Acessibilidade, mistura de pessoas e cultura longe do agito da capital inglesa e próxima às belezas da Cornualha

Situada no remoto sudoeste da Inglaterra, onde os dedos estendidos da Cornualha invadem o Atlântico, St. Ives é um ótimo lugar para quem quer fugir de Londres, tanto por sua espetacular paisagem litorânea quanto por suas atrações artísticas de alto nível, como uma filial do museu Tate, de Londres; várias galerias comerciais; o museu Barbara Hepworth, localizado no antigo estúdio da grande escultora britânica; e o Leach Pottery, histórico estúdio de cerâmica fundado no local em 1920, que reabriu em 2008 depois de um projeto de restauração que custou 1,7 milhão de libras.

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Praia de St. Ives, na costa oeste da Cornualha
Luke Tchalenko/The New York Times
Praia de St. Ives, na costa oeste da Cornualha

A viagem de trem a partir da estação Paddington, em Londres, oferece vistas em alta velocidade do mar aberto, das florestas e dos pastos verdejantes divididos por velhas sebes. Só o trajeto já parece justificar o preço da passagem. Além disso, o serviço constante de vagões-leito oferece a chance de fazermos a viagem enquanto sonhamos, deixando Londres antes da hora de dormir, à meia-noite, e chegando em St. Ives a tempo de tomar o café da manhã.

Para a minha programação, a viagem diurna foi a melhor escolha. Depois de um animado, mas exaustivo, final de semana urbano, fiquei feliz em conseguir um assento no vagão tranquilo do trem matinal, que parecia deixar para trás o agito e o estresse da cidade grande a cada quilômetro silencioso percorrido. Paisagens costeiras passavam em um dos lados, enquanto, do outro, eu admirava os pacíficos cenários pastorais e, ocasionalmente, uma casa de campo. Quando o pequeno trem de conexão de dois vagões, que faz o rápido trajeto desde a cidade vizinha de St. Erth, cruzou a ponta da baía azul escura em direção aos antigos chalés de pedra dos pescadores de St. Ives, eu alcancei um estado zen que dificilmente sentiria na capital.

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Série de potes na Wills Lane Gallery, em St. Ives, onde foi reaberto o histórico estúdio de cerâmica Leach Pottery
Luke Tchalenko/The New York Times
Série de potes na Wills Lane Gallery, em St. Ives, onde foi reaberto o histórico estúdio de cerâmica Leach Pottery

Felizmente, no entanto, eu não havia deixado todas as atrações da cidade grande para trás. Em Londres, não tive tempo de visitar o Tate Britain ou o Tate Modern, mas consegui admirar a exposição individual mítica e divertidamente intertextual de Simon Fujiwara, "Since 1982", no Tate St. Ives, enquanto ainda me recuperava da viagem. Embora a exposição seja divertida, não faz jus ao maravilhoso cenário litorâneo do museu, e meus olhos rapidamente migraram das instalações para os surfistas pegando onda. Como um dos mais famosos pontos de surf da Inglaterra, a reputação da praia de Portmouth concorre com a fama artística da cidade, pelo menos entre os surfistas.

Do outro lado da cidade, ou seja, a 10 minutos de distância, admirei o arranjo de martelos, cinzéis e lixas de Barbara Hepworth, armazenados em sua oficina, do mesmo jeito que ela os deixou, junto com enormes blocos de pedra que esperavam pacientemente para que as esculturas dentro deles fossem libertadas. Estudantes de arte vagavam pelo jardim de esculturas do museu, esboçando as enormes obras em seus cadernos e fotografando uns aos outros entre as vinhas, bambus e plantas tropicais.

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Embora a maioria dos visitantes visite St. Ives pela arte e pelas paisagens, a mistura de habitantes locais, sufistas e frequentadores de galerias também inspirou uma culinária bastante vibrante. "Quando me mudei para St. Ives, há 20 anos, havia apenas um restaurante bom", disse Ylenia Haase, dona da galeria New Craftsman, que ofereceu algumas dicas quando entrei no estabelecimento para admirar um impressionante vaso "lua" de Adam Buick. "Hoje em dia, há vários lugares bons onde comer."

Aulas de surfe na tranquila St. Ives
Luke Tchalenko/The New York Times
Aulas de surfe na tranquila St. Ives

Orgulhosos de sua tradição, muitos dos melhores restaurantes dão destaque aos ingredientes regionais. Lembrando o fervor de Londres por hambúrgueres sofisticados, minha primeira paixão culinária aconteceu no Blas Burgerworks, um quiosque portuário estiloso com mesas comunais, um cardápio limitado e um nome inspirado na palavra que significa "sabor" ou "saborear" no dialeto da Cornualha. A princípio, desconfiei um pouco do prato do dia, possivelmente por causa do preço: um cheeseburger de cogumelos por 10,50 libras (cerca de R$ 34), sem batatas fritas. Mas o slogan pintado na parede, "Hambúrgueres para pessoas que se importam", e a ênfase orgulhosa nos produtos regionais, como as "vacas criadas em Pendeen e as batatas cultivadas perto de Marazion", me conquistaram.

