Para quem quer fugir das multidões, Bequia, a maior das ilhas Granadinas, reserva sossego em praias paradisíacas

Barcos de pesca vistos do hotel Bequia Beachfront Villas, na ilha de Bequia
Todd Heisler/The New York Times
Barcos de pesca vistos do hotel Bequia Beachfront Villas, na ilha de Bequia
Por mais que o Caribe seja famoso por seu espírito despreocupado e suas regras de "tempo da ilha", muitos de nós só o aproveitamos isolados em hotéis onde podemos comer do mesmo modo que comemos em casa e conviver com pessoas que, se não são nossos vizinhos, bem poderiam ser. Mesmo para mim, que passei dois anos morando no Caribe como repórter, conhecer Bequia foi uma experiência surpreendentemente nova.

A maior das Granadinas - aquele colar de 32 ilhas a oeste de Barbados, que se desenrola para o sul a partir de St. Vincent -, Bequia tem apenas 18 quilômetros quadrados, cerca de um terço do tamanho de Manhattan. Não é tão pequena a ponto de você acabar comendo todos os dias no mesmo restaurante, mas é manejável o suficiente para que você chegue a qualquer lugar em menos de 15 minutos de táxi.

Motorista do barco-táxi na ilha caribenha de Bequia
Todd Heisler/The New York Times
Motorista do barco-táxi na ilha caribenha de Bequia
A ilha possui uma variedade de pequenos hotéis e pousadas de propriedade de moradores, alguns hotéis elegantes e modestas casas de hóspedes. Mas nenhuma grande rede, nenhuma oferta de ótimos negócios saltando em sites de turismo. Os moradores são amigáveis e acessíveis, nadando nas mesmas praias que os turistas, bebendo com eles nos mesmos bares no fim do dia. Cachorros vagueiam livremente. Bodes costumam ser amarrados em árvores.

O único inconveniente (embora seja também uma vantagem, por manter as multidões afastadas) é que chegar lá exige um pouco de esforço, paciência e gastos. Primeiro você precisa chegar a Barbados. De lá são 45 minutos num pequeno avião a hélice ; você pode ter de parar em algumas Granadinas para deixar ou pegar passageiros. Saí de Nova York às 8 da manhã e só entrei em meu hotel às 17h30.

Atividades em Bequia

Cerca de 5 mil pessoas moram em Bequia em tempo integral, e Porto Elizabeth é seu centro de atividade, abrigando o banco, os escritórios do governo e a praça do mercado principal. Balsas trazem e levam passageiros fazendo o trajeto entre St. Vincent e as outras ilhas das Granadinas. Ambulantes locais sentam-se junto a mesas de carteado na sombra, vendendo cestas e bijuterias.

Pescadores preparam-se para entrar no mar na ilha de Bequia
Todd Heisler/The New York Times
Pescadores preparam-se para entrar no mar na ilha de Bequia

Decidi passar minhas três primeiras noites no Bequia Beachfront Villas , a cerca de 15 minutos do outro lado da ilha, na antiga aldeia baleeira de Friendship Bay, principalmente porque os hotéis de lá possuem acesso à praia - algo não disponível em muitos outros de Porto Elizabeth. Não há nenhuma praça central ou centro comercial perto de Friendship Bay , apenas uma praia onde as águas são calmas e rasas o bastante para que você possa nadar uma boa distância e examinar as colinas ao redor.

Na extremidade leste da baía, uma península gramada se projeta para a água azul-turquesa e faz uma curva na direção da praia. Olhando para as colinas até a extremidade oeste, você verá um pequeno bunker de concreto usado como observatório de baleias . Mas isso não é tão inocente quanto parece. Os moradores o usam para procurar baleias-jubarte durante a estação de caça (a tradição é forte em Bequia, onde muitos moradores se orgulham das expedições anuais de caça com arpão que são permitidas, em suas águas, pelos regulamentos internacionais).

Minha moradia, uma construção limpa e simples com um quarto, foi uma considerável barganha, por uma diária de US$ 200. Considerando o que já paguei e experimentei em outras ilhas do Caribe, uma grande varanda a alguns passos da água foi uma agradável surpresa. Toda manhã eu bebia café (solúvel, pois o supermercado local não tinha do comum), ouvia o barulho do mar e observava o sol se mover sobre a baía. Às vezes eu caminhava pela praia e conversava com um dos pescadores; muitos concordarão em levá-lo para um passeio de barco por um valor modesto e negociável.

