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8º Festival Cururu Siriri de Cuiabá

31/08 - 17:38

Manifestações cuiabanas em busca de reconhecimento

Guss de Lucca

A história da capital do estado de Mato Grosso é curiosa. Logo após sua fundação, em 1719, a cidade permaneceu isolada por aproximados 200 anos do resto do Brasil. Nesse período sua população desenvolveu tradições singulares que, mesmo com o advento de estradas, aeroporto e até da internet, continuam isoladas das demais regiões do País.

VEJA FOTOSHOW COM IMAGENS DO FESTIVAL CURURU SIRIRI

O principal exemplo dessa triste verdade é a cultura do cururu e do siriri, duas manifestações culturais típicas da baixada cuiabana que ainda não alcançaram seu devido reconhecimento na galeria de tradições do folclore nacional.
 
Lutando para reverter esse quadro os cuiabanos criaram o Festival Cururu Siriri de Cuiabá, que chegou a sua oitava edição no último final de semana com um público estimado de 60 mil pessoas - público esse quase que todo composto exclusivamente pelos próprios cuiabanos.
 
Cururu, siriri e a viola-de-cocho
 
Aos ouvidos de quem desconhece a cultura mato-grossense, cururu e siriri soam apenas como palavras curiosas, mas ainda sem significado. O que poucos sabem é que tanto um quanto o outro surgiram - como a maioria das manifestações culturais brasileiras - da miscigenação das culturas indígena, africana e europeia.

Do índio vieram os aspectos ritualísticos e o estilo de dançar marcando o tempo; do africano vieram a batida, o ritmo e muitas das cantorias; e do europeu veio a viola-de-cocho.

Pintura ilustrando a viola-de-cocho

O cururu aparece quando Cuiabá é "abandonada" após a febre do ouro de aluvião, no momento em que o encanto local pela viola obrigou os cuiabanos a produzir um instrumento semelhante, mas com características locais. Dessa necessidade apareceu a viola-de-cocho.
 
"O nome surgiu por causa das ferramentas com as quais o instrumento é feito, o enchó goiva e o formão goiva, ambas utilizadas na construção dos cochos onde cavalos e bovinos se alimentam", explicou o artesão cuiabano Alcides Ribeiro dos Santos.
 
De acordo com ele, uma das características mais marcantes da viola-de-cocho é a sua fabricação rústica, que tem como base madeiras da região como o sarã, tambutiu e cedro rosa - além da raiz de figueira, utilizada apenas no final do processo de construção.


O artesão Alcides demonstra a produção da viola
 

"Enquanto um violão possui sete partes, a viola-de-cocho só tem duas", comparou Alcides. "Ela é toda talhada no facão, o que faz com que nenhum instrumento seja igual ao outro. Além disso, cada artesão faz questão de montar a viola-de-cocho com suas próprias caraterísticas."
 
Foi com este peculiar instrumento que surgiu o cururu, que consiste em um círculo de cururueiros em fila única, onde cada um compõe sua toada e é sucedido pelo músico da sua esquerda, no sentido do braço das violas.
 
Originalmente ligadas à religião católica, que promovia cantorias em louvor aos santos, essas rodas de cururueiros acabaram ganhando os quintais da região pantaneira do Mato Grosso, onde os homens - e apenas os homens - acabaram falando de seu dia a dia.

Cururueiro tocando viola-de-cocho em Cuiabá

"As cantorias falavam de namoros, conquistas cotidianas... coisas que as mulheres não deveriam ouvir. Por isso o cururu é exclusivamente masculino", contou o Secretário da Cultura de Cuiabá, Mario Olimpio.

Por conta dessa exclusão, as mulheres - às vezes acompanhadas de suas crianças - passaram a dançar ao som dos homens, que se reuniam em rodas nos fundos das casas. Daí nasce o siriri, uma dança folclórica que caiu no gosto da população local e se tornou símbolo da cultura cuiabana.
 
Aceitação e crescimento
 
Assim como ocorreu com o samba, o cururu e o siriri surgiram como expressões populares e não foram aceitas pelas elites, que passaram a estigmatizar aqueles que participavam das celebrações.

"Houve um tempo em que dançar o siriri era motivo de sarro. E houve um recuo das lideranças culturais neste momento. Porém, nos últimos anos o cururu e o siriri vêm ganhando força", contou o prefeito de Cuiabá, Wilson Santos.


O Prefeito Wilson Santos com sua esposa e o Secretário de Cultura

Fruto da administração anterior, o festival foi mantido pela prefeitura e tem crescido a cada ano. A procura pelos grupos foi tanta que foram organizadas prévias em regiões diferentes do Estado para selecionar quais seriam os 18 grupos participantes.

Porém, o público que acompanha o festival ainda é composto majoritariamente por cuiabanos, quadro que o governo quer reverter nas próximas edições do evento.

"O Festival de Parintins é uma referência, uma inspiração", confessou o prefeito, que entre outras mudanças pretende trazer outras manifestações culturais para as próximas edições, como o chamamé e a poca.

Nesse ponto a escolha da cidade para uma das sedes da Copa do Mundo de 2014 veio em boa hora, pois com os investimentos anunciados será possível construir uma arena específica para esse tipo de manifestação cultural, e com capacidade e infraestrutura maiores do que o espaço atual.

Grupo mirim de siriri se apresenta durante o festival

Mas antes de atrair curiosos de todos os cantos do País - e até do exterior, os cuiabanos precisam cuidar para que haja uma continuidade para o cururu, cujos praticantes são em sua maioria senhores.

