eficiente e a orientação adequada dos visitantes, sem necessidade de proibições, os parques precisariam de estrutura e pessoal qualificado. A triste realidade é que a maioria das unidades de conservação carece desses recursos essenciais, incluindo até mesmo um plano de manejo. O plano de manejo é o documento fundamental que criaria esse regramento, e sua elaboração deveria envolver a comunidade local e os montanhistas, os maiores interessados nessa regulamentação. A ausência desses planos na maioria dos parques resulta em resgates e buscas frequentes (todos os finais de semana e feriados), colocando equipes de resgate em risco e gerando um custo considerável para o Estado (uso de aeronaves e grande contingente de pessoal). Esse gasto significativo poderia, de forma mais produtiva, ser direcionado para a estruturação desses locais e, consequentemente, para a prevenção de acidentes.

A situação exposta, com a recorrência de acidentes e a sobrecarga das equipes de resgate durante a temporada de chuvas, exige uma ação imediata. Considero urgente um esforço coordenado e sério para buscar resolver o problema estrutural dos resgates e buscas recorrentes no montanhismo brasileiro de verão.

Tenho quase 30 anos de experiência em montanha e uma vasta vivência internacional, tendo conhecido e trabalhado em realidades de gestão de parques e montanhas em diversos países onde a segurança e a prevenção com visitação são prioridades. No entanto, o que me causa profundo ceticismo é a total falta de abertura das autoridades brasileiras. Mesmo estando aberto e sendo conhecido e reconhecido por minhas experiências e formação na área, jamais fui convidado a participar de qualquer reunião ou grupo de trabalho nos Parques Nacionais e Estaduais que frequento e nos quais atuo profissionalmente.

Enquanto a gestão das Unidades de Conservação permanecer desestruturada e fechada, continuaremos a testemunhar acidentes trágicos e o desperdício de recursos públicos em gastos desnecessários para remediar algo que poderia, e deveria, ser prevenido através de regramentos simples, planos de manejo adequados e um diálogo aberto com quem conhece o terreno. A prevenção é sempre mais eficiente, ética e econômica do que o resgate.


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