Esporte radical é responsável por movimentar a região de Vinales, ideal para a prática

NYT

No final da década de 1990, alpinistas de rochas encontraram um paraíso onde as paredes dos mogotes são íngremes demais para segurar qualquer vegetação. Saliências enormes, algumas com 150 metros de altura, são cobertas por candelabros de estalactites, buracos e protuberâncias intermitentes – tudo perfeitamente formado para que mãos e pés humanos consigam escalar a pedra do solo ao topo.

Rapidamente, moradores locais aderiram – e formou-se uma próspera cena de escaladas. Vinales se tornou um dos destinos preferidos para alpinistas da Europa, Canadá e Estados Unidos. Centenas de rotas subiam as principais faces de montanhas do vale, e durante anos os alpinistas visitantes tiveram carta branca. Mas isso acabou.

No final de março, mesmo com o Papa Bento XVI defendendo uma "liberdade autêntica" em Cuba frente a 200 mil pessoas em Havana, os alpinistas daqui, a três horas de carro da capital, lutavam contra a proibição de seu esporte. Numa era em que o governo cubano vem suavizando restrições – permitindo pensões e restaurantes privados, e agora a venda de propriedades imobiliárias e automóveis –, ele parece ter caminhado na direção oposta neste caso, ameaçando a prosperidade de Vinales e o futuro do esporte em Cuba com uma proibição ao alpinismo e regulamentação do turismo independente em geral.

Numa noite de março, sob as luzes fluorescentes de um bar de praça, as conversas entre alpinistas focavam nos guardas que vinham supervisionando a proibição desde o começo do ano. Onde estariam eles naquele dia? Alguém foi pego escalando? O que aconteceu? E então: "Por que eles existem, afinal?" 

Jens Franzke, alpinista de Dresden, Alemanha, que está aqui há três semanas com a esposa, Ina, estava farto. "Isso parece a Alemanha Oriental antes da queda do Muro de Berlim", declarou ele. "Há todas essas regras, e nenhuma delas faz o menor sentido. Não há placas, nem mapas detalhados. Você pergunta se pode ir a algum lugar por conta própria, sozinho, e eles respondem: 'Não, isso é impossível'."

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Durante sua viagem, Franzke, de 46 anos, e sua esposa foram obrigados a parar de escalar diversas vezes, ameaçados pela ação de guardas do parque, e foram informados de que o manual "Cuba Climbing", que eles usavam para encontrar rotas no vale, era ilegal pois seus autores não moravam mais em Cuba (eles moram no Wyoming e no Canadá).

"É uma pena, pois isto é um paraíso", afirmou Franzke. O casal conseguiu escalar quase diariamente, evitando as regras e os guardas, mas "nunca mais vamos voltar", completou ele.
Essa é a maior preocupação dos moradores e alpinistas. Vinales é o centro do vale e o coração do Parque Nacional de Vinales. A cidade de 17 mil habitantes tem mais de 300 pensões privadas com quartos para turistas que vêm fazer caminhadas, explorar os penhascos, andar a cavalo, observar aves e escalar no parque nacional. Isso permitiu que o vale superasse a pobreza típica do restante do país.

Armando Menocal, um dos autores do manual "Cuba Climbing" e especialista na região, declarou: "O turismo criou uma economia forte e vibrante, totalmente baseada na recreação ao ar livre". A proibição, caso continue, "pode ser devastadora para o turismo e o alpinismo em Vinales", disse ele.

Os alpinistas cubanos dependem de turistas que doam sapatos, cintas e cordas de escalar. Os equipamentos não estão disponíveis e, mesmo que estivessem, o custo seria proibitivo num país onde os salários governamentais variam entre US$ 15 e US$ 25 ao mês. Sem novas doações, os sapatos, cintas e cordas se desgastam. Sem substituição, os parafusos de escalada nas rochas entram em corrosão e perdem a segurança. Essencialmente, escalar os mogotes se tornaria impossível. 

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O alpinismo foi proibido em 2003, quatro anos após o início do grande desenvolvimento do setor. O governo classificou as escaladas como um fator de "peligrosidad", uma vaga designação de que algo oferece perigo ao estado. Hoje, o esporte é um delito punível com prisão.

A proibição do alpinismo nunca foi formalmente anunciada, e não era aplicada para turistas. Para os cubanos era basicamente um incômodo, mas as consequências podiam ser mais severas. Um experiente alpinista cubano foi advertido de sua classificação como "peligroso" em 2010, e diversos outros foram levados à delegacia e fichados. Isso parecia ser mais provável quando os alpinistas escalavam e socializavam com estrangeiros, algo desaprovado pelo governo.

Questionada por um alpinista cubano, a explicação de uma autoridade pública para a disparidade na aplicação da lei em relação a cubanos e turistas, segundo Menocal, foi: "Os turistas comem presunto e queijo. Eu e você não comemos".

Em janeiro, agentes estaduais organizaram uma reunião reafirmando a proibição da prática. Os alpinistas acharam que era apenas mais falatório, mas de repente havia guardas patrulhando o perímetro do parque o mandando alpinistas darem meia-volta.

Alguns desconfiam que a segurança estadual é o motivo da repressão. Muitos dos penhascos escalados fazem parte do plano de defesa nacional em caso de ataque, e alpinistas acreditam que membros da segurança estadual temem que cubanos e estrangeiros estejam ali se organizando contra o governo.

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Explicações oficiais atestam que os cubanos não apoiam os chamados esportes radicais. Eles se preocupam com ferimentos graves, e autoridades afirmaram que deveria sempre haver uma ambulância estacionada ao lado dos penhascos mais movimentados para o caso de alguém se ferir. Mas não há dinheiro para isso. 

Também é possível que o governo não tenha interesse num esporte sem participação nas Olimpíadas – onde a delegação cubana costuma obter excelentes desempenhos.

Segundo proprietários de "casas particulares", como são chamadas as pensões caseiras, as declarações sobre essas regras são exageradas. Oscar Jaime Rodriguez, dono de uma pensão para alpinistas no vale, tentou suavizar os temores. "Eles estão sempre dizendo que é tudo proibido, mas os alpinistas continuam vindo e escalando normalmente", disse ele. "Vale a pena".
Mesmo assim, escalar pode ser uma experiência tensa.

Nas principais paredões de Vinales, fazendas trabalham duro no sopé dos penhascos. Agricultores aram o solo vermelho para plantar o melhor tabaco do mundo, e galinhas ciscam pelo mato. É lindo, mas ao escalar, cada movimento ou ruído pode atrair um guarda e significar o fim do passeio.

"É estressante", declarou Cofi Jones, uma alpinista canadense. Após três semanas, ela já estava cansada e decidida a partir. "Pra mim chega", disse ela. "Cansei de esperar até que os guardas vão embora para escalar. Cansei dos guardas. Não me sinto bem fazendo algo que é proibido."

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