Conhecer a fascinante paisagem norueguesa e a relação de seu povo com o sol a partir do mar também é possível

O site da Hurtigruten, um dos símbolos nacionais mais estimados da Noruega. descreve modestamente seu cruzeiro pela costa norueguesa como "a viagem mais bela do mundo". Estávamos prestes a descobrir se era verdade. Eu estava no convés superior do navio MS Trollfjord, de nove andares, com minha esposa Katie e meu filho de 6 anos, Holt. Por volta das 10 da noite anterior, enquanto o sol não mostrava qualquer intenção de se pôr, meu primo Coleman perguntou se queríamos sair para a caminhada "da tarde".

Essa é a relação casual que as pessoas parecem manter com o tempo nas latitudes mais ao Norte, onde no inverno a luz do dia se encolhe por poucas horas, e no verão a noite quase nunca escurece. Acima do Círculo Ártico, essa existência binária fica ainda mais extrema, ao ponto onde o ano todo se transforma num único dia interminável, com seis meses de luz e seis meses de noite. Eu queria ir o mais ao Norte que pudesse, e ver por mim mesmo como as pessoas conseguiam sobreviver a um relacionamento tão dualista com o sol.

Literalmente, Hurtigruten significa "a rota expressa", e embora não haja nada de "expresso" atualmente, quando ela foi fundada, em 1893, a linha de balsa era um serviço crucial, entregando correspondências, cargas e passageiros às comunidades do Norte que, sem ela, ficariam completamente isoladas do resto do mundo.

Mas a Hurtigruten de 2014 tem pouca semelhança com a antiga. Ao longo do tempo, a missão original do expresso costeiro se tornou basicamente redundante quando cartas, cargas e passageiros passaram a preferir a conveniência do transporte aéreo – obrigando a empresa a se voltar para o turismo para sua principal fonte de receita.

Construído em 2002 e com 136 metros, nosso navio, o MS Trollfjord, foi um representante dessa nova Hurtigruten. Enquanto Holt e eu explorávamos animadamente os deques no navio, o que ficou rapidamente aparente é que estávamos testemunhando uma empresa em meio a uma leve crise de identidade. O MS Trollfjord oferecia duas pequenas jacuzzis no Convés 9, incluindo luzes coloridas de festa, mas elas fechavam prontamente às 23h00. O Convés 8 trazia uma pista de dança abandonada que, mesmo assim, tocava baladas suaves dos anos 80 o dia inteiro.

Noruegueses entregam-se à pesca a qualquer hora do dia
Damon Winter/The New York Times
Noruegueses entregam-se à pesca a qualquer hora do dia

De fato, a vista é fantástica. Quem já esteve na Noruega consegue entender que ela é abençoada com um excesso de paisagens surpreendentes. As geleiras costumam deixar uma geologia dramática em seu caminho, e a Noruega não é exceção: montanhas de granito entram diretamente no mar; cascatas mergulham 91 metros por campos de seixos e pradarias alpinas; para todo lugar que se olhe há grupos de ilhas rochosas e casas de fazenda incrivelmente bonitas na borda de algum penhasco.

Apesar de ter apenas 388.498 metros quadrados, o país ostenta um dos litorais mais recortados do mundo, atingindo surpreendentes 102.998 quilômetros de comprimento. A costa norueguesa é essencial para a identidade do país – e não só por suas fortes indústrias de pesca e perfuração offshore. Uma linha minúsculas ilhas de pedra desabitadas cria uma passagem costeira naturalmente protegida por toda a extensão até o Cabo Norte, e dá origem ao nome do país: no idioma nórdico antigo, Noruega significa "o caminho para o Norte".

Mas o mais fascinante é que a vista das salas panorâmicas do Hurtigruten também é muito lenta. Ou melhor: muito, muito lenta. Apesar de antes ser conhecido como o "expresso costeiro", o navio viaja no máximo a 15 nós – aproximadamente a velocidade de um passeio de bicicleta. Então você tem bastante tempo para gastar com cada ilha, cada banco de areia, cada pequena casa de fazenda.

Desembarcamos e nos despedimos do MS Trollfjord na vila de Stamsund, na costa Sul do arquipélago de Lofoten, que se estende para o Mar da Noruega como um dedo preguiçoso. Lofoten é famosa por sua paisagem, e num país abençoado por maravilhosos cenários, isso quer dizer muita coisa. A cadeia de ilhas possui uma parede de picos de granito. No verão, as faces rochosas dessas montanhas ficam cobertas por uma suave paleta verde de mato e musgo; à distância, as ilhas parecem flutuar sobre a superfície do oceano.

Mesmo localizada 161 quilômetros ao norte do Círculo Ártico, Lofoten, como o restante da Noruega, permanece relativamente temperada – devido principalmente à Corrente do Golfo vinda da Flórida. Todo norueguês deveria escrever uma carta de amor anual à Corrente do Golfo. As correntes quentes impedem que os portos congelem no inverno, proporcionam locais para pesca abundante e temperaturas moderadas no mar e na terra durante o ano todo. De Stamsund, dirigimos até a Ilha Moskenes, na ponta do dedo. O caminho, por uma série de 16 pontes, foi de cair o queixo e tapar o nariz – especialmente quando passamos por um dos muitos montes de bacalhau secando ao ar livre. Ficamos na vila de Reine, em Reine Rorbuer, que situa-se num bonito pedaço da península cercado por montanhas como as da Terra Média.

Cansados de absorver tantas paisagens, sentamos para um jantar no agradável restaurante Gammelbua e experimentamos bife de baleia, que tinha um gosto parecido com um entrecôte bem passado, e língua de bacalhau, uma iguaria local de sabor divino. Fomos para a cama por volta da meia-noite, embora essa escolha tenha parecido uma mera casualidade – já que a luz ainda brilhava pelas janelas.

No dia seguinte, voltamos para Stamsund para pegar nosso novo barco, o MS Kong Harald. Construído em 1993, ele tem um adorável elemento kitsch dos anos 80 – inapropriadas colunas de latão, sofás de couro sintético, tapetes pesados, um teto alguns centímetros baixo demais. É como se Barry Manilow pudesse aparecer a qualquer momento e cantar algumas músicas. E falo isso como um elogio.

No fim, percebi que minha premissa sobre a relação entre luz e sanidade era falha. É como me virar para alguém e perguntar: "Mas como você sobrevive à noite? Fica escuro todo dia, certo? Isso é maluco". A resposta é: a repetição normaliza tudo. As pessoas se adaptam. É o que fazemos.

Os noruegueses não falam sobre o sol da meia-noite. O sol da meia-noite é um conceito arbitrário, inventado para figurar em bonés de turistas e perpetuado por escritores de talento incerto. Mas se eu aprendi alguma coisa nessa viagem ao Norte, é que verdade e importância têm pouca relação uma com a outra. Mesmo que olhar para o sol à meia-noite fosse completamente arbitrário, eu ainda queria ver. E não consegui fazer isso ao longo da viagem, já que fomos abençoados por uma cobertura de nuvens 24 horas por dia.

Em nossa última noite na Noruega, o céu finalmente começou a abrir. Então escalei uma pequena colina, atingindo seu topo às 23h58. Estava pronto para me decepcionar com qualquer coisa que visse. O relógio deu meia-noite e lá estava ele: o sol, desimpedido, resplandecente. O mesmo sol de sempre. Mas que sol! E que terra!

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