No chamado “anel dourado”, um circuito de cerca de 10 antigas cidades a nordeste de Moscou, uma viagem por igrejas de cúpulas reluzentes e fortalezas medievais

Sabíamos que dirigir um carro alugado na Rússia não seria fácil, mesmo antes de chegarmos ao guichê mal sinalizado da Europcar no Aeroporto Internacional de Sheremetyevo, em Moscou, onde eles atendem, em média, apenas 14 clientes por semana. Lá, um jovem simpático levou 40 minutos para verificar a nossa reserva, fazer fotocópias de nossos documentos e testar dois sistemas de GPS. O primeiro estava quebrado; o segundo, que ele considerou em bom estado, pifou logo que deixamos a garagem.

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Em seguida, demos de cara com o verdadeiro problema que viríamos a enfrentar: as estradas russas, que ficam ainda piores por conta dos motoristas russos. Naquela primeira tarde, deixando Moscou, tivemos amostras de ambos. Cruzamentos congestionados; aglomerados de buracos ou "ninhos de galinha", como os chamou Claire de Laboulaye, minha companheira de viagem francesa; caminhões gigantes viajando por estradas estreitas.

Uma viagem pelo Anel Dourado da Rússia – um circuito de cerca de 10 antigas cidades a nordeste de Moscou, cada uma com seu próprio conjunto de igrejas de cúpulas reluzentes em forma de cebola e fortalezas medievais – seria um desafio, mesmo para nós. Tanto Claire quanto eu estávamos bem preparadas, graças a nossos anos de viagens pela Rússia, que, para nós duas, começaram na infância, e que retomamos na década de 1980.

Nos últimos 20 anos, surgiu uma outra Rússia, mais confortável. Nas cidades do Anel Dourado – várias delas, em todo caso – isso significa a disponibilidade de hotéis decentes, às vezes até charmosos, inclusive com telefones e Wi-Fi que funcionam, restaurantes melhores e inúmeras igrejas e mosteiros carinhosamente resgatados da negligência da era soviética. Isso tudo foi suficiente para nos motivar a um alugar um Nissan Tiida para seis dias de aventura, com um GPS quebrado, levando apenas um guia Lonely Planet e um atlas russo.

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Mesmo nos tempos da União Soviética, o Anel Dourado atraía muitos turistas, começando com o magnífico mosteiro murado de Sergiyev Posad, a cerca de 69 quilômetros de Moscou, repleto de cúpulas azuis e douradas brilhantes. A partir de lá, de carro, as outras cidades ficam a uma distância de aproximadamente metade de um dia uma da outra, à medida que o Anel se estende em direção ao rio Volga. Algumas paradas – Yaroslavl, Kostroma e Vladimir – são cidades em si, mesmo que pequenas, com população de 300 mil a 650 mil habitantes. Decidimos fazer apenas paradas rápidas nelas e nos concentramos em cidades menores – Pereslavl-Zalessky, Rostov Veliky, Plyos e Suzdal –, todas as quais mantêm aspectos de seu caráter pré-soviético.

Afrescos no interior da Catedral da Transfiguração, no monastério de St. Euthymius, em Suzdal, região de Vladimir
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Afrescos no interior da Catedral da Transfiguração, no monastério de St. Euthymius, em Suzdal, região de Vladimir

Naquele primeiro trecho da rodovia Yaroslavl, bem quando queríamos saber a que distância estávamos de Pereslavl-Zalessky, nossa primeira parada, visualizamos uma placa que indicava, entre todos os lugares possíveis, Arkhangelsk, que fica perto do Círculo Polar Ártico, a 1.125 km de distância. Pereslavl-Zalessky, uma cidade montanhosa de 42 mil pessoas cuja estrada principal passa por meia dúzia de mosteiros, tem um passado grandioso que data do século 12, quando foi criada pelo príncipe Yuri Dolgoruky, mais conhecido como o fundador de Moscou. É uma cidade bonita, cortada por um rio de margens arborizadas, onde os pescadores delimitam suas posições favoritas. Algumas das casas de dois andares da cidade, datando do século 19, foram restauradas, com camadas de tinta cor-de-rosa, verde e amarelo. Desviando o olhar de um horroroso shopping center recém-construído, é possível imaginar uma cena de um romance sobre a Rússia provincial pré-revolucionária.