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Fui conquistado também pelo próprio hambúrguer, uma obra prima de carne moída, que combinava os sabores defumados e encorpados da carne e do queijo com uma vasta variedade de texturas contrastantes: o pão macio, os cogumelos suculentos, a carne tenra e a alface crocante. Nem foi preciso perguntar de que tipo era o queijo que derretia untuosamente sobre os cogumelos aromáticos com gosto de alho e estragão. "É o Cornish Blue", disse a mulher atrás da grelha. "Ele foi eleito o melhor queijo do mundo há alguns anos."

O hambúrguer caprichado no Blas Burgerworks, em St. Ives: hambúrgueres para pessoas que se importam
Luke Tchalenko/The New York Times
O hambúrguer caprichado no Blas Burgerworks, em St. Ives: hambúrgueres para pessoas que se importam

Na noite seguinte, resolvi experimentar uma culinária mais sofisticada em um restaurante chamado Black Rock, e me apaixonei por uma entrada de mexilhões pequenos e quase frutados do Rio Fal, perto dali, que são servidos em um caldo azedo, doce e salgado de chouriço, limão e coentro, e que ressaltaram os sabores quase doces e minerais da cerveja Betty Stogs Bitter, da Truro. A combinação foi tão rica e satisfatória que tive dificuldade em terminar o prato principal: um pedaço amanteigado de barriga de porco cozida lentamente, acompanhada de aipos gratinados e cremosos, temperada com um molho de sidra levemente amargo.

Uma forte identidade local estava presente em cada refeição, do almoço de merluza local temperada com pimentas e ervas no restaurante Loft, aberto há três anos, aos canecos de Proper Job e outras ótimas cervejas da cervejaria local, St. Austell. No entanto, o ponto mais emocionante foi conhecer personagens locais e admirar a arte e a arquitetura, quer em uma caminhada pelas ruas estreitas e labirínticas ao redor do cais, em uma visita a uma galeria ou um museu, ou desbravando uma das passagens, parecidas com túneis, entre os chalés da cidade.

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Na orla, entrei em um antigo edifício de pedra, a Porthminster Gallery, em Westcott's Quay, com pés-direitos impressionantemente baixos, uma umidade palpável e uma quantidade quase desconcertante de imagens reconhecíveis. Eu já havia visto os charmosamente desconstruídos vasos de Carina Ciscato em uma capa de revista, e um esboço em outra parede era assinado por Ben Nicholson, que foi casado com Barbara Hepworth. Havia também uma obra abstrata de Patrick Heron, cujo retrato de T.S. Eliot está exposto na National Portrait Gallery. É estranho encontrar nomes tão importantes em um lugar tão frio e abafado.

Petronilla Silver, curadora da Wills Lane Gallery, em St. Ives
Luke Tchalenko/The New York Times
Petronilla Silver, curadora da Wills Lane Gallery, em St. Ives

"Esta galeria costumava ser um antigo armazém de sardinhas", explicou um dos seus donos, David Durham, referindo-se ao peixe que, junto com a mineração, sustentou a cidade durante séculos. "É por isso que o local é tão frio."

Apesar da sua localização remota de fim de mundo (Land's End, o local mais a oeste do território continental da Inglaterra, fica a apenas alguns quilômetros de distância), St. Ives transmite uma sensação impressionante de acessibilidade. Ao admirar as obras de arte nas vitrines da Wills Lane Gallery, fiquei desapontado ao descobrir que o local estava fechado durante as férias. Uma mensagem de texto enviada para o número que estava escrito na porta revelou que a curadora da galeria, Petronilla Silver, estava em um ônibus em Londres, mas que adoraria me mostrar o local assim que ele fosse reaberto, no dia seguinte.

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Em uma rápida parada antes de pegar o trem de volta para Londres, fiquei surpreso com a variedade de obras expostas. Enquanto Silver me mostrava algumas de suas preferidas, o assunto migrou das pinturas para as gravuras e das tigelas de alumínio de Drummond Masterton (7.840 libras) para as elegantes taças de cerâmica de Mick Arnold (15 libras).

Assim como a mistura de antigos pubs e alta cozinha, ou de ratos de praia e galeristas, o contraste entre as obras é áspero, mas convidativo. "Podemos receber a visita de alguém que nunca entrou em uma galeria ou do diretor do Tate de Londres", disse Silver. "Este é o aspecto mais interessante de St. Ives: a mistura de pessoas."

(*) Reportagem e texto de Evan Rail


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