
O calor anda beirando o insuportável em Belo Horizonte, onde eu moro, e foi daqui que decidi fugir e buscar algumas horas em contato com a natureza. Arrumei o carro e fui ali pertinho, naquele espírito bem mineiro e desembarquei em Raposos (MG), que fica apenas 40 minutos do centro da capital mineira.
A rotina acelerada rapidamente dá lugar ao silêncio das montanhas e ao som de águas cristalinas Um passeio leve, perto de casa, mas capaz de renovar completamente as energias. Isso eu garanto.
Meu destino foi o Parque Nacional da Serra do Gandarela. Criado em 13 de outubro de 2014, ele é um dos parques nacionais mais novos do país e preserva um santuário ecológico valioso no coração do Quadrilátero Ferrífero e na porção sul da Cadeia do Espinhaço.

É nesse cenário e diga-se, quase o emprego perfeito, que atua Tauan Fróes, economista de 34 anos formado pela PUC Minas, nascido e criado em Raposos e fundador da iniciativa Mar de Morro - Ecoturismo Consciente. Ele, há mais de seis anos conduz visitantes pelas trilhas do parque.
Mais do que impulsionar a economia das pequenas cidades vizinhas ao atrair viajantes e movimentar serviços locais, as expedições pelo Gandarela cumprem um papel educativo importantíssimo. Elas aproximam o público da realidade das nascentes e evidenciam a necessidade urgente de proteger esse patrimônio natural. :
Um gigante de contrastes e águas puras
Na escola aprendi um apelido carinhoso do parque da Gandarela: “A Caixa D’Água de Belo Horizonte”, já que grande parte do abastecimento da capital e de municípios vizinhos depende das nascentes dessa região.
Mas como sabemos, nem tudo são flores e mesmo um lugar que abriga esse patrimônio hídrico, o parque enfrenta discussões intensas sobre a demarcação de sua área e convive lado a lado com a atividade mineradora de ferro. E o que me chamou muita atenção foram os caminhos que passamos, já que as próprias estradas que facilitaram nosso acesso, foram abertas e sinalizadas pelas mineradoras.
A paisagem é marcada por encontros e transições fascinantes:
- Mosaico de Biomas : O parque fica bem na transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado. Numa mesma caminhada, você passa por campos rupestres com árvores retorcidas e canelas-de-ema e, poucos passos depois, entra em matas úmidas com imponentes samambaias-açu.
- Marcas do Tempo : Em alguns trechos, avistam-se florestas de eucaliptos plantadas no passado. A expectativa é que, com o tempo, a vegetação nativa recupere gradualmente seu espaço.
- Refúgio da Fauna: Para os adeptos do turismo de observação, o parque é um prato cheio. Já foram registradas 311 espécies de aves na unidade (10 delas ameaçadas de extinção).
- Parado no Tempo: A poucos quilômetros de uma metrópole verticalizada, a atmosfera rural da região faz a gente se desligar do relógio e esquecer a correria do dia a dia.
Não é bem assim na vida real
Oficialmente, os dados de controle de 2019 apontavam pouco menos de 2 mil visitantes no ano , um número bem abaixo da realidade e que passa por processos de retificação. Por não ter uma portaria única nem cobrança de ingresso, o movimento real é muito maior. Atravessando os acessos por Raposos e Rio Acima, moradores locais e turistas lotam em feriados e fins de semana atrativos populares como o Circuito das Banquetas e as cachoeiras de Santo Antônio, do Índio e do Viana.
Trilhas, cachoeiras e ecoturismo consciente
Voltando a nossa jornada, andamos cerca de 6 km (ida e volta) que passou por dois pontos imperdíveis:
- Cachoeira Maquiné: Uma queda alta, vistosa e impactante. O acesso de carro deixa o visitante bem próximo, exigindo apenas uma caminhada curta de 50 a 100 metros até o poço.
- Poço do Tonhão: A caminhada até ele é plana, de 2 a 3 km, cruzando o rio no trecho final. Bastante ensolarado, o local é o ponto perfeito para relaxar e dar um mergulho renovador.
A região de Raposos ainda reserva outras surpresas, como a Cachoeira do Sol, o deslumbrante Poço Azul e belos mirantes no topo da serra.
É um passeio rápido, super possível fazer um bate-volta de Belo Horizonte e que esconde as maravilhas dos morros mineiros. Vale muito a pena e vale voltar várias vezes para conhecer essa imensidão de riquezas do Gandarela.
Dicas para a sua visita
O Parque Nacional da Serra do Gandarela não possui infraestrutura receptiva (como lanchonetes ou centros de visitantes), por isso o planejamento é indispensável:
- Quando ir: O parque pode ser visitado o ano todo. O verão garante cachoeiras cheias, mas exige atenção com chuvas e trombas d'água. O inverno oferece dias secos e temperaturas amenas.
- O que levar: Mochila com água suficiente, lanches leves, protetor solar, repelente, capa de chuva, boné e um saco para recolher rigorosamente todo o seu lixo.
- Observação de Aves: Se quiser avistar a avifauna, chegue bem cedo, traga binóculos, caminhe em silêncio e tenha paciência.
- Regras de Conduta: Dirija a no máximo 30 km/h nas estradas internas; não consuma bebidas alcoólicas nas trilhas; não use caixas de som; e nunca faça fogo. Lembre-se também de que não é permitido acampar dentro dos limites do parque e nem levar animais domésticos.