
Nossa jornada teve início com a chegada ao acampamento Confluência, a 3.400 metros de altitude, onde passamos a primeira noite na montanha em nossas barracas, desfrutando de uma tranquilidade revigorante. Pela manhã, a excelente estrutura fornecida pela Grajales nos permitiu tomar um café da manhã completo e nutritivo, essencial para a jornada que se seguiria. Em seguida, partimos para uma caminhada de aclimatação rumo ao Mirador da imponente Face Sul do Aconcágua. Este trecho, com cerca de 8 quilômetros de distância, subia pelo Vale do Rio Horcones Inferior, e seu propósito não era apenas contemplar a paisagem, mas sim preparar nossos corpos para as altitudes mais elevadas que viriam.
O trekking em si foi relativamente tranquilo, apesar de sua extensão. O caminho revelou-se um verdadeiro laboratório de Ciências Naturais, exibindo fascinantes estruturas geológicas como falhas e dobras. A presença de alguns fósseis atesta a história de milhares de anos da região, lembrando-nos que muitas daquelas rochas já foram, um dia, o fundo do mar antes da formação majestosa da Cordilheira dos Andes. Chegamos ao mirador revigorados e sem sinais de cansaço. A Face Sul do Aconcágua, a maior parede dos Andes com impressionantes 3.000 metros de altura, dominava o horizonte. Sua visão nos trouxe à memória as histórias de escaladas épicas e tragédias que ali se desenrolaram, como a ocorrida com os alpinistas brasileiros Mozart Catão, Othon Leonardos e Alexandre Oliveira em 1998, um evento que, por si só, mereceria um relato mais aprofundado.

Apesar da beleza da paisagem, a previsão de uma forte chuva pairava sobre nós. No retorno, observamos as nuvens fechando o horizonte, e logo os primeiros flocos de neve começaram a cair. Ao chegarmos ao acampamento, a chuva se intensificou, mas sabíamos que nas cotas mais altas, a precipitação já se manifestava como uma nevasca intensa. Após o jantar, a queda de temperatura transformou a paisagem em Confluência, que amanheceu coberta de neve. Esta foi a primeira vez que presenciei neve em uma altitude tão baixa e nesta época do ano nas nove ocasiões em que estive no Aconcágua.
O dia seguinte, felizmente, estava reservado para descanso. A nevasca da noite anterior e o subsequente derretimento da neve provocaram diversas enxurradas que interromperam a trilha, impossibilitando a movimentação de mulas e pessoas. Para nós, foi um alívio que esse imprevisto tenha ocorrido em um dia de folga, permitindo-nos apreciar a rara paisagem esbranquiçada durante o verão.Após três noites em Confluência, chegou finalmente o dia de mover o acampamento em direção à Base do Aconcágua, o Acampamento Plaza de Mulas, situado a 4.300 metros de altitude. Tratava-se de uma pernada longa, com cerca de 20 km de distância e um ganho vertical de aproximadamente 1.000 metros. O vale que dá acesso a Plaza de Mulas é conhecido como Playa Ancha, um local que, apesar do nome, não tem nada de praia é quase desértico, repleto de rochas soltas e um rio anastomosado que exige diversas travessias. O percurso demandava primeiramente cruzar o Rio Horcones Inferior, em um trecho que alterna descidas e subidas acentuadas. Graças à neve recente, a poeira estava controlada, e o ar frio, dominado por uma massa polar que sucedeu à frente fria, proporcionou uma ótima condição para caminhar.
Bem aclimatados e descansados, a caminhada transcorreu sem maiores problemas, mantendo um ritmo constante com paradas estratégicas para hidratação e alimentação. Paramos para almoçar na Piedra Ibañez, um local que me despertou uma forte nostalgia. Há exatos 24 anos, em minha primeira visita ao Aconcágua, tive que pernoitar ali, exausto demais para seguir. Em 2002, fiz a escalada sem o auxílio de mulas, carregando mochilas com mais de 40 quilos, o que transformou o caminho entre Confluência e Plaza de Mulas em uma memória de grande sofrimento. Desta vez, a experiência foi totalmente diferente: uma caminhada prazerosa, cheia de conversas e distração.
Caminhando e conversando com Maurício, o alemão, nem percebemos quando vencemos o trecho mais inclinado e desafiador da aproximação, a chamada Cuesta Brava. Distraídos, finalmente alcançamos Plaza de Mulas, onde realizamos nosso registro junto aos guardaparques e nos dirigimos ao nosso confortável acampamento para o merecido descanso após oito horas de marcha. Plaza de Mulas ainda mantinha alguns trechos de neve que resistiam ao sol. Dormimos sob uma noite tranquila e intensamente estrelada, recuperando as energias.

O dia 12 de janeiro foi dedicado ao descanso, o que permitiu a Tommy e Gerardo a checagem da previsão do tempo e a definição dos próximos passos. A previsão indicava uma janela de bom tempo por aproximadamente uma semana, após a qual os ventos se tornariam mais intensos, dificultando o avanço em direção ao cume. A estratégia foi, então, alterada. Decidimos realizar um porteio no dia seguinte, carregando parte de nossa bagagem essencial para o primeiro acampamento de altitude, o Acampamento Canadá, a 5.000 metros. Deixaríamos o equipamento depositado e retornaríamos à base para um descanso completo antes de nos movermos em definitivo para altitudes superiores.
A definição dos planos consumiu o restante do dia de descanso. Com o céu azul e sem nuvens, o calor em Plaza de Mulas (4.300m) tornou-se intenso. A neve remanescente derreteu rapidamente, e as montanhas vizinhas, como o Cerro Bonete (que decidimos não escalar para focar exclusivamente no Aconcágua e na aclimatação), logo voltaram à sua coloração marrom original.
No dia 11 de janeiro, conforme planejado, carregamos nossas mochilas com os equipamentos de cume e outros itens não necessários na base e iniciamos a subida em direção ao Acampamento Canadá. Este trecho é caracterizado por uma inclinação constante, que vencemos através de zigue-zagues pela encosta. Após cerca de duas horas, paramos para almoçar na Piedras Conway, um local com rochas vulcânicas batizado em homenagem a William Martin Conway. Este explorador inglês, que tentou o cume do Aconcágua em 1898, foi o segundo a fazê-lo e era um montanhista e professor universitário, o que me inspirou a batizar um antigo Land Rover com seu nome. Uma das histórias mais marcantes de Conway é o relato de ter encontrado uma "corda indígena" no Ilimani, montanha na qual ele foi o primeiro ocidental a atingir o cume, embora se suspeite que os Incas já o haviam feito antes. A presença Inca no Aconcágua é corroborada pela descoberta de uma múmia Inca no Cerro Pirâmide, um subcume do Aconcágua, em 1986.
Continuamos a caminhada e, finalmente, alcançamos nosso objetivo: o Acampamento Canadá, a 5.000 metros, juntamente com outros franceses que faziam a aclimatação. Deixamos nossos equipamentos, comemos, admiramos a paisagem e iniciamos a descida de volta ao acampamento base. Mais uma etapa crucial de nossa expedição foi concluída, e a melhoria na previsão do tempo nos deu um ânimo renovado. Hoje, 12 de janeiro, é um dia de descanso. Além de repor as energias, aproveitamos para revisar nossos equipamentos e planejar os próximos passos na montanha mais alta dos Andes. Retornaremos à parte alta amanhã, e a próxima vez que desceremos será após a tentativa de cume, que esperamos realizar em cerca de cinco a seis dias.
