Ainda sem autorização, navio com 1.422 passageiros vende pacotes e cria polêmica sobre aumento no número de turistas na ilha

Ambientalistas preocupam-se com a vinda do Ocean Dream à ilha
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Ambientalistas preocupam-se com a vinda do Ocean Dream à ilha
Santuário ecológico cercado de regras de preservação, Fernando de Noronha tem sido foco de uma polêmica sobre o aumento do número de turistas. Isto por conta da provável ida do navio Ocean Dream, com capacidade para 1.422 passageiros, à ilha, a partir de outubro. Com a passagem do cruzeiro pelo arquipélago, o número de visitantes pode saltar de 450 pessoas por dia, limite máximo estipulado para passageiros vindos de avião, para até 1.872 indivíduos, caso todos os passageiros do navio venham a desembarcar.

Na temporada de cruzeiros de 2010/2011, o licenciamento ambiental concedido ao navio da CVC Blue de France autorizava o desembarque de 700 passageiros, sendo 350 em passeios de barco e 350 em terra. No entanto, o navio Ocean Dream, o único que poderá atracar em Noronha para a temporada 2011/2012, tem o dobro da quantidade permitida. Ele também permanecerá por três dias na ilha, em vez de dois.

O novo cruzeiro, que faz parte da frota da Pullmantur e é operado pela BCR Cruzeiros, ainda não entrou com pedido de autorização de entrada na Administração de Fernando de Noronha e de licenciamento ambiental na Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (CPRH). Ainda assim, pacotes de viagens já estão sendo vendidos pela operadora CVC, com valores entre R$ 1.442 e R$ 3.177.

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“Não é de interesse da administração de Noronha aumentar o número de visitantes na ilha. Nenhuma autorização para vinda dos cruzeiros foi emitida neste ano. Eles podem até vender, mas autorizarmos é outra coisa”, afirma Alexandre Lopes, coordenador de Meio Ambiente e Turismo da Administração de Fernando de Noronha.

Liminar da Justiça Federal

No último mês de junho, a Justiça Federal determinou que a CPRH deixe de licenciar cruzeiros de navios transatlânticos em Fernando de Noronha, já que o descarte de resíduos sólidos pelos navios poderia afetar a fauna e a flora marinha. Para a concessão seria necessária a realização de uma análise dos impactos ambientais, além da autorização e supervisão do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“Não pretendemos autorizar o aumento no número de passageiros permitidos nos cruzeiros sem que haja um estudo prévio. O certo seria que a empresa já estivesse com o licenciamento antes do início das vendas”, afirma Ricardo Araújo, Chefe do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, unidade de conservação gerida pelo ICMBio.

Novo cruzeiro em Fernando de Noronha tem o dobro da capacidade de passageiros
Reprodução
Novo cruzeiro em Fernando de Noronha tem o dobro da capacidade de passageiros
Cruzeiro garantido

A posição dos órgãos reguladores não deve ser um impedimento para a realização dos cruzeiros, como afirma Milton Sanches, presidente da BCR e diretor de operações da Pullmantur. “A Pullmantur acabou de firmar um contrato com a BCR Cruzeiros, que opera navios em Fernando de Noronha desde 90. Uma vez o ICMBio tentou impedir a realização de um cruzeiro, e a BCR entrou com um mandado de segurança. Como nós vamos seguir as restrições e condicionantes vigentes, acredito que não teremos problemas.”

Segundo Sanches, o Ocean Dream irá manter o limite de desembarcar 350 pessoas para fazer passeios em terra e outras 350 pessoas para passeios de barco, apesar da capacidade maior do navio. “Como ficaremos um dia a mais, dará tempo para todos se revezarem e fazerem os passeios, enquanto aguardam podem aproveitar do sistema all-inclusive do navio”, diz o presidente.

Impactos ambientais

Ambientalistas, no entanto, preocupam-se com a vinda de turistas em massa para Fernando de Noronha. “Os impactos ambientais são proporcionais ao tamanho do cruzeiro e irreversíveis. Depois da vinda de um navio deste tamanho, a história só não se repetirá se for inviável economicamente”, afirma o doutor em Oceanografia, José Martins da Silva Júnior, Coordenador do Projeto Golfinho Rotador e Responsável pela Base Avançada do Centro Mamíferosa Aquáticos / ICMBio em Fernando de Noronha".

Segundo o oceanógrafo, os turistas de cruzeiros, por terem apenas um ou dois dias para conhecer a ilha, provocam uma sobrecarga instantânea no ecossistema local, já que se todos tendem a se concentrar em um mesmo lugar, ao mesmo tempo. “Dados do projeto da ONG indicam que os golfinhos-rotadores estão abandonando Fernanda de Noronha. Fato relacionado diretamente ao incremento do número de vindas dos cruzeiros”, afirma Silva Júnior.

O controle rigoroso da entrada em Fernando de Noronha deve-se ao fato de a ilha ser uma área bastante sensível a impactos, como afirma Roberto Mourão, Presidente do Instituto EcoBrasil, organização focada no turismo sustentável. “É diferente se um navio grande vem para uma cidade de porte considerável, como o Rio de Janeiro, que consegue absorver um turismo de massa, do que quando vem para uma ilha”, concorda Mourão.

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