Engenheiros especializados se descabelam para proporcionar o máximo de adrenalina aos passageiros sem que a segurança fique comprometida

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A primeira queda é incrível. Do alto da montanha-russa de madeira chamada "Voyage", cinquenta metros acima do parque temático Holiday World, nas florestas do sul do Estado norte-americano de Indiana, o trilho cai quarenta e sete metros a uma angulação de sessenta e seis graus. Os carrinhos rapidamente alcançam uma velocidade máxima de cerca de trinta quilômetros por hora.

Esses números de tirar o fôlego ajudam a explicar por que mais de um milhão de pessoas por ano visitam o Holiday World, que fica bastante fora de mão, e porque a Voyage, uma das três grandes montanhas-russas de madeira do parque, ganha notas altas dos entendidos no assunto.
Mas, para Chad Miller, um dos projetistas do brinquedo, a parte mais importante dessa primeira ladeira é a curva no alto.

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"O segredo da primeira queda é desenhar aquela parábola e conseguir que ela fique certinha", diz Miller, 38 anos, um dos proprietários da Gravity Group, uma das cerca de doze empresas que desenvolvem montanhas-russas no mundo. "Ela te dá o tempo exato de tempo no ar, especialmente nos bancos de trás."

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"Tempo no ar" é jargão, no mundo das montanhas-russas, para forças-g negativas que erguem o passageiros para fora do banco, e resulta de mudanças na velocidade do carrinho. Ao longo de seus mil e novecentos metros de trilhos – é a segunda montanha-russa mais longa do mundo – a Voyage tem muitas quedas acentuadas e curvas apertadas que afetam a velocidade, num total de vinte e quatro segundos no ar, um recorde não-oficial.

Mas desenhar parábolas é apenas uma das muitas tarefas que se colocam a engenheiros como Miller. Desenhar montanhas-russas é um trabalho meio "o médico e o monstro": a prioridade absoluta é que os passageiros estejam seguros; mas a segunda é que eles gritem.

Miller e seus três sócios, que trabalham num pequeno conjunto de escritórios no entorno de Cincinnati, decorado com pôsteres de montanhas-russas e estranhos remanescentes de vários projetos, ruminam os números cuidadosamente, usando seus próprios programas (que têm nomes como Splinal Tap, algo como "torneira estriada"), capazes de transformar as linhas impolidas de um esboço inicial num projeto mais bem-acabado. A intervalos regulares ao longo do trajeto, o software calcula as forças-g – para cima e para baixo, para um lado e para o outro, e para frente e para trás – para os passageiros da frente, do meio, e do fim da composição.

Os projetistas trabalham confortavelmente dentro dos limites de forças-g para os brinquedos, estabelecidos pela organização ASTM International (que as agências reguladoras da maioria dos Estados norte-americanos também seguem). Mas seu objetivo é sacudir os passageiros – a começar, na Voyage, por aquela primeira ladeira, imediatamente seguida por duas outras com quedas de mais de trinta metros.

Depois disso, as quedas são menos acentuadas, mas o trilho faz reviravoltas (uma seção é chamada carinhosamente de prato de espaguete), quebra a noventa graus, ondeia para dentro e para fora da estrutura, e mergulha por túneis e sob vigas perfeitamente seguros, mas ameaçadores (os "cortadores de cabeças", como se diz na língua deles).

"São mil novecentos e cinquenta metros de trilhos", diz Miller. "Tínhamos tanto trilho pra trabalhar, que dissemos: 'Vamos fazer umas coisas bem legais'."

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Projetistas são limitados pela quantidade de energia potencial com a qual têm de trabalhar
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Projetistas são limitados pela quantidade de energia potencial com a qual têm de trabalhar

A Gravity Group trabalha com montanhas-russas de madeira, cujos trilhos são feitos de pinho laminado tratado sob pressão e dispostos sobre pranchas de madeira chamadas de "ledgers", tendo apenas pequenas tiras de aço com as quais as rodas do carrinho têm contato. Há puristas que dizem que a estrutura também deve ser de madeira, mas a Voyage é um dos muitos brinquedos – como o Cyclone, em Coney Island – escoradas em aço.

Novas montanhas-russas de madeira são relativamente raras hoje em dia, pois os proprietários dos parques optam por projetos com trilhos de aço, geralmente mais rápidos e mais altos (e de custos de manutenção mais baixos), e que comportam traçados mais nauseantes, girando sobre si mesmos e dando voltas em parafuso. Mas a Gravity Group está produzindo muitos projetos. Uma pequena montanha-russa abriu no ano passado, com boas críticas, no Parque de Diversões Quassy, em Connecticut, e o grupo assumiu vários projetos na China, onde a classe média em expansão se apaixonou pelos parques de diversões.

A Voyage, construída em 2006 ao custo de nove milhões e meio de dólares, continua sendo a montanha-russa símbolo da empresa, sempre apontada entre os melhores brinquedos de madeira do mundo por aqueles a quem se pode chamar, polidamente, entusiastas das montanhas-russas.

Miller, com seus brincos e cabelo desgrenhado, é meio que uma superestrela entre esses fãs, que não se importam em viajar milhares de quilômetros para passear num brinquedo específico várias vezes seguidas. Cerca de quatrocentos e cinquenta deles apareceram no mês passado para um evento de fim-de-semana no Holiday World que incluía viagens noturnas. Miller também apareceu, trazendo consigo uma chapa de aço que sobrou de um trabalho na Suécia, e que ele e seus sócios assinaram para um leilão de caridade.

