Geleiras penduradas no alto de montanhas, desconexão e contato com uma natureza digna de contos de fadas são atrativos da região de Aysén

A menos de três horas de avião de Santiago, no Chile, entre a região dos lagos e a área mais próxima da Terra do Fogo, numa Patagônia ainda pouco conhecida, a vegetação cresce livremente por bosques com árvores centenárias, geleiras se penduram em montanhas desafiando a lógica e corredores de água salgada se protegem da fúria do mar em fiordes onde reina o silêncio. Assim é Aysén, uma das parcelas patagônicas menos desbravadas pelos turistas. Mas, nem por isso, menos surpreendentemente bela.

Espremida entre a Cordilheira dos Andes e uma dezena de ilhas que precedem o oceano Pacífico, a região pode ser acessada por ar, a partir do aeroporto de Balmaceda (a uma hora de Coyhaique) ou por terra, pegando a Carretera Austral, estrada de 1.200 quilômetros que liga Puerto Montt a Villa O'Higgins. Ao longo dela, paisagens deslumbrantes combinam vales verdejantes com gado e ovelhas pastando ao longe, picos de neve eterna, corredeiras, lagos, cachoeiras e cascatas formadas por água de geleira. Um convite constante a pausas, fotos e desvios. Afinal, é preciso desbravar os mistérios e surpresas das 12 reservas naturais e dos quatro Parques Nacionais que compõem 50% do território.

Por ser um ponto central e também a maior cidade da região (não se empolgue, são apenas 60 mil habitantes), Coyhaique é o ponto de partida ideal. Aproveite para trocar dinheiro, alugar um carro e esticar as pernas caminhando pela feirinha de artesanatos. Para quem vem de longe. Este é o lugar perfeito para passar uma noite antes de seguir em frente.

Veja o caminho que leva ao Ventisquero Colgante, na Patagônia chilena.

Na hora de comer, brinde à natureza com uma taça de Calafate sauer (fruta local semelhante à blueberry) e sirva-se com o primeiro assado de cordeiro da viagem, com um toque de merkén (tempero feito com pimenta vermelha desidratada e defumada). Os restaurantes Ruibarbo  e Ricer são boas pedidas.

Hora de pegar a estrada. Siga pela Carretera Austral rumo à tranquila cidade de Puyuhuapi, mais ao Norte. Até lá, são quatro horas de carro, mas não se assuste com a distância. Ela será facilmente amenizada pela paisagem, que pede pausas contemplativas ao longo do rio Simpson e paradas obrigatórias na Cascata La Virgen (de onde se pode ver a Pedra do Índio), na deserta Villa de Mañihuales (onde o sinal de celular se perde de vez), no Lago Las Torres, no mirante do Vale do Rio Cisnes e na Piedra del Gato.

Depois de caminhar pelos bosques e geleiras, mergulhe nas piscinas com águas termais
Juliana Bianchi
Depois de caminhar pelos bosques e geleiras, mergulhe nas piscinas com águas termais

Próximo ao Parque Nacional de Queulat, o asfalto desaparece (apenas 20% da Carretera é pavimentada), dando espaço aos cascalhos de rocha que reforçam o clima de aventura. É nesse trecho em que ficam as principais atrações do pedaço: o Bosque Encantado e o Ventisquero Colgante (inacreditável geleira pendurada no topo de uma montanha).

Dentro do parque (cuja entrada custa 4 mil pesos chilenos), o acesso ao Ventisquero é tranquilo. Com uma caminhada de 600 metros ao longo da corredeira (com direito a ponte pênsil), chega-se à Laguna Témpanos, de onde se pode ver com clareza a grandiosidade da natureza. No recorte de um dos picos gelados, uma geleira de cerca de 200 metros de altura dá origem a uma queda d’água de 560 metros que mergulha no lago translúcido. Não há como não congelar de emoção, tentando captar tamanha beleza inusitada.

A área de preservação ainda reserva outras trilhas (com graus de dificuldade variados), que permitem ver a geleira “pendurada” (e outras) de diferentes ângulos. A principal delas, com entrada pela Carretera, é a do Bosque Encantado, onde a vegetação centenária reserva uma paleta infinita de verdes, texturas e folhas, que formam cenários dignos do nome. De verdade.

O caminho de 2.500 quilômetros até a Laguna Los Gnomos e o Ventisquero Pudu, a 900 metros de altura, não é fácil, com subidas pesadas, rochas escorregadias e lama (a galocha é obrigatória, principalmente nos dias de chuva. O que significa quase sempre). Mas cada escorregão e dor muscular valem a experiência única de atravessar o rio formado pela geleira derretida, matar a sede com a água mais pura que você já provou e enlouquecer com visão da mata verde e os picos nevados no mesmo quadro.

Confira a aventra de caminhar pelo Bosque Encantado, até o Ventisquero Pudu, na Patagônia chilena.

Nos dois casos, verifique a condição climática antes de dar início às trilhas. Como a região costuma ter as quatro estações em um único dia, é importante calcular bem o horário da caminhada para não chegar ao topo com neblina, o que prejudica a vista. E não estranhe se não encontrar mais ninguém no caminho, principalmente fora da alta temporada (de novembro a fevereiro). Ainda pouco divulgado, o parque recebe, média, apenas 16 mil visitantes ao ano.

Para amenizar os esforços, não abra mão de um longo mergulho nas piscinas e banheiras de hidromassagens com águas termais, que chegam à superfície a até 50ºC nas Termas del Ventisquero , colada à cidade de Puyuhuapi, ou no Puyuhuapi Lodge e Spa, sem dúvida o melhor hotel da região.

Outra opção charmosa de hospedagem no centro, mas sem piscinas ou grandes mordomias, é a Casa Ludwig. Tombada como monumento histórico em 2011, o Bed and Breakfast construído em madeira em 1957 (a cidade foi fundada por imigrantes alemães em 1935), tem diárias a partir de 18 mil pesos chilenos e acomoda até 20 pessoas.

No verão, quando a vila de pescadores recebe até 5 mil visitantes, é comum encontrar grupos de ciclistas percorrendo a estrada, caiaques colorindo as águas dos lagos, e barcos com pescadores amadores nas proximidades das fazendas de salmão instaladas nos fiordes. Passeios e equipamentos também podem ser encontrados na agência Experiência Austral .

Para quem quiser levar uma lembrança além das fotos, é possível investir na cerveja artesanal Hopperdietzel, ou encomendar um tapete de lã de ovelha feito manualmente (US$ 360 o metro quadrado), na fábrica local.

(*) A jornalista viajou a convite da Secretaria de Turismo do Chile e do grupo LATAM Airlines

(*) O Grupo LATAM tem voos diários do Brasil a Balmaceda, com saídas de São Paulo e Rio de Janeiro, e escala em Santiago do Chile

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