Motorista de barco-táxi maneja a embarcação até a praia Princess Margareth
Todd Heisler/The New York Times
Motorista de barco-táxi maneja a embarcação até a praia Princess Margareth
No final, eu sempre acabava chegando à cidade. A ilha é tão pequena que você consegue chegar a qualquer lugar bem rapidamente, usando táxis ou o principal meio de transporte público dos moradores, a perua de um dólar. Tenha em mente, porém, que você recebe pelo que pagou - o que, nessas peruas, pode significar um passeio bem curto. Em certo ponto da viagem entre a vila e a cidade, contei 15 passageiros em nossa minivan Toyota. E a designação de "dólar" é bastante elástica; a passagem de perua custa 1,50 dólares do Caribe Oriental, ou E.C., por uma viagem só de ida ou volta (um táxi custaria cerca de 30 dólares E.C.).

Porto Elizabeth é uma colmeia de atividades do início da manhã até o meio da tarde. O mercado , uma série de barracas ao ar livre à beira do porto, fica cheio de agricultores rastafári vendendo bananas, quiabo e fruta-pão. Mesmo se você não estiver precisando de produtos frescos, vale uma visita apenas para observar os ávidos agricultores cercando suas presas.

Se decidir fazer algumas compras, não se surpreenda pelo que pode parecer uma taxa de câmbio bastante arbitrária; uma dólar americano equivale a cerca de 2,70 dólares E.C. Mas, algumas vezes me disseram que o câmbio estava em 2:1; outras, em 3:1. No fim, tudo parecia se equilibrar.

Café da manhã servido no hotel Firefly
Todd Heisler/The New York Times
Café da manhã servido no hotel Firefly
A cidade fica aninhada num dos portos naturais mais belos do Caribe, a Admiralty Bay, voltada para o oeste. Nas manhãs e no começo da tarde, o oceano parece cobalto com trechos de azul-petróleo; quando o sol se põe, ele assume um brilho prateado.

Muitos dos bares e restaurantes de Porto Elizabeth ficam a uma caminhada de cinco minutos do centro da cidade, ao longo de um caminho à beira-mar chamado Belmont Walkway - nome que sugere um propósito e uma continuidade levemente exagerados. O caminho de concreto, sombreado por palmeiras e árvores, ladeia a praia e está num estado tão encantador de abandono - em alguns pontos ele já ruiu completamente - que me vi arrumando desculpas para usá-lo sempre que possível. O mar avança suavemente sobre o caminho; as ondas borbulham conforme o lavam.

O refúgio do refúgio

Em minhas duas últimas noites na ilha, curioso sobre como Bequia pode ser "elegante", fiquei no Firefly , um luxuoso hotel de serviço completo na extremidade mais remota ao nordeste.

"Bem-vindo a um refúgio do refúgio", anunciou o recepcionista quando entrei. E era verdade; o lugar conseguia desacelerar Bequia quase até a marcha a ré. O hotel possui apenas quatro quartos e um chalé tamanho família montados em 12 hectares de bananeiras, bosques de coqueiros e jardins de ervas. Com portas duplas de vidro que vão do chão ao teto, todas as habitações oferecem vistas deslumbrantes das plantações ao redor e do mar, a um quilômetro de distância.

Juddy e Ana, dois dos três cachorros residentes do hotel Firefly
Todd Heisler/The New York Times
Juddy e Ana, dois dos três cachorros residentes do hotel Firefly
Você pode até mesmo fazer alguns novos amigos na caminhada. O Firefly tem três cachorros residentes : Anna, Judy e Mango, que resolveram me fazer companhia durante minha estada. Eles me acompanhavam até a porta todas as noites após o jantar. E quando eu descia para o café da manhã, eles esperavam do lado de fora do restaurante, esperançosos de que eu recompensaria sua paciência com alguns pedaços de torrada. Eles eram o que os moradores chamam de "cachorros da ilha", uma mistura de diversas raças e definidos por uma incrível habilidade de se materializar repentinamente sempre que se desembrulha alguma comida.

E, graças a eles, nem mesmo quartos de US$ 500 por noite com lençóis italianos de 250 fios conseguem esconder o coração caribenho de Bequia.


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