"Os meninos são os mais importantes do evento", destacou o prefeito ao citar os grupos mirins, que neste ano foram quatro, e ao revelar que há uma política educacional voltada para a perpetuação da cultura local, abordada no contra turno das escolas que já possuem período integral.


O cururueiro Fermino pouco antes de entrar na arena

Pouco antes de entrar na arena com o grupo Tangaiá, o cururueiro Fermino José da Silva disse que a Casa de Cultura possui professores de viola-de-cocho, e que qualquer cidade que queira pode pedir que um mestre seja mandado para lá.

"Aprender a tocar é fácil, com apenas três horas você já sai tocando alguma coisa. Mas precisa ter paciência", explicou o músico veterano, deixando transparecer que basta vontade da juventude para que tanto cururu quanto siriri manterem-se fortes em Cuiabá.

O futuro do evento

Enquanto a prefeitura demonstra preocupação em dar seguimento a tradição, disseminando o cururu e o siriri nas escolas, estudiosos e envolvidos no festival revelam como essa cultura tem sido alterada a cada festival.

"A cada ano o ritmo original, que é de 2x2, tem sido tocado mais rápido, em 2x4", contou o professor Moisés Mendes Martins Jr, estudioso da cultura cuiabana e Secretário Adjunto da Cultura da cidade.


O Professor Moisés compara o siriri de hoje e ontem

De acordo com ele, as roupas do siriri puro são mais simples, "mais pé no chão", enquanto as atuais são cada vez mais estilizadas, lembrando - ao lado do ocorre com o ritmo - o que aconteceu no carnaval.

Mas se por um lado essas mudanças desagradam os mais antigos, há quem enxergue nas inovações a possibilidade de crescimento do festival e da cultura do cururu e siriri. Uma dessas é a Domingas Leonor da Silva, a "Dona Domingas", presidente da Federação das Associações dos Grupos de Cururu e Siriri.

Integrante do grupo cuiabano Flor Ribeirinha, que existe há 17 anos, Domingas disse que aos poucos sentiu a necessidade de inovar nas apresentações de siriri. "Antes era uma coisa de fundo de quintal. E as mudanças que nós promovemos, como a contratação de um coreógrafo, foram responsáveis pelo crescimento da festa.

"Montamos o festival com jurados e categorias... e fomos campeões nas primeiras edições. Mas a competição gerou brigas e por isso não existe mais. Hoje os grupos concorrem apenas para se apresentar em uma das três noites do evento", explicou.

"Dona Domingas" defende a volta da competição

Mas ao contrário do que pode parecer, "Dona Domingas" é a favor do retorno da competição entre os grupos de siriri, pois acredita que isso estimularia os envolvidos a se esforçarem mais e mostrar mais qualidade.

Como exemplo dessa busca por melhorias vale citar o valor do espetáculo promovido pelo Flor Ribeirinha, que conta com 48 integrantes e de acordo com ela foi orçado em R$ 25 mil - algo bem distante do estilo "mais pé no chão" citado pelo professor Moisés. 

O grande desafio dos envolvidos no evento é encontrar uma medida que não deixe que inovações descaracterizem as manifestações culturais do cururu e do siriri.

Um passeio pelo festival

O Festival Cururu Siriri de Cuiabá é composto por três espaços: a arena onde os grupos se apresentam, a feira de artesanato local e o festival gastronômico.

A maior parte do público se concentra nas arquibancadas, onde assiste aos espetáculos de dança e música promovidos pelos grupos de siriri. Essa é a parte mais divertida do evento, pois a plateia conhece as músicas e canta junto com os grupos.

Participantes do evento dançam siriri na arena

Aos olhos de um paulistano, as danças dos casais participantes remetem a uma quadrilha, mas com diferenças de passos, ritmos e vestes - as roupas, ao contrário do que ocorre nas quermesses paulistas, levam as cores dos grupos e combinam de acordo com o gênero do participante.

Em meio a essa festa de cores e sons, os visitantes podem apreciar a culinária local no Festival Gastronômico de Cuiabá, onde os pratos principais são sem dúvida a Maria Izabel, um tipo de arroz com carne seca, alho e cebola, e a ventrecha de pacu, que vem frita e acompanhada da tradicional farofa de banana.


A cozinheira Claudia dos Anjos com a ventrecha de pacu e a Maria Izabel

A parte mais fraca do evento é a Feira de Artesanato, que conta com pouco mais de 30 mesas onde ceramistas e doceiras apresentam um pouco de seus trabalhos - em meio a bijuterias, bonecas e roupas típicas.

Por que conhecer?

Se você acha que eventos como o Festival de Partintins e o carnaval de Salvador sofreram descaracterizações por conta de seu crescimento, esse é o momento ideal para conhecer o Festival Cururu Siriri de Cuiabá.

Apesar de não ser o evento de oito anos atrás, o festival ainda não cresceu o suficiente, o que permite que o visitante conheça a essência da cultura cuiabana.

A entrada ainda é gratuita, o que de acordo com o Secretário de Cultura pode mudar nas edições seguintes, e os cururueiros veteranos seguem na ativa com as rodas mais tradicionais da cidade.

Em suma, é a chance única de acompanhar uma festa folclórica que com certeza deve crescer nos próximos anos.

Serviço:

Festival Cururu Siriri de Cuiabá
Praça Cururu Siriri
Bairro Porto - Cuiabá
site oficial: www.festivalcururusiriri.com.br

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