Tours guiados por ex-moradores de rua mostram lado escondido de Londres

Por Rafael Bergamaschi , iG São Paulo

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Iniciativa, que começou em 2010, aumentou frequência e inaugurou novo percurso para atender aos turistas que invadem a capital inglesa durante as Olimpíadas

Com a morte do marido em 2005, a inglesa Hazel, então com 50 anos, partiu para Londres na busca por uma vida melhor. Dificuldades para encontrar moradia e a falta de amigos nos quais se apoiar levaram-na às ruas da cidade, onde ela viveu por cinco anos até conseguir um emprego não tão usual para moradores de rua: guia turístico. Com o dinheiro, ela conseguiu encontrar um lugar para morar e hoje ganha a vida mostrando aos interessados os becos nos quais um dia viveu e contando histórias de Londres e das pessoas que vivem às margens da sociedade inglesa.

Essa é apenas uma das histórias por trás do projeto da Sock Mob Events, criado em 2010 e que oferece uma das formas mais inusitadas - e realísticas - de conhecer Londres. “Quem conhece melhor as ruas do que quem vive nelas?”, indaga Faye Shields, uma das idealizadoras, antes de acrescentar: “os londrinos estão sempre correndo para chegar a algum lugar e acabam não prestando atenção em muitas coisas. Essa é uma maneira de ter contato com um lado diferente da cidade”.

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A ex-moradora de rua Hazel é a guia do recém-inaugurado tour por Brixton

Em clima de Olimpíadas, iniciada dia 27 de julho, e que deve atrair mais de 60 mil turistas à capital do país, a companhia aumentou a frequência de tours e inaugurou um novo percurso: Brixton. O bairro, antes considerado um dos mais perigosos de Londres, ganhou caráter boêmio nos últimos anos com a abertura de diversos bares e restaurantes, que inundaram a região para abastecer ao público que passou a frequentá-la em busca da cena artística vibrante. Brixton é o principal recanto do Hip Hop na cidade.

“Brixton é diferente, não tem um marco central, o tour gira em torno do bairro em si”, explica Hazel, referindo-se à história rica do bairro. Principal centro de compras em Londres no início do século 20, Brixton foi severamente bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial, o que levou à decadência do local. A região passou, então, a abrigar conjuntos de habitações públicas e, na segunda metade do século, recebeu imigrantes de diferentes partes do globo. Aos poucos, os novos habitantes deram ao bairro aspecto multicultural e fervilhante, talvez uma síntese do que é a capital inglesa hoje.

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Projeto social

A iniciativa teve início com tours que passavam pelas áreas mais pobres da cidade e colocavam os visitantes em contato com moradores de rua. “Nós apenas andávamos por diferentes regiões da cidade, sentávamos e conversávamos com aquelas pessoas. A ideia era oferecer companhia àquelas pessoas, tentar tirá-las um pouco do isolamento”, conta Faye.

A partir daí surgiu a ideia de fazer uma parceria com aquelas pessoas, como uma forma de dar outra perspectiva para suas vidas. “É muito difícil encontrar trabalho quando você está nas ruas. Trabalhar como guia faz muito bem para a autoconfiança”, confessa Hazel.

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Hazel, em anúncio dos tours de Londres

O tour funciona basicamente como um ‘walking tour’ tradicional, no qual o guia, no caso um ex-morador de rua, passeia pela cidade com os visitantes, mostrando locais interessantes e contando a história do lugar. O elemento extra é fornecido justamente pelos guias que, além de levar a muitos lugares aos quais tours não passam geralmente, compartilham suas experiências de vida. “Muito do tour gira em torno de mudar a perspectiva das pessoas em relação ao que é ser um morador de rua”, diz Faye.

Ambas garantem que em nenhum momento a segurança fica comprometida. Segundo Hazel, os tours vão, sim, a lugares pobres e próximos a regiões onde dormem os sem-teto, mas nunca, de fato, dentro desses lugares. “Nós queremos apenas dar uma ideia de como é a experiência de dormir na rua.”

A maior parte da renda fica com os guias e aquilo que vai para a companhia é reinvestido em treinamento de novos moradores de rua e na expansão da estrutura. Hoje com cinco guias e um total de 13 funcionários, a empresa não segue um modelo tradicional de negócio. “Não temos hierarquia. Todos têm a mesma importância e participam ativamente, moldando a forma como a empresa funciona”, esclarece Faye.

Para chegar a tal estrutura, no entanto, a equipe teve que encarar o pessimismo dos colegas. ”No começo tinham algumas pessoas que diziam coisas do tipo ‘como você pode trabalhar com moradores de rua? Isso nunca vai funcionar’”, desabafa Faye. “O que percebemos, no entanto, é que quando você dá a alguém responsabilidade e confiança, eles retribuem”, acrescenta.

Os tours acontecem todas sextas-feiras às 19h e aos sábados e aos domingos às 15h. De 25 de julho a 26 de agosto, por conta das Olimpíadas, os tours acontecem de quarta a sexta-feira às 19h e nos fins de semana às 15h. Além de Brixton, London Bridge, Covent Garden, Mayfair, Shoreditch e Brick Lane também têm seus tours próprios. A experiência sai por 10 libras (cerca de R$ 30) e o contato pode ser feito pelo site

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