Praticamente todos os mosteiros cristãos ortodoxos de Pereslavl estão passando por projetos de restauração. No Mosteiro Fyodorovsky, do século 14, acompanhamos um grupo de freiras vestidas de preto que caminhavam rapidamente em direção à igreja principal. Lá, depois de colocarmos aventais disponibilizados para as visitantes que chegam vestindo calças compridas (trouxemos conosco nossos próprios lenços para cobrir a cabeça, um artigo essencial na Rússia), tivemos o nosso primeiro encontro com uma familiar expressão facial russa: a carranca que se transforma em sorriso.

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Em seguida, fomos para Rostov Veliky, merecidamente famosa por seu belo horizonte de muitas cúpulas coloridas que se erguem sobre o Lago Nero. O Kremlin de Rostov – com seus muros de pedra branca e uma passarela coberta da qual se pode observar o lago, ou ainda um bonito jardim com uma pequena lagoa – foi restaurado. A reforma cuidou especialmente das suas três capelas com afrescos laranja. Um deles, que cobre uma parede inteira, é dedicado ao Juízo Final e exibe punições com detalhes específicos – os maldizentes, por exemplo, são dependurados pela língua. Em alguns aspectos, Rostov tem de tudo quando se trata das paisagens e dos sons da Rússia antiga. É aqui que fica uma das mais antigas igrejas da Rússia, a Catedral da Dormição, cujo campanário tem 15 sinos que pesam de 22 a 32 kg, famosos pelo seu soar alto e forte.

Paramos em Yaroslavl, onde passamos a noite na Volga Pearl, uma estação de barco adaptada. Estávamos ansiosas pela estadia e concordamos em ficar em um quarto caro, seduzidas pela oferta de uma vista do rio e de uma suíte com duas camas. O que encontramos, no entanto, foi decepcionante: a vista era do restaurante no rio; a segunda cama era um sofá-cama. Nos consolamos de manhã com uma visita à Igreja de Elias, o Profeta, que tem afrescos esplêndidos cobrindo a parede até o teto, antes de sairmos para Plyos, a 138 quilômetros seguindo o Volga abaixo, do outro lado do rio.

Chegamos a Plyos no início da noite, a tempo de jantar em um café no Volga, onde assistimos ao sol do fim da tarde afundando no rio. Essa antiga cidade comercial passou recentemente por uma ampla reforma, promovida por um empresário que é ao mesmo tempo prefeito da cidade e seu principal investidor. O mais importante hotel de Plyos – o Fortecia Rus, um estabelecimento funcional e moderno – pertence a ele, assim como uma série de belas casas reformadas que estão disponíveis para alugar, a preços ocidentais, para temporadas de longo e curto prazo. A hospedaria mais atraente da cidade não pertence ao magnata local, mas a um casal franco-russo, que criou uma versão cara de uma maison d'hôtes francesa, chamada Chastni Visit (“visita privada”), que fica sobre uma colina com vista sobre o rio e dispõe de terraços com salas de jantar e um zoológico com animais de pequeno porte.

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Em Suzdal, nossa última parada, o setor do turismo está operando a todo vapor. Onde outrora existiam apenas carruagens puxadas por cavalos, agora há também carruagens brilhantes cor-de-rosa, em forma de abóboras, puxadas por cavalos. A galeria comercial, uma característica comum de antigas cidades russas, é repleta de restaurantes e, na alta temporada, fica cheia de turistas – tanto russos quanto estrangeiros.

Aquela foi a nossa última noite na estrada, e decidimos ir a uma sauna e nadar em Goryachi Klyuchi (“fontes termais”), um complexo hoteleiro localizado nos arredores de Suzdal. Pelo razoável montante de 1.300 rublos (cerca de US$ 42, a 31 rublos por dólar) por uma hora, conseguimos alugar uma pequena banya (casa de banho) de madeira, situada nas margens de um afluente do rio local, e desfrutamos de uma experiência completa em uma banya russa – suando no calor seco, batendo ramos de bétula nos braços e nas costas, mergulhando em uma banheira cheia de água gelada antes de repetir o processo – tudo coroado por um mergulho no rio, doses de vodca e porções de pão preto e legumes em conserva.

No dia seguinte, quando deixamos finalmente o carro em uma agência da Europcar escondida na rua atrás de um prédio bancário em Moscou, checamos nosso velocímetro: tal como viemos a descobrir, tínhamos viajado mais de 1.287 km, muito além de Arkhangelsk.

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