No centro, tudo faz lembrar a época em que a cidade prosperava com o cacau, seja na cor amarela dos prédios públicos ou nas histórias dos moradores

Agência Estado

A Ilhéus que Jorge Amado eternizou em pelo menos seis romances já não é a mesma. Na Avenida Soares Lopes, a beira-mar local, ou no entorno do antigo porto, suntuosos casarões dividem espaço com prédios de varanda gourmet, casas com antenas de TV paga e restaurantes de sushi. Não chega a ser cidade grande. O charme, aliás, ainda está no aconchego da paisagem de pequenas baías, formadas pelo encontro das ilhas que deram nome a Ilhéus, e no clima de cidadezinha pacata. Mas tais atributos não foram suficientes para que a Globo voltasse a gravar ali a nova "Gabriela", com Juliana Paes. Para a produção da emissora, Ilhéus está bem mais urbanizada do que em 1975, quando Sônia Braga desembarcou na cidade para a primeira versão da novela.

De fato, em 1925, ano retratado pela obra, a cidade tinha 30 mil habitantes - hoje são 180 mil. Por isso, preferiu-se as ruas centrais e melhor preservadas de Canavieiras, a 110 quilômetros de Ilhéus e com pouco mais de 30 mil habitantes. De Ilhéus, na novela, aparecem apenas algumas tomadas das praias, projetadas no fundo infinito da cidade cenográfica da Globo, no Projac. Ainda assim, as imagens são misturadas às captadas nas praias de Itacaré, a 70 quilômetros de Ilhéus.

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Ainda assim, o conhecedor da literatura de Jorge Amado não ficará desapontado com a Ilhéus de hoje. No centro, tudo faz lembrar a época em que a cidade prosperava com o cacau, seja na cor amarela dos prédios públicos (em alusão ao fruto), nos adornos nas fachadas das casas ou nas histórias dos moradores, que, não raro, descendem de coronéis ou conheceram a família Amado. Ponto de encontro entre coronéis, políticos e jornalistas por mais de meio século, o Bar Vesúvio existe desde 1910. Seus donos, porém, há muito não são o casal Emilio e Lourdes, possível inspiração para Nacib e Gabriela. Mas desde 2000, o bar, que mudou de nome ao longo dos anos, voltou às origens e resgatou, entre outros quitutes, o famoso quibe.

Feliz também foi a retomada do Bataclan , que virou cortiço na década de 1950 e ficou em ruínas por anos. Reformado em 2004 e reinaugurado em 2008, o antigo cabaré virou um bar-restaurante, com apresentações de música e teatro, lojinha com artigos descolados e um memorial no quarto da antiga dona, Maria Antônia Machado, a Maria Machadão.

Histórias

Casa onde Jorge Amado viveu infância e adolescência é ponto turístico da cidade
Getty Images
Casa onde Jorge Amado viveu infância e adolescência é ponto turístico da cidade

Há espaço para entrar no universo do escritor em um antigo sobrado amarelo, no centro histórico: a Casa de Cultura Jorge Amado. Ali, ele se trancava num quartinho do terceiro andar com sua máquina de escrever. Depois, subia uma escadinha até o mirante próximo ao telhado, contemplava a cidade e buscava inspiração para suas histórias - foi lá que o autor deu início à sua primeira obra, "O País do Carnaval" (1931). Jorge viveu a infância e a adolescência na casa e, mesmo quando morou em Salvador e no Rio, voltava para passar as férias e assistir a filmes no Cine Teatro Ilhéus, na mesma rua.

Suntuoso, o palacete ocupa uma área de 600 metros quadrados e foi construído por seu João Amado de Faria, pai do escritor, com a fortuna que ganhou na loteria. Ao longo dos anos, o sobrado luxuoso foi vendido e reformado. Mas, em 1997, revitalizado, foi inaugurado como Casa de Cultura, com a presença do escritor e de sua mulher, Zélia Gatai. Hoje, o espaço conta com fotos antigas, objetos pessoais e exposição das capas de diferentes edições de sua obra em 47 idiomas. O acervo, porém, é pequeno se comparado à Fundação Jorge Amado, em Salvador. Mas a visita vale, ainda mais depois de ouvir da boca do próprio Jorge o quanto a casa representou em sua vida, num vídeo do museu.

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Praias

Litoral mais extenso entre os municípios baianos, a costa de Ilhéus tem cerca de 90 quilômetros. Tudo cercado pela Mata Atlântica, que, até pelo cultivo do cacau, feito sob a sombra das árvores, mantém boa área de mata preservada.

Com águas tranquilas e coqueiros, a Praia do Sul fica quase deserta fora de temporada e tem uma orla ótima para crianças ou atletas. Dependendo de onde se pisa, a areia pode ser fofa, bem dura (boa para andar de bicicleta) ou intermediária, ideal para correr descalço. Se quer agito, comida baiana e chuveiros de água doce, o lugar é Praia dos Milionários. Assim como tudo na cidade, o nome também tem a ver com os antigos coronéis. Antes da construção da ponte que liga o centro às outras ilhas, em 1966, só eles tinham acesso à praia, em seus barcos.

A vila de pescadores Lagoa Encantada preserva ares interioranos de Ilhéus
Getty Images
A vila de pescadores Lagoa Encantada preserva ares interioranos de Ilhéus


Já se o propósito for o surfe, as melhores ondas estão ao sul. A Praia Back Door recebe importantes campeonatos do esporte e, na maré baixa, as vedetes são as piscinas naturais de águas mornas. A Praia Batuba também costuma dar ondas de até 2,5 metros, mas cuidado: o lugar, cheio de pedras e correnteza forte, não é indicado ao mergulho.

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