Os entusiastas dizem que todas as três montanhas-russas do parque são excelentes, mas a Voyage recebe a maior parte dos elogios. "É a melhor que já vi", diz a irmã Michelle Sinkhorn, uma freira beneditina que vive ali perto, na cidade de Ferdinand, e crê ter feito ao menos cem viagens na Voyage. Ela mantém as mãos para cima a viagem inteira, que dura dois minutos e quarenta e cinco segundos.

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"Fico livre, uma voadora livre", diz ela.

Byron Hughes, funcionário de companhia aérea aposentado que havia vindo da cidade de Birmingham, no Estado do Alabama, com amigos para o fim de semana, disse: "O que me impressiona é o quanto essa montanha-russa é bem pensada. Gosto da sensação de estar sem controle".

Essa sensação de ter sido colocado num liquidificador é marca registrada das montanhas-russas de madeira e não acontece por acaso. Como tendem a ser mais lentos, esses brinquedos podem ter voltas e viradas mais apertadas que as de aço, sem gerar forças-g excessivas nos passageiros.

Uma maneira de conceber o tempo no ar, explica Miller, é imaginar a trajetória do carrinho e seus passageiros passando pelo cume de uma ladeira. Se o trilho é projetado de maneira que a trajetória do carrinho seja um pouco mais baixa que a dos passageiros, então os passageiros experimentarão algum tempo no ar (dentro de suas restrições). Não se trata tanto de que os passageiros subam, mas de que o carro (que tem rodas de segurança sob os trilhos) desça.
"Na verdade é o trilho que te solta", diz Miller.

Madeira é um material impreciso, que varia de acordo com a temperatura
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Madeira é um material impreciso, que varia de acordo com a temperatura

Os projetistas de montanhas russas são limitados pela quantidade de energia potencial com a qual têm de trabalhar, que é determinada pelo peso do carrinho e de seus passageiros, pela altura e pela gravidade. Ela é maior no alto da primeira ladeira (chamada de ladeira do elevador, porque o carro é alçado ao topo por uma corrente). Conforme o carro corre ladeira abaixo e sobe a ladeira seguinte (e, como o seu professor de física do colegial ficaria feliz que você se lembrasse, a energia potencial é convertida em energia cinética, e novamente em energia potencial), a fricção também cobra seu preço. A quantidade de energia potencial decresce ao longo do caminho, e nenhuma outra subida pode ser tão alta quanto a primeira.

O programa da Gravity Group mostra uma "linha de energia" azul e, se os projetistas a ultrapassam em qualquer ponto, isso quer dizer que o carro pararia e andaria para trás. Isso pode acontecer em montanhas-russas de verdade, em geral no começo da temporada, durante as primeiras viagens sem passageiros, quando as temperaturas baixas emperram os rolamentos das rodas, mantendo as velocidades baixas. Se isso acontecesse com passageiros a bordo, os equipamentos de segurança dos trilhos impediriam que os carrinhos descessem para trás.

Na prática, diz Miller, os projetistas não precisam ser muito precisos no que se refere às perdas de energia ao longo do caminho. "A madeira é um material muito impreciso", explica. "Se está frio, você terá uma certa taxa de perda por fricção. Se está quente e acabou de chover, misturado ao óleo no trilho, vai voar como louco."

"Temos que trabalhar dentro desse intervalo", acrescenta. "Não podemos ter nem uma viagem chata, porque está fazendo apenas doze graus Celsius, nem uma viagem insegura se estiver fazendo mais de trinta."

Eles projetam a viagem para gerar forças que estejam bem abaixo dos limites da ASTM (que levam em conta magnitude, duração e direção, e que estão geralmente bem abaixo daqueles experimentados pelos pilotos das forças armadas, por exemplo), por causa desse efeito do clima e levando em conta questões de manutenção. A madeira pode ficar bem mais áspera que o aço conforme o tempo passa, uma vez que os trilhos e os ledgers empenam sob o peso de uma composição de sete toneladas saltando pelo caminho. Uma montanha-russa com pouca manutenção pode se tornar uma viagem dura e pouco agradável.

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A Gravity Group procura reduzir as necessidades de manutenção desenhando cuidadosamente os finais das subidas, por exemplo de modo que o carrinho, que abandona ligeiramente o trilho quando passa pelo topo, aterrisse mais suavemente. A Quassy Wooden Warrior, de Connecticut, tem novos carros desenhados e construídos por uma companhia afiliada, com um mecanismo automático que conduz as viradas com menos saltos e estridência.

Como em todos os parques de diversões, os funcionários do Holiday World andam pelo trilho todas as manhãs, buscando sinais de desgaste e rupturas. Se houver algum, eles substituem a madeira machucada imediatamente, antes que a montanha abra para a jornada.

Eventualmente é necessária uma revisão mais completa. Os proprietários do Holiday World decidiram no ano passado que um percurso de cento e vinte metros no prato de espaguete era duro demais para os passageiros, então a Gravity Group reprojetou a seção com um alinhamento mais suave. O caminho e toda a sua estrutura foram removidos e reposicionados.

Sinkhorn ficou alarmada quando viu uma fotografia na página do parque no Facebook, mostrando o prato de espaguete sem aquela seção. "Tudo tinha acabado", diz ela. "Meu coração parou." Quando soube que estava apenas sendo revisado, teve suas dúvidas quanto ao resultado. "Pensei, 'mas no que será que isso vai dar?'", diz. "Mas quando andei nele algumas semanas atrás, estava macio como bumbum de bebê."


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