Restauração de US$ 44 milhões tenta explicar e preservar a aura sobrenatural em entorno do monumento

No centro do círculo de pedra de Stonehenge, em Wiltshire Downs, Inglaterra, momentos antes do amanhecer, rodeado por baixas nuvens de chuva, por alguns instantes me sinto incapaz de compreender por que tantas peregrinações chegaram aqui. Sem dúvida, o cenário atrai pelo bucolismo, pelos campos verdejantes e grupos escuros de árvores nas colinas distantes, mas é uma paisagem comum. Posso até mesmo enxergar uma rodovia não muito longe, cortando os prados, os faróis dos carros cortando a névoa sinistra. À meia-luz, as pedras ao redor parecem quase familiares e pouco misteriosas.

Este é o mesmo lugar que Thomas Hardy chamou de "O Templo dos Ventos", descrevendo-o como que "se erguendo da grama" e com pedras que parecem emanar sons? Que Christopher Wren, o grande arquiteto da Catedral de St Paul, em Londres, adorava tanto a ponto de deixar sua assinatura esculpida em uma das pedras? E que hoje ainda atrai até 18 mil pessoas para um festival de solstício de verão no dia em que o sol nasce passando por uma lacuna entre suas pedras centrais, dividindo o monumento?

Depois da chuva, quando o sol surge por entre as nuvens e os pilares de pedra fazem um corredor de sombra, todas essas dúvidas são deixadas de lado. Na calma privilegiada da manhã, em uma visita que pode ser organizada pela English Heritage, órgão do governo que gerencia a área, comecei a entender porque mais de um milhão de visitantes vem para cá todo ano. Vejo também porque sua restauração quase completa, que custou US$ 44 milhões, tem sido tão festejada.

Ela eliminou uma rodovia que quase confinou as pedras (deixando intacta, pelo menos até agora, a estrada movimentada a uns 150 metros de distância); um intrusivo centro de visitantes também foi demolido, substituído por outro mais afastado, a cerca de 2 quilômetros, que não pode ser visto do monumento. Foi projetado por Denton Corker Marshall para parecer delicadamente discreto, mesmo contendo uma exposição introdutória, um café e uma loja de souvenir imensa. Um ônibus transporta os visitantes para a atração principal, o que requer ingressos que normalmente custam cerca de US$25 para a entrada com hora marcada, ou cerca de US$35 para o acesso ao círculo de pedra a qualquer hora.

Esse empreendimento turístico envolve também um tipo de restauração. Não nas pedras em si, já que isso seria impossível, mesmo no século 12, quando surgiu a história mais antiga de Stonehenge (em um volume agora em exposição no centro de visitantes) que dizia que tinha construído por uma raça de gigantes e transportado para o seu local atual pelo mago Merlin.

A caveira de um homem do período neolítico  encontrado durante uma escav­ação nas imediações de Stone­henge, em 1978
Andrew Testa/The New York Times
A caveira de um homem do período neolítico encontrado durante uma escav­ação nas imediações de Stone­henge, em 1978

E, afinal, qual seria a restauração de Stonehenge? Tudo começou como uma porção de terra circular, criada cerca de 3000 a.C.; o maior círculo de pedras com enormes pilares encimados por lintéis datam de cerca de 2.500 a.C. A área cerimonial incluía círculos, elipses e padrões de ferradura e aparentemente permaneceu em uso por outros mil anos. O extenso trabalho no século 20 levantou, endireitou e escorou algumas pedras com concreto para evitar que caíssem.

O objetivo agora é restaurar a paisagem, que pesquisadores vêm examinando recentemente por causa de suas conexões íntimas com o local. Essa ênfase pode ser sentida em todo o novo centro de visitantes: um teatro de 360 graus usa um escaneamento a laser detalhado das pedras para mostrar a evolução no formato do monumento, enquanto um mapa animado do tamanho de uma parede mostra Stonehenge dentro de uma rede complexa de montes e valas, pilhas de pedra marcando áreas de sepultamentos e vestígios de terraplanagem inexplicáveis que se estendem por quilômetros. Há uma exibição de 300 artefatos que descrevem os variados modos de vida e morte da região durante a evolução do monumento.

