
O dia 15 de janeiro, inicialmente planejado como descanso, foi marcado por um intenso "vento branco" — neve em pó carregada pelo vento, derrubando a sensação térmica e aumentando o risco de congelamento. A estrutura da barraca domo, compartilhada com amigos, permitiu um descanso eficaz, longe do isolamento das barracas menores.
Foi nesse ambiente que a expedição decidiu não utilizar o dia extra e seguir o cronograma mínimo, planejando o ataque ao cume para o dia 17. Para isso, o dia 16 seria dedicado à ascensão do Acampamento Condores para o último acampamento, o Cólera (cerca de 6000m).
O dia 16 transcorreu com tempo bom e sem vento. A subida até o Cólera foi tranquila e consciente, incluindo uma parada no Acampamento Berlim. Este local, antigo ponto de partida para o cume e onde acampei em 2002, em minha primeira vez no Aconcágua, despertou nostalgia.
A Multidão no Cólera e a Noite Curta (16 para 17 de Janeiro)

O Acampamento Cólera encheu-se de expedições no dia 16, pois desde o dia 9 de janeiro, quando houve forte nevasca e risco de avalanche, poucas tentativas de cume foram feitas. A previsão de tempo razoável para o dia 17 levou a uma grande concentração de alpinistas.
Apesar da superlotação, a expedição contava com boa estrutura e acesso a uma barraca domo para cozinhar. A 6000m, a perda de apetite e a dificuldade para dormir são comuns. Após uma refeição simples, todos foram dormir cedo, por volta das 20h. No entanto, o descanso foi breve. Às 3h da manhã, o guia foi acordado pelo parceiro de barraca, o japonês Sada. Após um café rápido, a partida ocorreu às 4h30 da madrugada, sob a escuridão.
A Ascensão e os Desafios (17 de Janeiro)
A caminhada começou com crampons e dividindo a trilha com inúmeras outras expedições. O ritmo foi inicialmente travado por um grupo lento, liderado por um nepalês. Decidiu-se fazer uma parada estratégica mais longa em Piedras Blancas (local comum de descanso), para dar distância aos grupos maiores e poder caminhar no próprio ritmo.

Essa tática funcionou. Após o nascer do sol, ao passar pelo Portezuelo del Viento, a expedição conseguiu manter um ritmo mais puxado na famigerada e longa Travessia, um trecho na sombra e muito exposto ao vento oeste.
O grupo lento foi reencontrado ao final da Travessia, o que forçou o grupo a seguir em "passo de lesma" até a Cueva, onde se inicia a Canaleta, o trecho mais difícil. Na Cueva, um momento para aquecer, hidratar, comer e deixar equipamento menos essencial, já sob a luz direta do sol.
Infelizmente, o grupo lento permaneceu à frente no início da Canaleta, forçando o ritmo lento novamente, até que eles pararam para descansar. Finalmente, a expedição pôde seguir em seu próprio ritmo, que, acima dos 6800m, já era igual.
O Cume e a Satisfação
Passo a passo, o grupo alcançou o Filo del Guanaco, ponto de onde se vê a face sul do Aconcágua. Apesar do cansaço, da falta de ar e da exaustão após a longa exposição, os alpinistas seguiram. Aos 6962m, o topo das Américas foi alcançado.
O cume estava lotado, em grande parte devido a uma expedição militar conjunta da Argentina e do Chile (cerca de 50 pessoas), somada a todos que esperavam uma janela de tempo. Apesar do vento ter soprado mais forte que o previsto, a maioria das pessoas que saíram naquela madrugada atingiu o cume.

Para mim, foi a quinta vez no cume e a segunda expedição consecutiva com 100% de sucesso entre seus clientes.
O Regresso e o Luto
O descenso começou imediatamente. A expedição chegou de volta ao Acampamento Cólera por volta das 18h, após cerca de 13h30 a 14h de caminhada.
No dia seguinte, o grupo desceu para Plaza de Mulas. Após o merecido banho e o acesso à internet para divulgar o feito, o próximo desafio foi a longa caminhada de quase 30 km no dia seguinte, de Plaza de Mulas até a entrada do parque, para a volta a Mendoza.
Em Mendoza, a satisfação foi ofuscada pela triste notícia da morte de um alpinista francês na tentativa de cume. O relato termina com a reflexão de que, embora acessível a quem se dedica, o Aconcágua não é uma aventura sem riscos, mas sim um desafio que marca a vida de quem o enfrenta.
