Hiva Oa - Ilhas Marquesas

03/07 - 12:28

A população de Hiva Ao já chegou aos 130 mil; hoje pouco mais de 1.900 pessoas habitam os vales profundos e meia dúzia de vilarejos espalhados pela ilha.

Jon Bowermaster - NYT

- Trilhas remotas em Nuka Hiva

Casas de madeira pintada pontilham a paisagem tão primitiva quanto era 1.200 anos atrás. Uma praia longa, em forma de lua-crescente, fronteia a maior cidade da ilha, Atuona, que não mudou quase nada desde os tempos em que Gaugin construi alí sua “Casa do Prazer”.

Em uma manhã quente e seca, caminhei por toda a orla de Atuona e segui por mais quatro milhas, até Taaoa, onde um templo relativamente grande foi restaurado. Edificações de aproximadamente três metros e meio, que serviram como centros comunitários para os maoris, além de totens em basalto, ainda se escondem no meio da floresta abundante. Houve uma época em que 12 mil pessoas habitavam o vale, o que justifica a presença do templo bastante elaborado e dos locais de sacrifício. Naquele dia ouvia-se o cacarejar de galos e o som de britadeiras de um grupo de trabalhadores na estrada. Os rituais de sacrifício humano foram substituídos pelo culto de diferentes religiões, representados por igrejas católicas, protestantes, mórmons e testemunhas de Jeová.

Se há algo que fez perdurar a reputação da Polinésia Francesa como paraíso foi a obra de Gauguin, que se mudou para Hiva Ao em 1901, depois de já ter passado por outras ilhas polinésias. Repletas de graça e mistério, pareciam mais um paraíso perdido que um lugar imaginável, com suas mulheres lânguidas sorrindo à distância, cavalos pastando em bosques de baunilha e cestas repletas de bananas e frutas-pão. Uma pequena caminhada partindo da praia ou do templo de pedras em direção ao coração de Atuona me leva à morada de um dos caçadores de paraísos mais notórios da história.

A casa de dois andares foi construída de bambu entrelaçado. O batente da porta é entalhado com figuras eróticas e as inscrições “Mantenha o Mistério” e “Mantenha a Paixão”. O nome da casa está gravado sobre sua entrada: lê-se, em francês, “Maison de Jouir”, ou “Casa do Prazer”.

Doze degraus largos levam ao segundo pavimento, um único cômodo espaçoso que serviu de moradia e ateliê ao pintor francês Paul Gauguin (conhecido como Koke pelos habitantes locais). Uma janela grande dá de frente para um poço; o pintor tinha sempre à mão uma vara de pescar de bambu para içar copos de água fresca do poço, que adicionava às doses de absinto. Fotos pornográficas que ilustravam as paredes já não estão mais ali, tampouco sua coleção de bengalas com entalhes fálicos. Foi ali que o pós-impressionista francês ofereceu grandes festas, regadas a vinhos e bombons comprados de cargueiros de passagem pela ilha.

Paul Gauguin foi enterrado nas imediações de sua casa, em um campo de frente para o oceano. O cenário foi retratado em uma de suas últimas pinturas. Sua lápide traz uma cópia de uma se suas esculturas, intitulada Oviri, ou "Selvagem". Ele não era uma figura popular na ilha quando morreu; na verdade estava na eminência de passar três meses na cadeia por ter difamado um policial.

Hiva Ao foi o último suspiro de Gauguin, e as coisas não deram muito certo para ele ali. Nunca fez amigos facilmente e durante os anos que residiu na ilha zombava abertamente os missionários católicos da longínqua colônia francesa governada pela igreja. Ele morreu em sua Casa do Prazer com o coração debilitado, a visão deficiente, leproso, sifilítico e viciado em morfina, pouco antes de se tornar um dos pintores mais conhecidos de todos os tempos. Para seu maior desapontamento, a fama veio, sobretudo, após sua morte.

Leia mais sobre: Taiti - Polinésia - ilhas.

Você tem mais informações? Envie para Minha Notícia, o site de jornalismo colaborativo do iG




publicidade