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02/07 - 11:56

Com o mundo nas costas
Conversamos com gente que andou pelo planeta para dar as melhores dicas para quem quer pegar o próximo avião rumo a um destino incerto.

Ivy Farias

O estudante de Direito Pedro Turqueto, 22 anos, nunca se cansou de olhar as fotos dos amigos que tinham viajado de mochila. ”Achava que seria uma aventura para guardar para sempre, sem contar que era uma forma de conhecer países de forma econômica”, disse. Em 2006 o estudante foi para Europa com dois amigos com um roteiro “totalmente aleatório”. “Sabia que chegaria em Amsterdã e deveria ir embora por Munique, com base nisso acabei selecionando as principais cidades que poderiam ser visitadas de trem para que o roteiro fosse otimizado”.

Pedro, claro, não é o único a por uma mochila nas costas e sair pelo mundo. No Orkut, por exemplo, são mais de 200 comunidades, algumas com mais de 135 mil membros. Se você está pensando em fazer o mesmo, confira as nossas sugestões para que sua viagem tenha mais aventuras que desventuras.

Querer é poder
“A primeira coisa que uma pessoa tem que ter na cabeça é: eu realmente quero fazer isso? Porque uma viagem de mochila é boa, mas tem os seus percalços”, conta Emília Miguel, 38 anos, gerente de produto da agência Experimento. Ela, que orienta centenas de jovens que vão para a Europa ou os Estados Unidos trabalhar e estudar e que acabam pelo mundo com uma mochila, aconselha baseada em experiência própria: em 1992, com apenas 22 anos, ela conheceu o Velho Continente com um amigo coreano. “Digo que os jovens têm que fazer a viagem porque querem, não porque o pai, a mãe, o amigo ou o papagaio acham legal”, afirma.

Imprevistos previstos
A gerente também explica que é importante ter uma “cabeça aberta”, sem preconceitos. “Você vai conhecer gente do mundo inteiro e tem que estar preparado para tudo, porque mochilão é uma caixinha de surpresas”, conta ela, que passou três meses na estrada e mudou os planos diversas vezes. “Conhecia um aqui, outro ali, gente que estava indo para outro canto e ia junto.”

O mesmo aconteceu com o estudante Olavo Bernardes, 23 anos, que fez mochilão pela Austrália em 2001. “Fazia intercâmbio lá e fui com um amigo brasileiro para Gold Coast. Como não tinha nada para fazer, fomos para uma cidade vizinha que estava fervilhando por causa de um festival de jazz”, lembra. O resultado? O estudante e o amigo ficaram uma semana sem tomar banho e dormindo na praça. “Dali fomos para outra cidade, onde pulamos de páraquedas e mergulhamos!” As aventuras de Olavo não pararam por ali: no final do curso, ele foi para Bali e, no avião, conheceu uma australiana. “Namoramos por uma semana”, recorda.

Nem sempre os imprevistos como os que Olavo passou são assim legais. O estudante de Rádio e TV Paulo José Maia, 21 anos, e a psicóloga Renata Sosvianin, 28, fizeram um mochilão pela América Latina e se supreenderam quando chegaram a um “albergue” em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. “Era um prostíbulo com camisinhas na parede, todo sujo”, recorda Paulo. “A única coisa legal era uma TV e estava passando o filme ‘Adeus Lênin!’ quando chegamos”, conta Renata. Os amigos, porém, não deixaram a peteca cair. “Decidimos que iríamos rir o máximo naquele inferno e ver se conseguiríamos dar risada na cara do capeta”, brinca o estudante.

Planejar ou não?
Quando o assunto é planejamento, mochileiro algum entra em um acordo: afinal, é melhor sair de casa com tudo pensado ou deixar ao acaso? “As coisas acontecem do melhor jeito se você estiver pronto para isso”, diz Paulo. “Acho que isso vai de cada um e do tempo que se tem disponível. Eu sempre sugiro deixar um tempo para o imprevisto, quando tudo é planejado, você não se permite aventurar, que é a base deste tipo de turismo”, ressalta Emília Miguel.

Nestas horas, o importante é informação. “Leia os guias, que são sempre atualizados, e estude sobre o lugar, as atrações que você pretende visitar”, conta Rodrigo Collaro, gerente de turismo da Central de Intercâmbio. Conhecimento pode realmente ser um diferencial: esta repórter aqui, mochileira com experiência em 16 países, encontrou as portas da Capela Sistina fechada porque era feriado. Sem querer, viu o Papa, mas teve que deixar Roma sem olhar as obras de Michelangelo. Por isso, sempre se informe sobre os dias e horários de funcionamento dos lugares que pretende visitar.

Procuram-se amigos desesperadamente
“Costumo aconselhar os aventureiros a procurar amigos dos amigos pois eles sempre tem a melhor dica do lugar”, fala o gerente Rodrigo Collaro. Nestas horas, vale apelar para o MSN, Orkut e todas as facilidades da Internet. O agropecuarista Luiz Saccarelli, 26 anos, não se arrependeu nem um pouco: ele viajou a Europa por duas vezes, uma em 2005 e outra em 2007, e usou um artifício muito difundido em outros países: o Couch Surfing, ou Surfe de Sofá, numa tradução literal, site que oferece hospedagem de graça. “Me cadastrei e recomendo porque você conhece pessoas dispostas a trocar experiências culturais”, conta. Na Noruega, Luiz ficou na casa de um senhor que gostava de ouvir - e contar - as histórias dos jovens mochileiros. “Tudo é de graça, além de ser super seguro.”

Já o publicitário peruano José Crisanto Vargas, 28 anos, se cadastrou no Hospitality Club  e conheceu a Itália inteira ficando na casa de pessoas que conheceu no site. “Como não tinha dinheiro, este foi o melhor jeito que encontrei para viajar, me divertir e não gastar muito.”

Interagir
Você gosta de cantar? Faz mímica bem? Toca violão? Então preste atenção: o Ministério dos Mochileiros adverte que ter um dom artistíco pode te ajudar na estrada, como aconteceu com a diretora de cinema Juliana Vicente, 23 anos. “Levei meu violão para Cuba e tocava músicas brasileiras nas praças. Fazia amigos e ainda ganhava estadia de graça”, lembra.

Um é pouco, dois é bom e três é melhor?
Mochilão pode ser sinônimo de viajar sozinho ou acompanhado. “Quando se está só, você não conhece apenas os lugares e sim você mesmo”, explica a psicóloga Renata Sosvianin, que fez 20 países, alguns sozinha, outros acompanhada de amigos. A decisão de viajar ou não com companhia precisa ser bem pensada. Se for com amigos, “vá acompanhada de pessoas com quem você já viajou antes, é sempre bom ter intimidade suficiente para não brigar no meio da viagem. E vá com pouca gente, porque quanto mais gente for, mais difícil fica de encontrar albergue”, diz Pedro Turqueto. O estudante Paulo José aconselha que a turma seja ímpar. “O ideal é viajar em três pessoas, porque sempre vai ter alguém para decidir entre um e outro programa”.

O importante é não deixar de viajar porque não tem amigos. A advogada Camila Pelizaro, 28 anos, quase deixou de conhecer a Califórnia porque não tinha com quem ir. “Mas fiz muitos amigos nos albergues e não fiquei sozinha dia nenhum”, fala.

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