O percurso até o topo é cansativo, mas paisagem recompensa o esforço

Monte Roraima tem 2,8 mil metros de altitude e uma área de 90 quilômetros quadrados
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Monte Roraima tem 2,8 mil metros de altitude e uma área de 90 quilômetros quadrados
O vento dificulta o equilíbrio no cume, diante da vista incrível. A temperatura fica em torno dos 10 graus, mas pode chegar a zero. O som de batidas nas pedras indica que o solo é oco. Um "queijo suíço", como define o guia Marcelo Perez. A sensação de andar sobre cavernas domina os integrantes do grupo, a essa altura, promovidos de caminhantes a trekkers, depois de dias pelas trilhas e acampamentos que levam ao alto do Monte Roraima.

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A elevação em formato de mesa (tepui, na língua indígena local) tem 2,8 mil metros de altitude e uma área de 90 quilômetros quadrados que se estendem pelos territórios do Brasil, Guiana e Venezuela. Os nativos afirmam que os deuses com assentos nessa távola retangular decidem o destino de todos os seres e da natureza. Em Santa Elena de Uairén, na Venezuela, começa a aventura de seis dias. Carros 4x4 da operadora conduzem o grupo de 16 turistas até Paratepuy, distante 100 quilômetros, por uma estrada de chão e buracos.

Aventureiros levam três dias para chegar ao topo do Monte Roraima
Evelyn Araripe
Aventureiros levam três dias para chegar ao topo do Monte Roraima
PÉ NA TRILHA

Índios da comunidade pémon, da etnia taurepang, que moram em casas de madeira e plantam mandioca, se juntam ao grupo como carregadores de mochilas, a um custo de R$ 50 por dia. Os primeiros 14 quilômetros de caminhada até o acampamento do Rio Ték - Rio de Pedra, no dialeto nativo - seguem por trilhas do Parque Nacional Canaima.

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Majestosas, duas montanhas surgem: Kukenan (pai dos ventos) e Roroi-Imã, ou Roraima (gigante verde-azulado). Um arco-íris se acomodou entre elas. Em contraste com os passos lentos dos turistas, os pémons caminham ligeiros, a carga acomodada com a ajuda de folhas de buriti. Chegam antes, montam barracas e preparam o jantar à base de macarrão. Ou, como se diz ali, "pasta roraimeira", seguida de "goiabada roraimeira" e "chá de camomila roraimeiro".

A temperatura baixa à medida que nos aproximamos das montanhas. A trilha de vegetação rasteira é ladeada por uma verde floresta. É lá que moram os pássaros, as borboletas-monarcas e as serpentes (cascavéis, jararacas e corais) que, vez por outra, chegam perto dos visitantes. A distância de 9 quilômetros até o acampamento-base, no dia seguinte, é feita devagar, com tempo para se banhar nas águas geladas do Rio Kukenan.

A majestosa montanha Kukenan marca paisagem de Roraima
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A majestosa montanha Kukenan marca paisagem de Roraima
O acampamento é o mais desafiador: úmido, cercado por poças abastecidas pela garoa incessante e dominado por mosquitos que não perdoam nem a palma das mãos, se estiverem descobertas. Fora a cobertura plástica da "cozinha", não há onde se proteger nem da chuva, nem do sol. O café com "panquecas roraimeiras" e "huevos revueltos rorameiros" afasta o mau humor na manhã seguinte. A proximidade do Monte Roraima se traduz numa espécie de reverência, evidenciada pelo silêncio do grupo.

Começa a subida, a paisagem muda, o frio fica mais intenso. Aparecem as primeiras orquídeas e flores carnívoras, os pássaros ficam mais desinibidos. Pela encosta cheia de pedras, por vezes muito estreita, a caminhada vira trekking, exige esforço. A cascata Paso de Las Lagrimas obriga o grupo se proteger com capas. Mais duas horas e começam a aparecer as rochas escuras rodeadas por pequenos córregos. A sensação é de que ali havia uma floresta, agora petrificada. Um novo mundo, cheio de mistérios, enfeitado por espécies que só existem ali.

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Nas poças d’água ficam os menores sapos do mundo, negros, com tamanho comparável ao de uma unha. Os mosquitos ficaram lá embaixo: aranhas, tarântulas do tamanho da palma da mão, escorpiões, roedores e pequenos quatis formam a população do alto do monte. A chegada fica completa com a acomodação nos "hotéis", como são chamadas as cavernas dentro de paredões que servem de abrigo.

Escolhemos o "hotel" Guácharo, em homenagem ao pássaro marrom homônimo que vive no fundo das grutas. Entre "jacuzzis" naturais, a trilha até o Ponto Triplo, onde se unem os três países, e momentos de contemplação, o guia Marcelo aponta um fosso e anuncia: "Era ali que Adão e Eva se banhavam". Da beirada, o olhar constata que o local bem poderia ser mesmo o mítico Jardim do Éden. A cena, deslumbrante, inclui até cascata caindo nas laterais, enfeitada de bromélias.

SAIBA MAIS

Passagem aérea: o voo São Paulo-Boa Vista-São Paulo custa desde R$ 1.374 na TAM e R$ 1.406 na Gol . Os voos fazem escala

Trekking: o pacote de seis dias, que inclui transporte entre Boa Vista e Santa Elena de Uairén, todas as refeições durante a caminhada, equipamentos e guias, sai por a partir de R$ 1.390, com a Roraima Adventures

Pelos ares: para quem não tem disposição para a longa caminhada, outra possibilidade de visitar o Monte Roraima é num sobrevoo de helicóptero. Com Raul helicópteros custa desde US$ 1.900

Melhor época: o período seco, quando a trilha fica menos escorregadia, vai de outubro a abril. De maio a setembro as cachoeiras estão com maior volume de água

(Por Rosa Costa Santa Elena de Uairén-Venezuela)

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