Ênfase semelhante é evidente na nova e elegante Wessex Gallery, que custou US$ 4 milhões, no vizinho Salisbury Museum, exibindo uma história arqueológica reversa da região, indo de frente para trás no tempo. Os 2.500 artefatos – incluindo o Arqueiro de Stonehenge, esqueleto que data de 2.400 a.C., encontrado em uma vala em 1978 – são acompanhados por imagens de uma paisagem pastoril que ainda guarda segredos inexplorados.

No novo centro de visitantes, uma maquete mostra como Stone­henge deve ter sido no passado
Andrew Testa/The New York Times
No novo centro de visitantes, uma maquete mostra como Stone­henge deve ter sido no passado

Naquela manhã, dentro do círculo de pedra, também examinei a paisagem ao redor. É um monumento que nos faz olhar para fora. Durante as horas do nascer do sol (e do pôr do sol), quando as sombras estão mais alongadas, os padrões mudam a todo o momento. As sombras das pedras abraçam o chão, sobem os pilares vizinhos, deslizam por valas próximas.

O eixo de Stonehenge foi originalmente determinado pelo nascer e o pôr do sol durante os solstícios de verão e de inverno, quando os movimentos simétricos das sombras certamente eram algo a ser contemplado, mas mesmo uma visita em outras épocas do ano me faz sentir como se eu estivesse girando em um lânguido caleidoscópio. As pedras são o meio através do qual percebemos a paisagem. Nós surgimos, encantados com a extensão à nossa volta, atentos a seus detalhes. O monumento revela sua disposição; a disposição, o monumento.

A princípio, a paisagem parece uma série indescritível de prados; agora se torna muito mais complexa. Olhando para o Nordeste vê-se claramente os fracos traços da Avenida, o antigo caminho que se estende por 2,5 quilômetros e termina no rio Avon. Uma hipótese é que o rio foi usado para transportar as pedras do círculo interno (chamadas de "bluestones") que vieram do País de Gales, cerca de 240 quilômetros a Oeste.

Atravesso os campos e percebo depressões e elevações, topos e montes: erosão remanescente de antigas atividades humanas, muitas aparentemente relacionadas ao monumento. Recentemente, os restos de um povoado neolítico foram descobertos na outra extremidade da Avenida, perto de uma réplica de madeira de Stonehenge. Durante a recente restauração, fissuras rochosas naturais foram descobertas sob a Avenida que se alinham ao eixo solar de Stonehenge e podem até mesmo ter determinado a localização do monumento. Em um artigo na revista Smithsonian de setembro, "What Lies Beneath Stonehenge" (O que há por baixo de Stonehenge), Ed Caesar descreve as explorações mais recentes usando medições tridimensionais de GPS que revelaram novos achados subterrâneos.

A tentação é pensar em Stonehenge como uma "coisa", um monumento erigido em um determinado tempo com uma finalidade específica, mas fatos sugerem que ao longo de cerca de 1.500 anos o local foi usado por diferentes culturas e rituais. Uma das coisas intrigantes sobre Stonehenge é que ele não pode ser definido. Nunca saberemos o suficiente. Foi um local de enterros, um templo, um modelo astronômico, um centro de recuperação, um monumento aos ancestrais mortos?

Estamos destinados ao questionamento, mesmo após toda a informação obtida nas exposições ali ao lado. Na aquarela que J.M.W. Turner pintou em 1827, em exposição na Wessex Gallery do Salisbury, relâmpagos caem perto do centro do círculo de pedra. A luz é brilhante, emocionante, mas há uma mistura de pavor e luz, mistério e iluminação. Por que o chão à volta está repleto de corpos de pastores e ovelhas? Um raio dos céus? Não sabemos. É um pouco assustador, o que faz a pintura ser tão sobrenatural quanto o lugar.

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